EDITORIAL

Olá querid@s leitor@s do nosso Noticiário Eletrônico da SBM
Novembro chega e, com ele, a habitual e bem-vinda provocação: convida-nos a enxergar a Matemática para além das equações. Entre o fervilhar de eventos científicos, a celebração de talentos olímpicos e debates que exigem profundidade, este mês nos lembra de uma verdade crucial: a Matemática é, acima de tudo, feita de pessoas — de suas histórias de vida, suas lutas, suas descobertas e a esperança de um futuro mais justo.
NOTÍCIAS

USP sediará 4ª edição do Workshop internacional de Teoria dos Jogos e Aplicações Econômicas
Programado para 2026, o evento contará com a presença de laureados do Nobel de Economia
A Universidade de São Paulo (USP) será palco, de 26 de julho a 2 de agosto de 2026, do 4º Workshop Internacional de Teoria dos Jogos e Aplicações Econômicas (IWGTEA), um dos mais relevantes encontros acadêmicos da área em âmbito mundial.

Medalhistas da 2ª edição da OPMbr são anunciados
No último dia 08 de novembro, foram divulgados, em uma transmissão ao vivo no canal da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) no YouTube, os vencedores da 2ª edição da Olimpíada Brasileira de Matemática dos Professores do Ensino Médio (OPMbr).
A OPMbr tem como propósito valorizar e fortalecer o ensino da Matemática no país, incentivando a formação contínua e o reconhecimento de professores do ensino médio, além de estimular a integração entre escolas, universidades e institutos de pesquisa, fomentando a inclusão social por meio do conhecimento matemático.

Matemática em evidência: professor da UFCG integra lista global dos pesquisadores mais citados do mundo em 2025
Claudianor Oliveira Alves é um dos 17 brasileiros na lista da Clarivate, que identifica cientistas com impacto global excepcional, e reforça a excelência e a visibilidade internacional da produção matemática do país
O matemático Claudianor Oliveira Alves, professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), foi incluído na edição 2025 da lista Highly Cited Researchers (HCR, Pesquisadores Altamente Citados na tradução), divulgada pela consultoria Clarivate Plc.

Pesquisa sobre fractais e progressões geométricas vence 2ª edição do Prêmio Regional do PROFMAT na região Norte
Trabalho do professor Jairomar de Araújo Sobrinho apresenta uma sequência didática aplicada no Ensino Médio e mostra como abordagens visuais podem facilitar o aprendizado de Matemática
O professor Jairomar de Araújo Sobrinho foi o vencedor da região Norte na 2ª edição do Prêmio Regional de Dissertações do Mestrado Profissional de Matemática em Rede Nacional (PROFMAT). Seu trabalho, intitulado “Geometria fractal na construção de figuras planas envolvendo progressões geométricas”, foi defendido em 2024 na Universidade Federal do Tocantins (UFT) e propõe uma abordagem visual e investigativa para o ensino de Matemática na educação básica.
Travessias na Matemática: Memória, Racismo Estrutural e Futuro
Nivaldo Grulha Jr.
Novembro marca, em todo o país, o Mês da Consciência Negra — um tempo que abre espaço para que temasétnico-raciais ganhem visibilidade. Há, claro, uma crítica justa ao fato de concentrarmos esse debate em apenas um mês, como se o racismo não atravessasse todos os dias da nossa vida. Ainda assim, percebo como esse período tem permitido que conversas importantes finalmente cheguem a lugares onde, por muito tempo, falar sobre raça foi visto como incômodo ou até inadequado.
A matemática é um desses lugares. Durante décadas, discutir questões raciais na nossa área soava estranho,quase deslocado, como se não houvesse relação entre quem faz matemática e as estruturas sociais que moldam o acesso à educação e ao conhecimento. A ideia de uma “neutralidade” matemática serviu muitas vezes para silenciar esse debate. Mas, mesmo se pudermos assumir uma tal neutralidade na matemática, nós — as pessoas que construímos essa comunidade — certamente não somos. E nossas trajetórias também não são.
Esse racismo estrutural que atravessa a matemática brasileira não é uma exceção nacional; ele também se manifesta na matemática em outras partes do mundo, refletindo padrões globais de desigualdade. E, embora algumas mudanças em nosso país tenham sido conquistadas graças às lutas dos movimentos sociais — especialmente nas últimas décadas —, estamos ainda muito longe do que deveria ser o ideal.
Essa diferença fica visível quando olhamos para quem ocupa os comitês científicos, quem participa das grandes decisões, quem sobe ao palco dos eventos mais prestigiados. A matemática brasileira não espelha o país em que vive: um Brasil de maioria negra, mas cuja representatividade não aparece na composição de seus espaços de prestígio. Isso não se explica por falta de talento ou interesse, mas por desigualdades antigas, profundas, que seguem produzindo barreiras reais.
Nessas horas, não tem como eu não lembrar da minha própria história. É impossível não pensar nisso quando lembro do meu avô, o Sr. Artur Grulha. Mãos marcadas pela colheita do cacau e por tantos outros trabalhos da lida diária no interior da Bahia. Ele jamais teve acesso à escola, mas ousou imaginar um futuro diferente, em outro lugar, distante dos seus, que mudou sua vida, sim, mas que deu outra perspectiva para nós, os seus netos que só existiam em sua esperança.
Às vezes imagino o que ele diria ao me ver hoje, professor negro na USP, ocupando espaços que historicamente não foram feitos para nós, mas que abrimos com teimosia, estudo e fé. Carrego em meu corpo e minha alma essa travessia como tantas outras que meus antepassados fizeram. Carrego a periferia de onde vim, a ancestralidade que me sustenta, e a responsabilidade de ser ponte entre mundos que raramente conversam — o da universidade e o das tantas crianças negras que ainda não se veem autorizadas a sonhar com a ciência, ou que sequer sabem que podem sonhar com isso.
E é justamente por isso que faço questão de lembrar: nenhuma história individual basta por si só. A presença de pessoas negras na universidade é sempre uma conquista coletiva. É fruto da luta de famílias, comunidades, movimentos sociais e de quem, antes de nós, abriu portas muitas vezes à custa de enormes sacrifícios. A matemática — assim como qualquer área — cresce quando reconhece essa pluralidade. Diversidade não é favor, não é ornamento: é condição de excelência.
Assumir um compromisso com a equidade racial é assumir um compromisso com a própria qualidade da ciência que produzimos. É trabalhar para que as próximas gerações de estudantes negras e negros encontrem, não um campo de batalha, mas um ambiente que acolha seus talentos, suas perspectivas e suas contribuições. Só assim construiremos uma matemática verdadeiramente mais forte, mais plural e mais justa.
VII Colóquio de Matemática da Região Nordeste
Estão abertas as inscrições para o VII Colóquio de Matemática da Região Nordeste, que será realizado no período de 23 a 26 de novembro de 2026, na cidade do Recife.
O primeiro lote de inscrições estará disponível de dezembro de 2025 a julho de 2026. Convidamos docentes, pesquisadores, estudantes e demais interessados a participarem deste importante encontro científico, que tem como objetivo promover o intercâmbio acadêmico e o avanço das pesquisas em Matemática na região.
O evento contará com diversas atividades, incluindo mesas-redondas e sessões temáticas distribuídas em sete áreas: Álgebra, Análise, Ensino/Educação Matemática, Estatística e Probabilidade, Geometria e Topologia, Combinatória e Singularidades. As submissões de trabalhos estarão abertas no período de 12 de janeiro a 12 de maio de 2026.
Maiores informações estão disponíveis no link abaixo: https://sbm.org.br/coloquio-nordeste-7/
CRONOGRAMA DE EVENTOS SBM
2026
•XII Bienal da Sociedade Brasileira de Matemática – UFRN, Natal/RN – junho de 2026;
• 5° Colóquio de Matemática da Região Sudeste – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ – 31 de agosto a 04 de
setembro de 2026;
• 7° Colóquio de Matemática da Região Nordeste – UFPE, Recife/PE – 23 a 27 de novembro de 2026
PROFMAT: PARA ALÉM DAS CONTAS
O Doutorado PROFMAT
Por Fábio Xavier Penna
Em outubro deste ano, a CAPES aprovou a criação do Doutorado Profissional em Matemática em Rede Nacional, o Doutorado Profmat (Profmat-D), ampliando um projeto que já transformou a carreira de milhares de professores da Educação Básica desde o lançamento do mestrado. O novo programa chega para suprir uma demanda crescente: formar profissionais capazes de atuar no cruzamento entre Matemática, políticas públicas, tecnologias educacionais e divulgação científica. Voltado prioritariamente para docentes da Educação Básica — especialmente egressos do Mestrado Profmat — o Profmat-D parte de um diagnóstico importante: muitos professores, ao concluírem o mestrado, passam a ocupar funções de coordenação, gestão e produção de materiais educacionais.
O doutorado responde a esse movimento oferecendo formação avançada tanto em Matemática quanto em outras áreas estratégicas para o sistema educacional. O programa compreende uma única área de pesquisa, Matemática na Educação Básica, estruturada em quatro linhas:
• (L1) Pesquisa e Inovação da Matemática para a Educação Básica;
• (L2) Bases Científicas e Quantitativas da Matemática para a Educação Básica;
• (L3) Métodos e Ferramentas Computacionais para a Educação Básica em Matemática;
• (L4) Divulgação e Comunicação Pública da Matemática e a Educação Básica.
Essas linhas refletem a diversidade de atuações esperadas de seus futuros egressos: análise e implementação de políticas educacionais; uso crítico de bases estatísticas; desenvolvimento de currículos e materiais didáticos inovadores; criação de plataformas e aplicativos; e atividades de comunicação científica que aproximem a Matemática da sociedade.
Outro ponto central é a articulação do Profmat-D com as competências 1.1 e 1.2 da BNC-Formação — dominar o conhecimento matemático e saber ensiná-lo, além de compreender quem são os estudantes e como aprendem. Ao aprofundar conteúdos matemáticos, métodos quantitativos, fundamentos de ensino, desenho curricular e avaliação, o programa forma um profissional que alia rigor conceitual à capacidade pedagógica e diagnóstica. Num cenário de mudanças profundas no Ensino Médio, de revisões curriculares estaduais e municipais e de crescente impacto das avaliações em larga escala, o Profmat-D surge como uma resposta acadêmica estratégica. Ao mesmo tempo, inaugura no Brasil uma linha formal de pesquisa e formação em divulgação e comunicação pública da Matemática, campo já consolidado em outros países, mas ainda embrionário aqui.
Por fim, o programa aposta numa perspectiva translacional, unindo reflexão acadêmica e intervenção prática. Espera-se que os trabalhos desenvolvidos durante o curso já produzam impacto direto nas escolas, nas redes de ensino e nos espaços de divulgação científica. A aprovação da CAPES marca, portanto, um avanço significativo para a formação continuada de professores e para o fortalecimento da Matemática no país. Mais informações podem ser encontradas nas redes sociais da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e no site do Profmat.
COLUNA ENSINO DA MATEMÁTICA
Por Cydara Cavedon Ripoll
Até aqui esta coluna contemplou diversos tipos de pensamentos na matemática, devendo ser considerados também na Escola (Noticiários 73 a 79). Em seguida, dedicamo-nos ao que consideramos a mais básica estratégia pedagógica que pode amparar a abordagem desses pensamentos, desde os anos iniciais até a universidade: materiais concretos ou manipulativos (Noticiários 80 a 84). Passamos agora a outra estratégia pedagógica: as representações pictóricas, que incluem desenhos, esquemas, diagramas, tabelas, gráficos etc. Essas representações apóiam a formação de imagens mentais que, por sua vez, oportunizam o pensamento generalizador, esse muitas vezes não alcançado com o material concreto nem com o pictórico.
As representações pictóricas podem ser utilizadas em diferentes situações do desenvolvimento do pensamento ou da argumentação matemáticos:
- como segunda etapa do caminho que avança do material concreto para o raciocínio abstrato. A Profa. Franciele Wermann relata sobre uma aluna que, logo após abandonar o ábaco dos números inteiros (ver Noticiário 81), ainda buscou apoio em uma representação visual de um ábaco de hastes tão compridas quanto necessário e de grande número de argolas para efetuar a adição (+100)+(-200);
- como meio de identificação de uma ideia central para uma demonstração ou uma estratégia de prova.

- como meio de identificação de uma ideia central para uma demonstração ou uma estratégia de prova. Por exemplo, no cálculo do número de diagonais de um polígono convexo, se pensamos em uma prova por indução, é relevante refletir sobre o que acontece com o número de diagonais quando acrescentamos mais um lado (ou vértice) a um polígono de n lados;
- como meio de descoberta de fatos/conceitos/conjecturas. As representações pictóricas podem auxiliar no pensamento generalizador. Por exemplo, depois de construir uma representação pictórica para o número 14 enaltecendo sua propriedade de ser par dispondo esta quantidade na forma de um arranjo retangular

- como meio de descoberta de fatos/conceitos/conjecturas. As representações pictóricas podem auxiliar no pensamento generalizador. Por exemplo, depois de construir uma representação pictórica para o número 14 enaltecendo sua propriedade de ser par dispondo esta quantidade na forma de um arranjo retangular

- com duas linhas (ou duas colunas), estudantes podem aceitar mais facilmente a construção de um número par genérico fazendo uso de “…” e daí construir uma imagem que representa a adição de dois números pares e concluir que a soma será sempre um par:

- como ajuda na compreensão de um conceito, como o de função par e função ímpar:

- como demonstração. Todo matemático concorda que a imagem abaixo não só demonstra a enumerabilidade do
conjunto Z como sugere a prova em palavras ou em simbologia matemática para este fato.

É inegável o potencial das representações pictóricas para fins pedagógicos. Nos próximos noticiários exploraremos mais este fato em situações de Ensino.
COLUNA DIVULGAÇÃO MATEMÁTICA
Pelos canais e portais da divulgação matemática
Por Miriam Telichevesky
Há alguns anos, temos acompanhado um expressivo aumento na quantidade de conteúdos digitais produzidos para divulgar ciência. Inicialmente tais conteúdos eram concentrados em portais e canais do Youtube, para nos últimos anos vermos uma maior concentração de postagens em redes sociais de conteúdos rápidos, como o Instagram e o TikTok. Não é raro ouvir pessoas do meio acadêmico, quando toco no assunto “divulgação científica”, se empolgarem com a possibilidade de criar esse tipo de conteúdo para atrair atenção para a Matemática. Penso que precisamos ter bastante cautela quando ideias assim surgem.
Muitas vezes, se tem a falsa ideia de que por estar na internet, o alcance do conteúdo é de grandes proporções. Acontece que, salvo em alguns casos onde há engajamento ativo, através de comentários ou outros feedbacks de onde se extraia informações qualitativas a respeito da interação, não temos muito como medir qual é o alcance do conteúdo. Além disso, e para mim soa como uma questão central de reflexão, temos que entender qual é o público que de fato está interagindo.
Pouco adianta, do ponto de vista da divulgação/popularização da Matemática, mirar em públicos que já gostam da Matemática e já têm maior familiaridade com ela. O grande desafio é trazer para esses portais de conhecimento aquelas pessoas que evitam contatos com a Matemática para além das obrigações. Acontece que, exceto quando precisar entender algum conceito e fazer uma busca ativa, dificilmente aquela pessoa que não se sente bem com a Matemática vai navegar por estes ambientes Ela vai acessar apenas aquilo que é estritamente necessário (e voltará a fugir da Matemática o mais rápido possível!). Assim, não podemos considerar divulgação científica qualquer tipo de conteúdo publicado online, por melhor que seja tal conteúdo.
Por outro lado, quando as publicações estão alinhavadas com outras formas de comunicação, sejam elas conversas pessoais, bate-papos (como palestras), entre outras atividades efetivamente interativas, é possível que se alcance plenamente os objetivos. Além disso, a própria ênfase no conteúdo (é em algum conteúdo matemático ou sobre algo no qual a Matemática aparece como coadjuvante?) tende a fazer diferença no engajamento de público menos familiarizado. Existem diferentes estratégias que precisam ser utilizadas, que vão muito além de produzir e publicar conteúdos no meio digital. Neste sentido, é também indispensável conhecer um pouco do público que interage com os conteúdos, e principalmente, como estas pessoas são impactadas, no sentido de aprimorar a percepção a respeito dos temas tratados.
Então quando vejo essa empolgação, em diferentes níveis, a respeito da potencialidade de divulgar nas redes, eu costumo dizer: Cuidado! Não é qualquer portal ou canal contendo materiais que vai fazer diferença nos processos de inserção da população na Matemática. Precisamos mirar naquelas pessoas que ainda não sabem que o conhecimento matemático deve ser para todos, e isso vai muito além de apenas produzir e publicar.
COLUNA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
O Primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática: um marco para o desenvolvimento da Matemática no Brasil – Parte 1
Por Sérgio Nobre & Angélica Raiz
Nas edições de 2 e 5 de julho de 1957, os jornais Folha de Poços de Caldas e O Estado de São Paulo noticiaram o evento com os títulos: “O Primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática em Poços de Caldas” e “Em nossa cidade o Primeiro Colóquio de Matemática”. As matérias relatavam que o encontro reuniria aproximadamente 50 professores de diversas regiões do Brasil. O evento tinha como finalidade aprofundar o conhecimento da Matemática contemporânea, promover um maior contato entre os matemáticos brasileiros e incentivar o estudo de novas áreas.
O Primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática ocorreu de 1o a 20 de julho de 1957 no Palace Hotel, na cidade de Poços de Caldas, Minas Gerais. Este evento é considerado um marco histórico para a Matemática brasileira, pois colaborou para o desenvolvimento e crescimento das pesquisas na área no país.
A ideia de se realizar um evento desse formato surgiu em julho de 1956, no Rio de Janeiro, durante uma conversa entre os professores Chaim Samuel Hönig, Leopoldo Nachbin (diretor do setor de Matemática do CNPq) e Alfredo Pereira Gomes (Universidade de Pernambuco). Eles concordaram com a necessidade de organizar um encontro focado na Matemática contemporânea. A urgência foi observada pelo professor Hönig, que, ao participar de um evento da Sociedade Brasileira do Progresso para a Ciência (SBPC), notou o grande interesse dos participantes em temas como Topologia, Álgebra e Análise.
O professor Hönig levou a proposta de organizar uma reunião com cursos sobre esses temas aos colegas do Departamento de Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, e a realização do colóquio foi decidida. Hönig, o idealizador, liderou a Comissão de Organização, que era formada por professores de instituições de destaque da época:
• Alfredo Pereira Gomes (Instituto de Matemática da Universidade de Recife)
• Alexandre Augusto Martins Rodrigues (FFCL-USP)
• Antonio Rodrigues (Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul)
• Cândido Lima da Silva Dias (FFCL-USP)
• Carlos Benjamim de Lyra (FFCL-USP)
• Fernando Furquim de Almeida (FFCL-USP)
• José de Barros Neto (Faculdade de Ciências Econômicas da USP)
• Lindolpho de Carvalho Dias (Escola de Engenharia da Universidade do Brasil)
• Luiz Henrique Jacy Monteiro (FFCL-USP)
• Maurício Matos Peixoto (ENE-UB)
• Paulo Ribenboim (Instituto de Matemática Pura e Aplicada – IMPA)
O evento contou com apoio financeiro do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Um ponto importante era a escolha do local. Decidiu-se que o evento não deveria ser realizado nos grandes centros, buscando um lugar que maximizasse o aproveitamento e o contato pessoal entre os participantes.
Diversos locais foram sugeridos, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA (São José dos Campos), a Escola de Engenharia da USP (São Carlos), a Escola da Fundação Getúlio Vargas (Nova Friburgo) e a Universidade Rural (km 47 da Via Dutra). A cidade de Poços de Caldas foi a escolhida por oferecer um ambiente agradável e relativamente isolado, ideal para favorecer os estudos, além de acomodações para os participantes, que frequentemente viajavam acompanhados de suas esposas e filhos. O Palace Hotel ofereceu as melhores condições: cedeu as amplas salas do antigo Cassino e garantiu que todos ficassem alojados no mesmo local, o que facilitou a realização das atividades propostas e o intercâmbio pessoal.
O Colóquio, realizado em três semanas, teve uma programação composta por cursos específicos em Matemática Contemporânea e sessões de conferências sobre diversos tópicos da Matemática. Além da intensa atividade de estudos, foram promovidos diálogos e reuniões para discutir a organização do próprio evento (escolha de cursos e local) e a necessidade de realizar futuros colóquios.
Essas discussões resultaram em importantes deliberações para o futuro da Matemática no Brasil:
• Realização de um colóquio a cada dois anos.
• Entrega prévia de notas mimeografadas dos cursos oferecidos nos próximos colóquios.
• Responsabilidade do IMPA pela formação da Comissão de Organização.
• Criação urgente de uma literatura matemática brasileira de nível superior.
• Incentivo ao intercâmbio entre os diversos centros regionais.
• Vinda de professores estrangeiros para os centros universitários.
• Ampliação dos periódicos matemáticos brasileiros da época, como a Summa Brasiliensis Mathematicae e o Boletim da Sociedade de Matemática de São Paulo. Para a escolha dos cursos, considerou-se fundamental que os temas refletissem as tendências emergentes da Matemática na época e abrangessem assuntos nos quais os pesquisadores brasileiros já estavam atuando. Além disso, esperava-se que os cursos servissem como um estímulo para o aperfeiçoamento de futuros pesquisadores e professores para os cursos regulares.
Após discussões e deliberações da Comissão de Organização, os seguintes quatro cursos foram definidos e ministrados:
• Introdução à Topologia Algébrica
• Geometria Diferencial e Variedades Diferenciáveis
• Análise Funcional
• Teoria de Galois e Teoria dos Números Algébricos
Adicionalmente, os professores Morikuni Goto e George Reeb ministraram dois cursos no Colóquio. Com o objetivo de proporcionar aos participantes uma visão mais ampla sobre as áreas da Matemática naquele
período, a Comissão de Organização considerou conveniente promover também uma série de conferências. Estas palestras deveriam apresentar aspectos de outros campos da Matemática, complementares aos conteúdos desenvolvidos nos cursos.
Especialistas de diferentes centros universitários foram convidados para realizar essas conferências. Ao todo, os participantes tiveram a oportunidade de assistir a 16 palestras, proferidas por dez professores. Considerando a importância de um pleno aproveitamento do conteúdo, a organização elaborou e entregou previamente aos participantes notas mimeografadas dos temas que seriam estudados nos cursos.
O evento contou com quarenta e nove participantes de diversas regiões do país, além dos dois participantes estrangeiros que se encontravam no Brasil, Georges Henri Reeb (Universidade de Grenoble) e Morikuni Goto (Universidade de Tokyo). O público não se restringiu a professores, incluindo também interessados em assistir aos cursos, o que hoje corresponderia aos alunos de pós-graduação.
Alguns dos participantes deste primeiro colóquio tiveram contribuições notáveis para o crescimento e desenvolvimento das pesquisas em Matemática no Brasil:

O Primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática foi um sucesso, apesar das dificuldades da época, como os meios limitados de comunicação e transporte, e o fato de todos os materiais serem elaborados com mimeógrafos e máquinas de escrever.
Com o passar do tempo, os colóquios seguintes se tornaram cada vez mais especializados e com um aumento significativo de participantes. Essa expansão levou à necessidade de realizar eventos separados por área, como as Escolas de Análise, de Geometria, de Álgebra, entre outras. A impossibilidade de convidar todos para um único evento demonstrou, na prática, o grande desenvolvimento e crescimento das pesquisas em Matemática no Brasil.
Os colóquios continuaram a ser realizados a cada dois anos em Poços de Caldas (com exceção da terceira edição, em Fortaleza). No entanto, com a construção da atual sede do IMPA e a limitação de espaço em Poços de Caldas, a partir da 16a edição, em 1987, os colóquios passaram a ocorrer na cidade do Rio de Janeiro.
Referência Bibliográfica
CALABRIA, Angélica Raiz. Primeiro Colóquio Brasileiro de Matemática: identificação de um registro e pequenas biografias de seus participantes. Dissertação (mestrado). Instituto de Geociências e Ciências Exatas. Unesp – Rio Claro, 2010.
PROGRAMA DE MENTORIA PARA MULHERES – ELAS EM MOVIMENTO
Nesta edição, temos a contribuição de Lisandra Sauer, professora da UFPel, e também uma
das coordenadoras do Programa de Mentorias para Mulheres da área da STEM
Por Valéria Neves Domingues Cavalcanti
Que as mulheres enfrentam muitos obstáculos na carreira científica é conhecido por homens e mulheres. Desafios esses como associação ao cuidado, a desvalorização de suas capacidades com termos associados a esforços e assim por diante. Mas, mesmo quando uma mulher chega a carreira universitária com a tão desejada aprovação no concurso público, muitas ainda são alvo de segregação.
Talvez alguns pensem e talvez digam: Isso é apenas impressão! Homens e mulheres tem as mesmas oportunidades dentro da Matemática. Infelizmente, em se tratando da participação de mulheres em bancas de concurso, convite para plenárias, convites para participar de comitês de avaliações e outras situações que dependam de convites dos pares e não de inscrição, a realidade apresenta uma assimetria.
Isso pode ser visto, observando o lattes da própria comunidade matemática. Faça um exercício: abra o lattes de um pesquisador homem conhecido seu. Vá na sessão de bancas de concurso ou bancas de mestrado e doutorado. Quantas desses bancas apresentam nomes de pesquisadoras? E qual a proporção dessas que apresentam nomes femininos com relação a todas que o pesquisador fez parte?
Se você encontrou 50% ou mais de bancas mistas saiba que está dentro de uma exceção que gostaríamos muito que virasse regra. E o pesquisador está de parabéns e para esse realmente a matemática não tem gênero. Mas infelizmente a realidade não é assim. Se você observar que, desde 2024, a participação de plenaristas femininas em eventos apoiados pela Sociedade Brasileira de Matemática aumentou significativamente quando comparada a eventos anteriores. Acredito que essa mudança se deu pela Política de Apoio a Reuniões Científicas na qual consta o item:
- Balanço de gênero entre os palestrantes do evento, bem como outros aspectos que contemplem a diversidade.
Esse incentivo a igualdade de gênero não beneficia apenas as mulheres pelo fato de que a matemática se amplia quando colaboramos com pessoas de diferentes gêneros, raças, regiões, etc. Assim como desejamos que a matemática feita no Brasil seja divulgada mundialmente, dar voz para mulheres divulgarem seus trabalhos e propor atividades colaborativas também beneficia a matemática a nível mundial.
Algumas pessoas podem pensar que os organizadores de eventos ou responsáveis por bancas de concursos ou de trabalhos acadêmicos não conhecem matemáticas mulheres para fazerem os convites ou que não possuem os contatos quanto olham no lattes. Algumas ações já foram feitas no sentido de apresentar possibilidades de convites. Podemos apontar a divulgação feita pelo comitê Mulheres da Matemática Aplicada e Computacional da SBMAC , de matemáticas classificadas por áreas.
Essa seleção pode ser acessada no site https://www.mulheressbmac.com.br/quem-somos . Além disso, nas redes sociais também é possível encontrar matemáticas com vídeos curtos falando de seus trabalhos na rede social Instagram no perfil @marialaurasoueumat, um projeto de extensão chamado Maria Laura sou eu! , de Professores da UERJ coordenado pela matemática Adriana Juzga León. Esse projeto está em andamento e vídeos de matemáticas mulheres são bem-vindos.
Por último, convido toda a comunidade a pensar e colaborar para chegarmos na simetria de gênero em eventos e bancas. A ciência, incluindo a matemática, se torna mais maravilhosa diante da diversidade. Ela é feita pela humanidade e essa é formada por homens e mulheres.
COLUNA OLÍMPICA
Por Vinícius Rispoli
Entre os dias 26 de outubro e 1o de novembro, Fortaleza (CE) tornou-se o centro da matemática nas Américas ao sediar, de forma inédita no país, a 5a edição da Olimpíada Pan-Americana Feminina de Matemática (PAGMO). Inspirado na tradicional Olimpíada Europeia Feminina de Matemática (EGMO), o evento foi organizado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) em parceria com a Associação Olimpíada Brasileira de Matemática (AOBM). Para viabilizar uma competição desse porte, a organização contou com o financiamento do CNPq e o patrocínio de importantes instituições de fomento à educação e ciência, como a CAPES, Fundação Lemann, Global Talent Fund e a empresa Jane Street.
A edição brasileira reuniu delegações de mais de uma dezena de países, promovendo um intercâmbio cultural e acadêmico de alto nível. A estrutura da competição seguiu o rigoroso modelo da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), desafiando as estudantes em dois dias de avaliações. Em cada dia, as participantes dispuseram de quatro horas e meia para solucionar três problemas de elevada complexidade, um formato que exige não apenas vasto conhecimento técnico, mas também criatividade e resistência mental para enfrentar questões inéditas.
O desempenho da equipe anfitriã foi o destaque final do evento, consolidando a força do Brasil na modalidade. As quatro estudantes que representaram o país subiram ao pódio, todas conquistando medalhas de prata. As premiadas foram as cearenses Julia de Paula Pessoa Leguiza e Giovana Pereira Ramos, a mineira Júlia de Oliveira Bernardo Passarini e a piauiense Júlia Soares Barros, um resultado que celebra o talento nacional e incentiva a presença feminina nas ciências exatas.
Maiores informações:
https://www.obm.org.br/pan-american-girls-mathematical-olympiad-pagmo/
Solução do Problema Publicado na Edição 83
