Conferência UMALCA celebra 30 anos da integração latino-americana e caribenha na matemática 

Sob a liderança de Jaqueline Mesquita, evento na Unicamp marcou a trajetória da União e destacou novos caminhos para o futuro

As atividades da programação dos 30 anos da UMALCA ocorreram no auditório do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp | Foto: Lydia Soares/SBM 

Neste ano, o início da primavera em solo brasileiro não trouxe apenas temperaturas mais altas e o cenário ideal para o florescimento da paisagem, mas também a celebração de um momento especial: a comemoração do 30º aniversário da União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA). Sob a presidência de Jaqueline Mesquita, que também lidera a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a UMALCA celebrou três décadas de trajetória em grande estilo, com uma conferência realizada nos dias 23 e 24 de setembro, no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

O evento reuniu pesquisadores, líderes de sociedades científicas e estudantes de toda a região em torno de palestras, painéis temáticos e sessões de pôsteres. A mesa de abertura da celebração foi composta por Jaqueline Mesquita, Felippe Benavente Canteras (Assessor da Pró-Reitoria de Graduação da Unicamp), Rafael Dias (Diretor Executivo de Relações Internacionais da Unicamp), Ricardo Miranda Martins (Diretor do IMECC), Ludmil Katzarkov (Diretor do IMSA, University of Miami), Eduardo Cardoso de Abreu (Coordenador do PPG em Matemática Aplicada do IMECC) e Wisley João Pereira (Superintendente de Educação Básica do SESI).

Segundo a Presidente da SBM e da UMALCA, o caráter colaborativo e as possibilidades de intercâmbio científico foram a tônica do evento. “Vários pesquisadores da América Latina mantêm uma colaboração constante. Aqui mesmo recebemos vários estudantes do Peru, da Colômbia, da Bolívia. Consolidar e potencializar ainda mais essa interação vai trazer frutos muito importantes para o futuro”, afirma.

Para o professor Ludmil Katzarkov, o alcance da União vai além das fronteiras continentais, chegando a instituições de diferentes partes do mundo. “A UMALCA desempenha um papel importante na propagação do sucesso da Matemática na América Latina. De fato, a União contribui tanto para a colaboração entre os países daqui quanto de representantes de instituições de ponta em todo o mundo”, diz.

Além da Presidente da UMALCA, a mesa de abertura do evento foi composta por autoridades da Unicamp e representantes do IMSA e do SESI | Foto: Lydia Soares/SBM

Por sua vez, Wisley Pereira ressaltou que o diálogo e a troca de experiências proporcionadas pelo encontro colocam em evidência uma gama de oportunidades reservadas à ciência e à educação brasileira. “Quando falamos em cooperação, ampliamos as visões de mundo, valorizamos a diversidade e, assim, conseguimos inovar”, afirma. 

Cooperação e acordos

Seguindo esse movimento, a Presidente da SBM, professora Jaqueline Mesquita, assinou em abril, durante visita a Buenos Aires, um acordo de cooperação entre a entidade e a União Matemática da Argentina (UMA). Na ocasião, ela também estabeleceu os primeiros planos para o I Encontro Brasil-Argentina, previsto para 2026. 

Mais recentemente, entre os dias 8 e 12 de setembro, a Sociedade também esteve à frente da realização do I Encontro Brasil-México, em Fortaleza (CE), quando foi assinado o Acordo de Reciprocidade e Colaboração entre a SBM, a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) e a Sociedade Mexicana de Matemática (SMM). O documento prevê a realização periódica de encontros conjuntos, o incentivo ao intercâmbio estudantil e a promoção da diversidade na Matemática.

Gênero e diversidade em pauta

Além das palestras plenárias, um ponto alto da comemoração dos 30 anos da União foram os painéis de discussão. Um deles, registrado durante o segundo dia de atividades, foi encabeçado pelos membros da Comissão de Gênero e Diversidade da UMALCA, Christina Brech, professora da Universidade de São Paulo (USP), e Luis Miguel García Velázquez, da Universidad Autonoma de Mexico (UNAM).

Christina Brech (USP) e Luis Miguel García Velázquez (UNAM) durante a exposição do Painel da Comissão de Gênero e Diversidade da UMALCA | Foto: Lydia Soares/SBM

Durante a exposição, os pesquisadores conversaram sobre representatividade, identidade e expressão de gênero, violência, assédio e discriminação no meio científico. “No ambiente acadêmico em geral, a gente tem muitas situações de violência, de desigualdade, de diferença. Isso em todas as áreas, não só na Matemática. Então precisamos conversar sobre o que podemos fazer enquanto comunidade”, explica Christina Brech. 

A Comissão responsável pelo painel surgiu da necessidade de implementar os objetivos estabelecidos a partir de um protocolo criado em junho de 2017. O documento oficializa regras básicas de convivência em eventos organizados ou patrocinados pela UMALCA em relação a situações de violência e discriminação com base em gênero, orientação sexual e origem.

Em sintonia com a urgência desses discussões, a professora da Universidad Nacional del Litoral, na Argentina, e antecessora de Jaqueline Mesquita na presidência da UMALCA, Liliana Forzani, compartilhou sua reflexão: “Uma das coisas que mais me inspira nessa trajetória é ter podido conhecer, ao longo de todo esse tempo, mulheres matemáticas muito fortes. Tenho muito orgulho de ter sido a primeira mulher Presidente e ter transferido o cargo para outra representante feminina”. 

A potência latino-americana e caribenha em terras brasileiras

A história da UMALCA tem relação profunda e simbólica com o Brasil, já que sua fundação aconteceu durante XX Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, em 1995. Assim como seu aniversário de 30 anos, o ato de fundação contou com a presença dos presidentes e representantes das sociedades nacionais de Matemática de várias nações do continente. 

E o Brasil teve seu protagonismo não só no surgimento da União. Jaqueline Mesquita foi a mais jovem e primeira pessoa brasileira a assumir a presidência da entidade – delimitando novos moldes para a representatividade das mulheres do Brasil nas lideranças internacionais. 

Jaqueline Mesquita junto dos dois presidentes que a antecederam na UMALCA: Liliana Forzani (2021 – 2024) e Guillermo Cortiñas (2017– 2021) | Foto: Lydia Soares/SBM

Wisley Pereira, superintendente do SESI, destaca que um dos grandes trunfos brasileiros nesse cenário é a diversidade e a capacidade de integração. “Falamos tanto dos problemas que o país tem e esquecemos de olhar para a excelência dos profissionais, estudantes, professores e pesquisadores na área de Matemática. Somos uma referência e precisamos disseminar para o Brasil e para fora também”, pontua. 

Segundo os participantes do evento, outro fator que aproxima as nações latino-americanas e caribenhas são os desafios compartilhados, especialmente as dificuldades de financiamento. Foi o que constatou Ursula Molter, docente da Universidad de Buenos Aires e Presidente da União Matemática da Argentina: “É muito importante que nós nos unamos e trabalhemos juntos para ajudar a ciência, para poder avançar. Temos ótimos antecedentes e muitas conquistas, mas ainda enfrentamos pouco apoio dos governos. O Brasil é, dentre os países latino-americanos, o que recebe mais investimento. Mas agora, graças à UMALCA, foram criadas novas conexões”. 

A Presidente da UMALCA defende que investir na ciência é investir nas pessoas: “A matemática na América Latina tem muitos talentos que por vezes se dispersam por falta de financiamento. Então, precisamos de mais investimentos no continente para potencializar nossas capacidades, para que o mundo reconheça o que nossa região tem de melhor”.

Um sopro para o futuro 

Celebrar aniversários é uma forma de revisitar o passado e, sobretudo, renovar os ares para o futuro. Como prova desse raciocínio, durante a conferência, vozes experientes da ciência internacional fizeram votos esperançosos à nova geração de pesquisadores do continente. “É momento de todos os latino-americanos se engajarem na ciência. Pode ser Física, pode ser Matemática, pode ser Inteligência Artificial – esse é tempo de se dedicar às ciências e se tornar os novos Einsteins, Paulis e Heisenbergs do novo século XXI”, incentiva o diretor do IMSA, Ludmil Katzarkov. 

A Presidente da União Matemática da Argentina, Ursula Molter, comenta sobre a importância da perseverança como chave para o desenvolvimento científico e humano. “Uma matemática famosa uma vez me disse: olhem para as crianças quando aprendem a andar, elas caem, se levantam e tentam de novo. Vamos fazer o mesmo na Matemática: todas as vezes que algo não der certo, tentamos de novo. No final, vai dar certo. É preciso aprender, insistir e seguir em frente”, conclui.