Premiação da SBM destacou pesquisas originais e o talento de jovens matemáticos durante a 2ª Semana Nacional de Iniciação Científica, em Belém

Há conquistas que vão além de um simples resultado. O Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues de Iniciação Científica nasce com esse espírito: o de reconhecer não apenas os melhores trabalhos apresentados por jovens estudantes, mas também a dedicação silenciosa, o rigor matemático e a curiosidade que movem os primeiros passos de uma vida acadêmica.
Criado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) em parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP), a premiação homenageia um mestre que fez da iniciação científica sua missão — o professor Hildebrando, referência nas Equações Diferenciais Ordinárias e inspiração para gerações de matemáticos.
Ao premiar as melhores apresentações orais e pôsteres na 2ª Semana Nacional de Iniciação Científica (II SENIC-SBM), no mês de agosto, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, a iniciativa valorizou ainda mais a excelência de alunos de graduação, destacando a escolha ousada de temas, a profundidade das investigações e o domínio de áreas desafiadoras da matemática.
Comunicação Oral
Mais que nomes em uma lista, cada trabalho vencedor carrega o brilho da juventude científica que se abre para o futuro. Na categoria Comunicação Oral, o ouro foi conquistado por Izabella Calais Fernandes, do Bacharelado em Matemática do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica, da Universidade Estadual de Campinas (IMECC/ Unicamp), com o trabalho ‘Números Congruentes e a Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer (BSD)’.

Izabella Calais Fernandes, da Unicamp, recebeu a medalha de ouro na categoria Comunicação Oral pelo trabalho sobre Números Congruentes e a Conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer | Foto: Arquivo Pessoal
O problema dos números congruentes é uma das questões em aberto mais antigas da matemática. Para a estudante, a escolha do tema responde ao desejo de investigar um problema aparentemente elementar e mostrar como as Ciências Matemáticas podem oferecer caminhos surpreendentes para buscar sua resolução.
“Considero esse tema instigante. Compreender como pode ser provado por meio de uma conjectura tão robusta e atual, torna o caminho via curvas elípticas especialmente interessante”, explicou a estudante de 24 anos.
A medalha de prata foi concedida a Caio Simon de Oliveira, aluno do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), que apresentou a pesquisa ‘Dinâmica de Grafos Funcionais em Domínios de Dedekind’. O interesse pelo tema surgiu durante a escrita de um artigo sobre operadores de Hecke em funções racionais, em parceria com o colega André Rosenbaum Coelho, sob orientação do professor Sinai Robins.

“Os grafos apareciam enquanto analisávamos esses operadores quando restritos a certos espaços. Definimos eles e usamos como ferramenta para resolver nossa questão. Porém, ainda faltavam várias dúvidas acerca de como generalizar tais grafos e quais são as estruturas escondidas dentro deles. Essas dúvidas me motivaram e fizeram minha pesquisa se focar nisso desde então”, revelou ele, que frequenta a graduação do curso de Ciências Moleculares da USP.
Para Caio, mais do que aplicações específicas, o maior ganho foi a formação como pesquisador. “Foi enriquecedor ter entrado em contato com a leitura e a escrita de artigos e ter tido a possibilidade de interagir com outros matemáticos”, defendeu o estudante, que atua em pesquisa na área da Teoria dos Números.
Já o bronze foi destinado para Samuel Cantoaria Ferreira, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com o estudo: ‘Uma introdução à Teoria de Morse em Superfícies’. Trata-se de um tema que envolve várias áreas da Matemática como Topologia, Geometria e Análise, e que possibilitou aplicar vários conceitos, vendo como as áreas se conectam.

“A Teoria de Morse busca entender a topologia de uma variedade por meio de funções reais, e de forma recíproca, identificar características dessas funções a partir da própria topologia”, explicou o estudante, que está no fim da graduação na UFMA e pretende seguir carreira acadêmica em Análise Geométrica.
O caminho, no entanto, exigiu uma dose extra de dedicação. Com apenas um livro base para o estudo, Samuel teve que procurar mais referências. Como resultado de todo o processo, ele destaca uma descoberta particularmente surpreendente: toda variedade suave tem a mesma topologia (tipo de homotopia) que um complexo CW, uma maneira organizada de construir e estudar espaços topológicos complicados a partir de peças simples, as chamadas células.
“Além de surpreendente, isso é importante, pois os complexos CW têm uma construção que permite definir invariantes topológicos neles. Assim, as informações topológicas das variedades suaves podem ser obtidas a partir de sua estrutura de complexos CW”, completou Samuel.
Pôster
Na modalidade Pôster, o primeiro lugar foi para Caio Domiciano Pires dos Santos, também do IME-USP, com o trabalho ‘Grupoides de Lie’. Trata-se de uma estrutura matemática usada para estudar simetrias, tanto as que valem no todo quanto as que aparecem em partes de um espaço geométrico.
O interesse do estudante do 4º ano de Bacharelado em Matemática pelo tema surgiu durante um minicurso, e a pesquisa acabou se conectando com outras áreas de estudo que já vinha explorando.

“Foi uma oportunidade de alinhar o estudo de simetrias, que sempre foi um interesse meu, com outros tópicos que já tinha tido contato, como a Teoria de Fibrados e G-Estruturas”, revelou o estudante, que pretende seguir carreira acadêmica nas áreas de Geometria e Topologia.
A medalha de prata foi conquistada pela anfitriã Alice Vitória Feitosa Macedo, da UFPA, com o pôster ‘Os Teoremas de Bäcklund e de Integrabilidade’.
“Optei por algo que não seria óbvio para alunos de graduação e que também tivesse vários ‘desenhos’, pois eles me encantam. É um tema que trabalha com algo que não se vê tanto quando se fala de Geometria Diferencial de modo geral”, afirmou.

Um dos pontos centrais de sua pesquisa é a chamada transformação de Bäcklund, que possibilita encontrar novas soluções para a equação de Sine-Gordon a partir de uma já conhecida — um avanço que teve papel pioneiro no desenvolvimento da teoria das transformações. Apesar do entusiasmo, Alice também destacou os obstáculos do percurso.
“As maiores dificuldades foram as lacunas de matemática básica, desde a educação fundamental até as que surgem na graduação. Revisar conceitos foi essencial. Além disso, o rigor e a linguagem matemática, tanto dos livros quanto da minha própria escrita e explicação, também foram grandes desafios”, revelou Alice, mestre de cerimônias em eventos da Faculdade de Matemática na UFPA, como a que ocorreu na abertura da 2ª SENIC-SBM.
O bronze ficou com Iuri Antônio Nunes de Almeida, mais um aluno do IME-USP, que apresentou ‘Medidas Vetoriais e o Teorema de Riesz-Singer’. Seu trabalho explora uma generalização da ideia de medida — funções que, em matemática, servem para atribuir ‘tamanho’ a conjuntos.
“É fácil entender o tamanho de um segmento de reta, mas e de conjuntos mais complexos, como os racionais? Meu trabalho utiliza uma generalização dessas medidas (sim, generalizando a generalização) e mostra uma das várias aplicações delas na teoria da análise funcional: o Teorema de Riesz-Singer”, explicou o estudante do último ano no Bacharelado em Matemática da USP.

A escolha do tema veio de uma afinidade antiga com a área da análise. Iuri já havia feito uma iniciação científica envolvendo tópicos de análise funcional e, mais tarde, durante o curso de Medida, percebeu novas conexões que o entusiasmaram ainda mais.
Reconhecimento e incentivo
A II SENIC-SBM, na capital paraense, foi o palco de toda essa celebração. Reunindo jovens talentos da matemática brasileira, o evento reforçou o papel da iniciação científica como porta de entrada para a carreira acadêmica.
Mais do que a entrega de medalhas, o Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues reafirma o valor do entusiasmo juvenil aliado ao rigor matemático. Um reconhecimento que, ao mesmo tempo, celebra o passado — na figura do professor Hildebrando — e inspira o futuro da matemática no Brasil.