Brasil e Argentina conectados pela Matemática

Primeiro encontro SBM-UMA realizado em Mar del Plata reuniu pesquisa, formação e divulgação matemática, com contatos que podem resultar em parcerias e intercâmbios

O Primeiro Encontro Conjunto SBM-UMA reuniu cerca de 600 inscritos entre estudantes, professores e pesquisadores de Brasil e Argentina | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Além da paixão pelo futebol, brasileiros e argentinos têm em comum sociedades matemáticas que promovem a pesquisa, o ensino e a colaboração entre pesquisadores. Foi com esse propósito que a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e a Unión Matemática Argentina (UMA) realizaram seu Primeiro Encontro Conjunto, de 22 a 26 de setembro, na Universidade Nacional de Mar del Plata, na Argentina.

A programação reuniu palestras plenárias, sessões de comunicação científica e de educação matemática, cursos para estudantes e oficinas. As atividades contemplaram áreas como álgebra, geometria, análise, equações diferenciais, estatística, ciência de dados, lógica, computabilidade, inteligência artificial (IA), entre outras.

Para a Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, professora Jaqueline Mesquita, a conferência serviu ao propósito de estreitar as relações e construir novas colaborações. “Ficamos muito felizes com este primeiro encontro conjunto, porque temos formas distintas de pensar e, quando essas perspectivas se conectam, podem surgir ideias muito inovadoras e discussões originais”, destaca.

Presidente da União Matemática Argentina, Ursula Molter comentou que o encontro também serviu para mostrar que a Matemática está viva. “A integração entre educação, pesquisa e o encontro de estudantes mostra que a matemática não é entediante e que reúne pessoas de todos os lugares, gêneros, raça ou convicções políticas: o que nos une é o prazer de fazer ciência”, ressalta.

Os professores Marcello Goulart Teixeira e Rodrigo Madureira ministraram um minicurso de introdução ao método dos elementos finitos, voltado à solução numérica de equações diferenciais | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Novas perguntas e possibilidades de colaboração  

Para os professores e pesquisadores brasileiros que estiveram no evento, conhecer os trabalhos desenvolvidos no país vizinho permitiu identificar interesses comuns e diferenças nas tradições de pesquisa. Em alguns casos, acompanhar uma apresentação foi suficiente para uma nova percepção sobre como ensinar e comunicar matemática. “A Argentina tem uma tradição forte em áreas como análise, enquanto uma interação maior com grupos brasileiros pode contribuir para ampliar a formação e a pesquisa em sistemas dinâmicos”, contou o professor Alexandre Baraviera, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Alexandre Baraviera ministrou o minicurso “Introdução aos sistemas dinâmicos”, experiência que  chamou sua atenção pelo nível dos alunos de graduação. “Eles me pareceram muito bons e isso seguramente mostra que alunos de lá podem continuar vindo para nossos programas de pós-graduação, algo que já ocorreu anteriormente e trouxe resultados excelentes”, afirma.

A presença de estudantes também foi um dos aspectos mais marcantes para Pedro Reis, doutorando em Matemática do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP). Ele acompanhou principalmente as plenárias e a sessão de lógica e computabilidade, na qual apresentou um trabalho desenvolvido durante o mestrado. “O interesse das pessoas em lógica na Argentina me surpreendeu”, relata. 

Sua apresentação tratou de uma demonstração detalhada do teorema de Keisler-Shelah no contexto da teoria de modelos contínua, em que as estruturas estudadas são espaços métricos. “A contribuição de nosso trabalho foi a formulação de uma prova detalhada deste teorema para a teoria de modelos contínua, fazendo adaptações da teoria de fórmulas positivas limitas de Henson e destacando as principais diferenças entre essas teorias”, explica o doutorando. 

A participação na Argentina trouxe inspiração para novas investigações, especialmente sobre relações entre teoria da prova, computabilidade e sua área de pesquisa. “Também me instigou a desenvolver melhor intuição e valorizar mais a transmissão disso em aulas. Principalmente nas plenárias, fui inspirado por professores, tanto brasileiros como argentinos, a valorizar mais a intuição da prática matemática”, revela Pedro.

Sessão de Álgebra, Álgebra Comutativa e Teoria de Grupos reuniu apresentações sobre estruturas algébricas, categorias modulares e álgebras de Hopf durante o I Encontro Conjunto SBM-UMA | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

O encontro também favoreceu contatos entre pesquisadores brasileiros. Para Marcello Goulart Teixeira, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a conferência de Damião Araújo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), levou a uma conversa sobre uma possível parceria. A apresentação abordou geometria e regularidade em problemas variacionais singulares, com resultados relacionados a equações diferenciais não lineares e problemas de fronteira livre. “Acredito que uma abordagem computacional pode complementar as questões discutidas pelo colega. Por isso, pretendo fazer leituras sobre o tema para avaliar essa possibilidade”, alega.

Especialista em métodos numéricos, o docente apresentou uma pesquisa que utiliza redes neurais para determinar parâmetros de uma equação que modela a infiltração horizontal de água no solo.  Teixeira também foi um dos professores do minicurso de introdução ao método dos elementos finitos, voltado à solução numérica de equações diferenciais.

A inteligência artificial apareceu tanto em trabalhos científicos quanto em uma discussão mais ampla sobre o futuro da pesquisa matemática. A mesa dedicada ao assunto reuniu Inés Pacharoni e Pedro Sanchez Terraf, da Universidade Nacional de Córdoba, e Javier Gonzalez, da Microsoft AI, no Reino Unido. A proposta foi discutir o impacto dos avanços recentes da tecnologia sobre a atividade de pesquisa.

A atividade foi citada por Eduardo Colli, professor do IME-USP, entre os destaques da programação. “A discussão ajudou a nos situar frente a um futuro imprevisível”, relata.

Para Pedro Reis, a conversa trouxe uma percepção compartilhada sobre as incertezas desse processo. “Foi revelador e reconfortante perceber que nesse processo de mudança não somos os únicos sem clareza do que o futuro nos reserva”, afirma o doutorando.

A programação de educação matemática também abordou o tema, com uma conferência sobre tensões e oportunidades da inteligência artificial generativa na formação de professores. Outras apresentações trataram de modelagem matemática, formação estatística de docentes e pensamento criativo em sala de aula.

Sessão de Lógica e Computabilidade reuniu trabalhos sobre lógicas paraconsistentes, demonstrações formais e teoria de modelos | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Eduardo Colli, que é um dos criadores da Matemateca, apresentou a palestra “O microscópio de Felix Hausdorff”. O projeto recebeu, em agosto deste ano, o 1º Prêmio de Divulgação Matemática da SBM. Na apresentação, Colli retomou ideias do matemático que desenvolveu as medidas e a dimensão de Hausdorff, um dos conceitos usados para definir a dimensão fractal. Com apoio de figuras e evitando detalhes técnicos afastados dos pontos centrais, a proposta relacionou uma parte menos conhecida do trabalho original de Hausdorff a um exemplo de sistemas dinâmicos.

Baraviera destacou a palestra como um exemplo de exposição clara de resultados clássicos e de suas conexões com pesquisas recentes. 

Maria Fernanda Ramalho e Sofia Machado Menezes apresentaram os diferenciais da OMU, contribuindo para a divulgação da matemática | Crédito da imagem: Arquivo pessoal 

Duas dessas participantes foram Maria Fernanda Ramalho e Sofia Machado Menezes, graduandas do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp. Elas representaram o professor Giuliano Zugliani na divulgação da Olimpíada de Matemática da Unicamp (OMU), em sessão dedicada a temática. A atividade integrou a programação de 24 de setembro. “Apresentamos o formato da competição e o trabalho de divulgação. Foi nossa primeira experiência divulgando a OMU, uma olimpíada de relevância nacional, em outro país. Acreditamos na importância da divulgação para ampliar nosso projeto e conhecer outras iniciativas”, contam.

Segundo as estudantes, o contato com o Ada Lovelace Day, projeto que surgiu na Argentina e se espalhou pela América Latina, trouxe uma possibilidade de colaboração relacionada à participação de meninas na matemática. “Essa preocupação se soma ao esforço da OMU para diversificar a presença de escolas, regiões e participantes”, relatam.

Participação expressiva de estudantes argentinos nas sessões e palestras marcou o I Encontro Conjunto SBM-UMA