Noticiário #83 – setembro/2025

Nivaldo Grulha, Editor-chefe

Olá querid@s leitor@s do nosso Noticiário Eletrônico da SBM

Setembro foi um mês recheado de ótimas atividades para a comunidade da SBM. Em várias frentes. Da iniciação científica à cooperação latino-americana, passando pelo reconhecimento de trajetórias acadêmicas. Vimos reafirmar a vitalidade e o compromisso que animam nossa sociedade. Ao olharmos para esses eventos em conjunto, percebemos que não são apenas conquistas isoladas, mas uma luta conjunta que aproxima gerações, instituições e países.

Bianca Marin Moreno venceu Prêmio L’Oréal França 2025 por suas pesquisas em inteligência artificial e no setor energético | Foto: Arquivo Pessoal

Ciência brasileira em destaque: pesquisadora de exatas conquista prêmio na França

Paulista Bianca Marin Moreno venceu o Prêmio L’Oréal França 2025 por sua pesquisa em inteligência artificial e energia

O reconhecimento internacional da ciência brasileira ganhou mais um capítulo em 2025. A matemática Bianca Marin Moreno foi contemplada com o Prêmio L’Oréal França para Mulheres e a Ciência, uma das mais importantes distinções concedidas a jovens pesquisadoras que se destacam por suas contribuições científicas.

Criada pela Fundação L’Oréal em parceria com a Unesco, a premiação tem como missão valorizar o papel das mulheres na ciência e ampliar sua representatividade em áreas em que ainda são minoria, como a matemática e a inteligência artificial.

As atividades da programação dos 30 anos da UMALCA ocorreram no auditório do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp | Foto: Lydia Soares/SBM

Conferência UMALCA celebra 30 anos da integração latino-americana e caribenha na matemática

Sob a liderança de Jaqueline Mesquita, evento na Unicamp marcou a trajetória da União e destacou novos caminhos para o futuro

Neste ano, o início da primavera em solo brasileiro não trouxe apenas temperaturas mais altas e o cenário ideal para o florescimento da paisagem, mas também a celebração de um momento especial: a comemoração do 30º aniversário da União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA). Sob a presidência de Jaqueline Mesquita, que também lidera a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a UMALCA celebrou três décadas de trajetória em grande estilo, com uma conferência realizada nos dias 23 e 24 de setembro, no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues: conheça os alunos de Iniciação Científica premiados em 2025

Premiação da SBM destacou pesquisas originais e o talento de jovens matemáticos durante a 2ª Semana Nacional de Iniciação Científica, em Belém

Há conquistas que vão além de um simples resultado. O Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues de Iniciação Científica nasce com esse espírito: o de reconhecer não apenas os melhores trabalhos apresentados por jovens estudantes, mas também a dedicação silenciosa, o rigor matemático e a curiosidade que movem os primeiros passos de uma vida acadêmica.

SBMAC, SBM e SMM firmaram acordos institucionais que prometem estreitar relações entre pesquisas brasileira e mexicana | Foto: Ana Santiago/SBM

Brasil e México fortalecem laços acadêmicos em primeiro encontro conjunto de Matemática em Fortaleza

Promovido pela SBM, SBMAC e SMM, evento estimulou a colaboração entre jovens pesquisadores e consolidou parcerias científicas entre países da América Latina

Brasil e México compartilham uma longa lista de particularidades: dimensões continentais, forte presença cultural e linguística no cenário latino-americano, desafios sociais comuns e comunidades científicas que, ao longo da história, buscaram soluções criativas para problemas de impacto regional e global. Essas afinidades foram a base sobre a qual se estruturou o I Encontro Conjunto Brasil-México em Matemática, realizado de 8 a 12 de setembro, no Hotel Mareiro, em Fortaleza.

A comissão julgadora da tese de Fabrício Quintero foi composta por professores do IME, da Unicamp, da Universidade Federal do Espírito Santo e da Universidade de Salerno, na Itália (Crédito da imagem: arquivo pessoal)

Pesquisador colombiano da USP conquista Prêmio Gutierrez 2025

Fabrício Valencia Quintero foi reconhecido por sua tese em geometria e topologia; cerimônia acontece em 2 de outubro em São Carlos

O pesquisador colômbiano Fabrício Valencia Quintero lembra que estava jantando com a esposa, que é peruana, quando recebeu a notificação por e-mail de que sua tese seria agraciada com o Prêmio Carlos Gutierrez de Teses 2025. Concedida pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), em parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, a distinção reconhece e celebra pesquisas de excelência em matemática desenvolvidas no Brasil. 

A UFPA foi o palco da II SENIC | Foto: SBM

SENIC 2025: evento celebra o protagonismo dos jovens talentos da iniciação científica brasileira

A segunda edição, realizada em Belém (PA), foi marcada pela excelência acadêmica, diversidade de pesquisas e integração entre estudantes de todo o país

Entre os dias 18 e 22 de agosto, a Universidade Federal do Pará (UFPA) recebeu um dos principais eventos da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM): a Semana Nacional de Iniciação Científica (SENIC), em sua 2ª edição. Reunindo os melhores trabalhos de iniciação científica em Matemática do país, a II SENIC destacou-se não apenas pela excelência acadêmica, mas pela integração regional, pelo fortalecimento de vínculos e pela consolidação de um solo fértil para jovens cientistas brasileiros. 

Delta do Parnaíba receberá o 3º Encontro Conjunto Brasil-China de Matemática em agosto de 2026 | Foto: Chico Rasta/MTur – Flickr

SBM e SBMAC levam 3º Encontro Brasil-China de Matemática ao Delta do Parnaíba e projetam Piauí no cenário científico internacional

Evento inédito no Nordeste reunirá pesquisadores do Brasil, China e outros países em agosto de 2026 para fomentar cooperação acadêmica, inovação e turismo de eventos na região

Conhecida por suas belezas naturais, como o Delta do Parnaíba e suas praias, a cidade de Parnaíba, no litoral do Piauí, será palco de um estratégico encontro científico internacional. De 10 a 14 de agosto de 2026, o município – a 320km da capital Teresina – receberá o 3º Encontro Conjunto Brasil-China de Matemática, tendo como sede a Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar).

2025
• 1º Encontro Nacional em Popularização da Matemática – UNICAMP, Campinas/SP – 03 a 05 de dezembro de 2025

2026
• XII Bienal da Sociedade Brasileira de Matemática – UFRN, Natal/RN – junho de 2026
• 5º Colóquio de Matemática da Região Sudeste – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ – 31 de agosto a 04 de setembro de 2026
• 7º Colóquio de Matemática da Região Nordeste – UFPE, Recife/PE – 23 a 27 de novembro de 2026

O PROFMAT no debate curricular da formação do professor de Matemática 

Por Fábio Xavier Penna (UNIRIO)

Entrou em vigor em 1o de julho de 2024 a Resolução no 4 do Conselho Nacional de Educação (CNE), que definiu as novas diretrizes curriculares nacionais para a formação inicial em nível superior de profissionais que ministram aulas da Educação Básica. Entre os cursos afetados estão as Licenciaturas em Matemática. O prazo para adequação dos projetos pedagógicos é de dois anos, encerrando-se em junho de 2026. Por isso, coordenadores de licenciaturas, como é o meu caso, estão às voltas com uma reforma curricular que reorganiza aspectos centrais da formação docente.

Alguns pontos de destaque são: início obrigatório do estágio curricular já no primeiro período, com carga horária distribuída ao longo do curso; integração das atividades de extensão à matriz curricular (curricularização da extensão); exigência de que tanto o estágio quanto a extensão sejam realizados presencialmente em instituições de Educação Básica, independentemente da modalidade do curso de licenciatura (presencial ou a distância); carga horária mínima de 880h para disciplinas de formação geral, que compõem a base comum de todas as licenciaturas (cerca de 15 disciplinas de 60h cada); e a carga horária das disciplinas com conteúdo específico de Matemática pura e daquelas que abordem o domínio pedagógico destes conteúdos deve ser no mínimo 1600h (aproximadamente 27 disciplinas de 60h cada). Diante desse cenário, surge uma questão: de que forma a pesquisa desenvolvida no Profmat pode contribuir para a análise crítica e o debate em torno dessas mudanças?

Conforme o relatório do GT de Produção Técnica instituído pela CAPES em 2019, há um leque bastante amplo de produtos técnico-tecnológicos possíveis nos cursos de pós-graduação profissionais. A lista inclui artigos, livros, softwares, materiais didáticos e também relatórios técnicos, entre outros. Essas produções permitem que a pesquisa no Profmat dialogue com a reforma curricular em andamento, analisando criticamente as diretrizes do CNE e promovendo um debate construtivo envolvendo os professores da Educação Básica, público de origem dos discentes do Programa. A meu ver, as possibilidades de contribuição são diversas, mas aqui me deterei a apenas um dos aspectos citados.

A orientação do CNE amplia a carga horária destinada à formação didático-pedagógica comum às licenciaturas e enfatiza o domínio pedagógico do conteúdo específico da área, no caso, a Matemática. Isso tende a reduzir a carga horária destinada a disciplinas de conteúdo matemático puro, como Cálculo, Álgebra Linear, Análise, Teoria dos Números ou Álgebra Abstrata. Diante disso, escolhas precisarão ser feitas, e uma questão central se coloca: como essas disciplinas podem contribuir efetivamente para a formação do professor de Matemática da Educação Básica? Quais devem ser mantidas como obrigatórias e quais podem ser classificadas como optativas?

Esse será justamente o tema do Grupo de Discussão 6 (GD6) do VI Fórum de Formação Inicial de Professores que Ensinam Matemática do Estado do Rio de Janeiro, a realizar-se nos dias 26 e 27 de novembro, na UERJ, em formato híbrido. (Se você ainda não se inscreveu, acesse o site do evento (https://www.even3.com.br/vi-fpmat-rj-622581/) e faça sua inscrição gratuitamente!) O tema do GD6 é: “As especificidades do conhecimento matemático para a prática profissional do professor: papel, importância, impacto e conexões com a prática futura”. Como já destacado, o corpo discente do Profmat é composto por professores em exercício, que têm contato cotidiano com colegas professores, alunos e gestores da Educação Básica e vivenciam os desafios dessa prática. Diante de alterações curriculares tão significativas, e considerando a experiência que acumulam, é essencial que esses profissionais tenham voz no processo. O Profmat pode e deve desempenhar um papel relevante nesse sentido.

Cydara Cavedon Ripoll

Escrevem hoje sobre outro recurso pictórico para o ensino os Professores Wanderley Moura Rezende e Danilo Farias. Wanderley é professor da UFF e coordenador do Programa Dá Licença, no qual insere-se o projeto Histórias em Quadrinhos no Ensino de Matemática. Danilo é professor de escola pública, doutorando em Ensino de Matemática pelo PEMAT-UFRJ e colaborador desse projeto.

A Matemática costuma ser percebida como um saber abstrato, marcado por símbolos, fórmulas e demonstrações. Essa percepção pode gerar desmotivação e dificuldades de aprendizagem, especialmente na Educação Básica. Para enfrentar esse desafio, muitas estratégias pedagógicas recorrem à experiência concreta: materiais manipuláveis, jogos, desafios e experimentos. É justamente nesse espaço de encontro entre o lúdico e o formal que se insere o Museu da Matemática UFMG.

Criado em 2018, o Museu tem como missão socializar conhecimentos de forma participativa, pesquisar, preservar e comunicar a história e os aspectos da Matemática Recreativa como ferramenta pedagógica, despertando interesse pela disciplina e estimulando o diálogo entre universidade, escolas, educadores e comunidade. Busca promover uma visão mais positiva e inspiradora do ensino e da aprendizagem da Matemática, tornando-a acessível, envolvente e relevante, principalmente para estudantes do 6o ano do Ensino Fundamental ao Ensino Superior. Para isso, oferece oportunidades de exploração, manipulação, experimentação e (re)descoberta de conceitos matemáticos por meio de experiências lúdicas. Parte-se do concreto para despertar a curiosidade e incentivar a investigação, conduzindo gradualmente à formalização.Essa abordagem amplia o desenvolvimento de diferentes formas de pensamento matemático (algébrico, geométrico, probabilístico e lógico) por meio de atividades diversificadas:

› Quebra-cabeças geométricos: permitem aos alunos explorar figuras planas e identificar suas propriedades e simetrias, desenvolvendo também habilidades de visualização e manipulação no espaço.

› Jogos de tabuleiro: favorecem raciocínio lógico, pensamento combinatório e probabilístico, além de habilidades de planejamento, tomada de decisão e resolução de problemas.

› Dobraduras de papel: permitem explorar sequências e conceitos de geometria plana e espacial, como simetria, frações, ângulos, proporções e construção de sólidos geométricos.

Assim, ao manipular esses materiais e participar de experiências lúdicas, os alunos não apenas se divertem, mas constroem significados, apropriam-se ativamente dos conceitos matemáticos e reconhecem a Matemática como uma ciência viva, aberta à exploração e à reinvenção.

O Museu também atua na formação inicial e continuada de professores, oferecendo disciplinas, oficinas, cursos e visitas mediadas. Discentes e docentes têm a oportunidade de refletir sobre o potencial pedagógico dos jogos e materiais lúdicos quando utilizados de forma estratégica em sala de aula, transformando atividades recreativas em experiências educativas significativas e alinhadas aos objetivos curriculares. Esse processo reforça a dimensão colaborativa do projeto, integrando professores, licenciandos e estudantes da educação básica no compartilhamento e aprimoramento de saberes e práticas pedagógicas.

Assim, se o desafio é construir estratégias pedagógicas eficazes para um ensino mais afetivo da Matemática, o Museu da Matemática UFMG oferece uma proposta promissora: a experiência concreta abre portas para um aprendizado prazeroso, criativo, crítico e significativo. Dialogando com uma perspectiva interdisciplinar e cidadã, o Museu se apresenta como um espaço de popularização e democratização do conhecimento matemático, apoia professores, valoriza a experimentação e incentiva nos alunos curiosidade, criatividade e pensamento crítico.

Os cursos de doutoramento, mestrado e – quase – de graduação em Matemática do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

Sergio Nobre & Carlos Roberto de Moraes

A criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, marca um dos momentos fundadores da ciência e da engenharia no Brasil. Idealizado e dirigido por Casimiro Montenegro Filho (1904 – 2000) como parte do projeto do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), o ITA foi concebido para formar engenheiros e pesquisadores que impulsionariam a indústria aeronáutica nacional, com forte base matemática e científica. Ao Marechal do Ar (maior patente da Força Aérea Brasileira) Montenegro foi concedido o título de doutor honoris causa pelo ITA e pela Universidade de Campinas (UNICAMP); é considerado o patrono da Engenharia Aeronáutica e teve seu nome inscrito, em 21 de maio de 2025, no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

Inspirado no modelo do Massachusetts Institute of Technology (MIT), fazia parte do “Plano Smith”, de autoria do professor Richard Harbert Smith (1894–1957), contratado justamente do MIT para ser o primeiro reitor da Instituição, que salientava o objetivo de reduzir a dependência tecnológica estrangeira por meio da formação de quadros altamente qualificados, com autonomia institucional e liberdade de pesquisa.

A estrutura pedagógica adotada foi inovadora para os padrões da época. Dividido entre um curso fundamental (com ênfase em matemática, física e ciências básicas) e um curso profissional (voltado às engenharias), o ITA rompeu com os modelos tradicionais de ensino. E, contando com uma autonomia acadêmica, desde o início, seus docentes almejavam criar programas de pós-graduação, especialmente em áreas estratégicas como a Matemática.

Em 1958, foi submetido o projeto de um curso de Doutorado em Matemática, tendo como docentes orientadores Francis Dominic Murnaghan (1893–1976), Nelson Onuchic (1926–1999), Flávio Botelho Reis (1913–?) e Kuo Tsai Chen (1923–1987). O primeiro doutorando, Carlos Alberto de Buarque Borges (1923–1977), cumpriu rigorosamente o currículo proposto, que incluía disciplinas como Álgebra, Topologia, Equações Diferenciais e Cálculo de Variações.

Em 1961, formalizou-se o curso de mestrado, que concedia o título de Mestre em Ciências, com especificação por departamento. As exigências incluíam domínio prévio de matemática e física (equivalente aos três primeiros anos do curso de graduação do próprio ITA), elaboração de tese aprovada por orientador e apresentação pública perante banca. As experiências acumuladas deram origem, em 1968, à regulamentação do programa de pós-graduação, com normas que detalhavam créditos, exigência de originalidade na tese e avaliação pública por comissão de cinco membros, incluindo avaliadores externos.

O início das atividades de pós-graduação no ITA coincidiu com iniciativas semelhantes em outras instituições, como o IMPA (criado em 1952) e a Universidade de Brasília (em 1961). Diante da multiplicação desses programas, o então Ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda (1903 – 1983) solicitou, em 1965, um parecer do Conselho Federal de Educação (CFE) sobre o tema.

O parecer CFE 977/1965, assinado por membros do CFE, dentre os quais constavam Alceu Amoroso Lima (1893–1983), Anísio Teixeira (1900–1971) e Newton Sucupira (1920–2007), definiu as bases para os cursos de pós-graduação no país, estabelecendo exigências similares às já praticadas no ITA: duração mínima de um ano para mestrado e dois para doutorado, dissertações e teses com originalidade, exames em línguas estrangeiras e avaliações rigorosas. O modelo norte-americano foi eleito como referência, consolidando as diretrizes já seguidas pelo ITA.

Embora nunca tenha sido criado oficialmente um curso de graduação em Matemática, membros do Departamento de Matemática chegaram a elaborar, de 1962 a 1964, uma proposta para cursos de Física, Química e Matemática, aproveitando-se do qualificado corpo docente existente. O projeto, porém, foi abandonado por razões administrativas e pela decisão de priorizar o fortalecimento da engenharia aeronáutica. 

Ainda assim, a Matemática sempre ocupou papel central na formação oferecida pelo ITA e sua influência faz-se notar em diversas instituições e sociedades científicas. Professores e ex-alunos do instituto estiveram entre os fundadores de importantes universidades e centros de pesquisa, como UNICAMP, UNESP, UFG, INPE e o próprio IMPA. O ITA também teve papel essencial na criação da EMBRAER, símbolo da indústria aeronáutica brasileira.

No desenvolvimento da Matemática no Brasil, membros do ITA participaram ativamente em eventos relevantes como o os Colóquios Brasileiros de Matemática, além dos Seminários Brasileiros de Análise e em congressos que definiram a fundação de sociedades de divulgação científica, como a Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional (SOBRAPO) e a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC).

Referência Bibliográfica

CARVALHO, Henrique Marins. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica na história da matemática no Brasil. Rio Claro: Tese – (doutorado) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, 2014. Orientador: Prof. Dr. Sergio Roberto Nobre.

CURY, Carlos Roberto Jamil. Quadragésimo ano do parecer CFE no 977/65. In: Revista Brasileira de Educação, n. 30, set.-dez., 2005. p. 7-20.

MORAIS, Fernando. Montenegro: as aventuras do Marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil. São Paulo: Planeta, 2006.

Em que pé está Cálculo I

Carlos Tomei e Ricardo Miranda Martins

Vamos repetir uma tautologia: o cálculo é um dos pontos altos da ciência. O vocabulário descreve variações, o que o torna uma linguagem convenientíssima para a modelagem de fenômenos físicos. Separar a derivada de F = ma é partir ao meio o cérebro de Newton. Os séculos passam e cada vez mais as aplicações são manifestações de equações diferenciais.

Em paralelo, a variação nula levou à otimização. Nas primeiras décadas, numa escala que abrangia sem hesitação problemas do que chamaríamos hoje de cálculo variacional. Uma formiguinha atravessa um ponto ótimo em infinitas direções e a busca da braquistócrona se converte em infinitos problemas unidimensionais.

O problema de sempre é como transmitir esse manancial de informações. Séculos de investigações, experimentos, deduções, erros, novas deduções.. encaixotados em cursos predominantemente teóricos de 60 horas. Que lástima, o cálculo, que inicialmente era um recurso para resolver questões naturais, expressas pela modelagem física ou geométrica, agora é ensinado desligado de aplicações mais físicas.

Uma ementa habitual do primeiro semestre comprova como o assunto foi reduzido a… cálculo, no sentido de prática de certos procedimentos. Aos alunos é apresentado um conjunto básico de funções (polinômios, algumas funções trigonométricas, logaritmo e exponencial) combinadas pelas quatro operações e composição. Várias regras e técnicas em seguida descrevem como obter derivadas e integrais. Horas e horas gastas em procedimentos tediosos, na maior parte das vezes ignorando que existem ferramentas computacionais que poderiam ajudar. Parece que temos até um conteúdo em comum que adoramos odiar a ensinar: a integração de funções racionais utilizando frações parciais, que facilmente passa por resolver (na mão!) sistemas lineares enormes. Será que, fazendo desta forma, estamos fazendo diferente de quando ensinávamos cálculo usando tábuas de logaritmos ou réguas de cálculo?

A ênfase em “cálculo” e geometria é uma consequência do esvaziamento de aplicações físicas, e da modelagem em geral. Supondo que os alunos tenham memória de fórmulas do colégio, é possível dispensar propriedades do tipo F = ma. Com alguma sorte, existe tempo e motivação suficiente para treinar manipulações com o famigerado dx, os micropedaços. A simplificação resultante de fórmulas explícitas leva a abrir mão de como as ideias básicas são férteis em análise numérica. Como não linearizar uma função num ponto para fazer surgir o método de Newton para resolver f(x) = 0? Como não aproximar a solução de x'(t) = f(x(t)), x(a) = b, calculando algumas derivadas em t=a e aproximar x(t) por um polinômio com essas derivadas?

A separação estrita do conteúdo em disciplinas é necessária, mas deixar para ensinar o método de Newton tão distante da definição de derivada é quase um crime. A situação se complica se damos atenção ao que acontece em volta. Em Física, os professores falam de vetores com ponta, base, tamanho e orientação. Em Microeconomia, os alunos vivem numa ilha com peixes e cocos, relacionados por uma função de utilidade, e mergulham em curvas de nível. Enquanto isso, não aproveitamos bastante o que aprendemos em Cálculo para parametrizar curvas.

Mais do que fazer alterações menores no currículo, o que parece faltar são problemas que motivem as técnicas do cálculo. Talvez o fato é que não é tão fácil encontrar exemplos fáceis mais gerais de modelagem, disponíveis aliás em álgebra linear, matemática discreta. Esse é um assunto para outro momento.

Somos todas maravilhosas!!!

Valéria Neves Domingos Cavalcanti

Eu sempre me perguntei como pessoas incríveis e maravilhosas, seriam afetadas tão profundamente com a opinião ou um comentário que as diminuísse. Se voltarmos o nosso olhar para a academia e, mais particularmente, para as áreas que são historicamente dominadas pelos homens, observamos que frases, comentários e opiniões são frequentemente proferidas, insinuando que as mulheres não estariam (ou não seriam) qualificadas para estarem naquele ambiente.

Faço parte de uma geração que tais fatos aconteciam comumente e a nossa indignação era pessoal, cabia a nós mesmas resolvermos (ou não) tal situação. Me lembro de inúmeras situações em que as poucas colegas de turma que eu tinha, sofreram algum tipo de constrangimento. Felizmente, muita coisa vem mudando ao longo desse tempo, porém não com a rapidez que gostaríamos. Só tenho a agradecer às minhas queridas alunas e colegas mais jovens que me têm inserido numa rede maravilhosa e fundamental de apoio e que, generosamente, me mostram sobre o poder que temos juntas.

Recentemente, fui convidada pela nossa presidente maravilhosa para compor a diretoria da sua primeira gestão à frente da SBM. Na gestão anterior, o Programa de Mentorias para Mulheres na área de STEM já havia sido criado mas ainda não estava sendo executado. Eu me apaixonei pelo Programa à primeira vista e essa paixão segue até hoje, na sua 2a edição. O Programa foi idealizado pela nossa presidente e pela professora Márcia Barbosa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ambas maravilhosas, e o seu início se deu com uma parceria entre as duas sociedades: a SBM e a SBF – Sociedade Brasileira de Física.

De acordo com as palavras da nossa presidente: “O objetivo do Programa é fornecer treinamento e orientação para mulheres jovens que estão no começo de suas carreiras e enfrentam vários desafios. O Programa ainda visa estimular que as mulheres continuem seus estudos, diminuindo a evasão e permitindo sua permanência nos cursos, de modo a aumentar a representatividade de mulheres nos cursos de graduação e pós-graduação na área de STEM do país.” O público-alvo é formado por mulheres que estão na pós-graduação em nível de doutorado ou iniciando as suas carreiras profissionais, na área de STEM, no Brasil.

Na 2a edição do Programa, a SBQ – Sociedade Brasileira de Química se uniu a nós e temos hoje 40 jovens mulheres (designadas Mentorandas) e 40 pesquisadoras com carreiras consolidadas (designadas Mentoras), nas áreas de Física, Matemática, Química e áreas afins. Cada Mentoranda está associada à uma Mentora e, além dos encontros frequentes que elas realizam, acontecem palestras semanais, de forma remota, sobre diversos temas. Ao longo do desenvolvimento do Programa, criamos laços que nos unem e nos sentimos pertencentes a um grupo com o qual podemos contar. Uma grande alegria? Quando temos a oportunidade de nos encontrarmos pessoalmente.

Estes encontros têm acontecido durante o Workshop da SBM de Mulheres na Matemática, cuja 1a edição se realizou na Universidade Estadual de Maringá e este ano acontece, nos dias 29 a 31 de outubro, na Universidade Federal de Alagoas.

Nessa jornada, conto com as minhas parceiras maravilhosas, que coordenam o Programa junto comigo, são elas: Denise de Siqueira – UFPR, Lisandra Sauer – UFPel, Rozane Turchiello – UTFPR – Ponta Grossa e Taícia Fill – Unicamp. Talvez alguém estranhe a quantidade de “maravilhosas” ao longo do texto, eu me esqueci de comentar, é porque “somos todas maravilhosas” e não permitiremos que se diga o contrário.

Olimpíada Distrital de Matemática

Vinícius de Carvalho Rispoli

Neste mês de setembro, o Distrito Federal celebrou a estreia da Olimpíada Distrital de Matemática (OMDF). A competição inovadora utilizou as notas da Olimpíada Jacob Palis de Matemática de 2025 como critério de inscrição, reunindo jovens talentos de toda a região. As provas foram realizadas no dia 20 de setembro de 2025, na Universidade de Brasília (UnB), e abrangeram três níveis de conhecimento, com a participação de alunos desde o sexto ano do ensino fundamental até o ensino médio. Ao todo, 83 estudantes foram premiados por seu desempenho excepcional.

A OMDF contou com o apoio oficial da Associação da Olimpíada Brasileira de Matemática (AOBM) e da Stone. Para mais detalhes e informações sobre premiação, futuras edições, acompanhe o perfil oficial da competição no Instagram: @olimpiadadistrital.

Olimpíada Paraibana de Matemática

No dia 29 de novembro de 2025, será realizada a Olimpíada Paraibana de Matemática (OPM 2025), uma competição regional destinada a alunos de escolas públicas e privadas de todo o estado. Podem participar estudantes do 6o ano do Ensino Fundamental até o último ano do Ensino Médio. O evento é uma iniciativa conjunta do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). As provas, divididas em três níveis, serão aplicadas em diversas cidades do estado.

A OPM 2025 conta com o apoio oficial da Associação da Olimpíada Brasileira de Matemática (AOBM) e da Stone. Para mais informações e detalhes sobre a inscrição, acesse o site oficial: http://www.mat.ufpb.br/opm.

Problema do mês de setembro