Matemateca transforma conceitos matemáticos em experiências concretas por meio de peças e jogos interativos, aproximando diferentes públicos da Matemática

Exemplificar conceitos matemáticos através de objetos, jogos e fenômenos físicos – driblando formalismos e tornando a sensorialidade a protagonista do aprendizado. É isso o que busca a Matemateca, projeto do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP), que venceu a 1ª edição do Prêmio de Divulgação Matemática da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).
Lançada em 2025 durante o 1º Encontro Nacional da Popularização da Matemática (Pop!Mat), a honraria tem como propósito reconhecer, estimular, valorizar e dar visibilidade a iniciativas e atividades de divulgação e popularização da Matemática voltadas para a sociedade em geral. A cerimônia de entrega do Prêmio aconteceu durante a XII Bienal de Matemática, realizada em Natal (RN).
As origens da Matemateca
A ideia de elaborar o Matemateca surgiu no início dos anos 2000, a partir do interesse do professor do IME-USP, Eduardo Colli, em desenvolver materiais físicos que tornassem conceitos matemáticos mais acessíveis. Já em 2002, quando a USP recebeu uma exposição itinerante da Cité des Sciences, museu de ciências localizado em Paris, que promove exposições matemáticas, ele acabou se mobilizando. “Isso acabou catalisando alguns docentes, principalmente eu e a professora Deborah Raphael, vice-diretora do projeto desde então. Por indicação de colegas, a gente se conheceu e começou a pensar na possibilidade de criar algum tipo de material”, conta Eduardo, que é diretor do projeto.

No ano seguinte, um financiamento da USP destinado ao reequipamento de laboratórios permitiu o desenvolvimento dos primeiros objetos da Matemateca, inicialmente pensados como materiais de apoio ao ensino de graduação. Após realizarem as primeiras exposições ainda na Universidade, o projeto passou a marcar presença em eventos nacionais. “Participamos da II Bienal da SBM, em Salvador. Enchemos caixas com os materiais e fomos para lá. No final de 2004, o grupo já estava usando o nome Matemateca. Em 2005, estivemos em uma exposição em um congresso de museus de ciência, no Rio de Janeiro”, conta.
Um drible no formalismo e a descoberta de novos públicos
A virada de chave veio ao observar que durante as exposições estudantes da educação básica se interessavam pelos objetos, inclusive aqueles que representavam conceitos matemáticos mais avançados. “Assuntos que você nem imaginava explicar para uma criança, e elas se empolgavam. Teve criança que veio com a escola durante a semana e, quando chegou o sábado, que era o dia de visita aberta ao público, voltou com os pais para mostrar a exposição. Foi ali que começamos a não nos restringir ao ensino superior. Essa é uma característica que mantemos até hoje: a Matemateca é feita para todos”, afirma.

Ao longo de mais de duas décadas, o acervo da Matemateca reuniu dezenas de objetos interativos. Um dos mais populares é o jogo da velha tridimensional, cuja configuração em três dimensões amplia possibilidades estratégicas, desafiando a teoria combinatória. Outro destaque é a rampa tautócrona, que surpreende ao mostrar que duas bolinhas, soltas de alturas diferentes, chegam simultaneamente ao ponto mais baixo do percurso – uma propriedade rara em movimentos oscilatórios. Já o balancinho transforma movimento em desenho: enquanto o aparelho traça padrões geométricos sobre o papel, os visitantes podem explorar, de forma intuitiva, conceitos de Matemática e Física relacionados às oscilações e aos movimentos periódicos.

“A matemática é engraçada, né? Tem a linguagem e o conteúdo e, às vezes, é difícil dissociar uma coisa da outra, e o rigor acaba sendo um empecilho para o acesso a coisas interessantes. A gente gosta dessa forma de comunicar alguns conceitos avançados sem precisar do formalismo. É uma coisa de coração mesmo. Isso é feito com a pessoa sentindo diretamente ali, na frente dela”, diz Eduardo.
Além de participar de eventos nacionais e internacionais, atualmente, a Matemateca mantém exposições locais e recebe principalmente visitas agendadas de escolas, e eventualmente atende turmas de graduação. Parte do acervo fica instalado em espaços de circulação do IME, permitindo que os visitantes tenham contato direto com os objetos e experimentem os conceitos apresentados.
Reconhecimento
Além de receber a premiação durante a XII Bienal de Matemática, o projeto também ganhou um espaço de destaque na programação do evento, com uma palestra dedicada à sua trajetória, aos seus princípios e às experiências acumuladas na popularização da Matemática.

Para Eduardo Colli, o prêmio representa a valorização de um trabalho que, embora diferente da pesquisa acadêmica tradicional, também faz parte da missão da universidade. “O esperado da carreira de um pesquisador e professor universitário é seguir uma trajetória muito forte na pesquisa. Eu continuei fazendo pesquisa, mas não com tanta dedicação, porque me dediquei muito à Matemateca. Esse também é um trabalho acadêmico e é importante que seja valorizado. A gente fica feliz, é gratificante perceber que esse trabalho também merece esse reconhecido”, conclui.