EDITORIAL
Olá, querid@s leitor@s do nosso Noticiário Eletrônico da SBM.
A matemática brasileira finaliza o mês de março com sinais claros de vitalidade e compromisso, revelados por conquistas que dialogam tanto com a pesquisa de ponta quanto com a formação docente. O Brasil sediará, em agosto de 2026, a 7ª Conferência Matemática dos BRICS na USP, assumindo a responsabilidade de liderar debates, fortalecer redes e projetar a pesquisa nacional no cenário internacional.
NOTÍCIAS

Professora integrante do Programa de Mentoria para Mulheres da SBM é premiada em cátedra internacional
Juliana Theodoro, docente da UFAL, foi a agraciada com prêmio da Organização de Estados Ibero-Americanos por trabalho sobre Matemática Antirracista
Com um artigo sobre matemática antirracista, a professora Juliana Theodoro de Lima, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), foi uma das vencedoras do 1º Concurso de Artigos Científicos da Cátedra Elena Piscopia, iniciativa da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

SBM participa de reunião na UNESCO para discutir formação docente e cooperação internacional
Encontro em Brasília reuniu lideranças institucionais para avançar na criação de um centro de formação de professores no Brasil e na agenda internacional da OPMbr
A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) participou, nesta segunda-feira (30), de uma reunião estratégica no escritório da UNESCO em Brasília, voltada ao fortalecimento da formação docente e à valorização do ensino de Matemática.

Matemática brasileira ganha destaque internacional em capa do Journal of Computational Chemistry
Trabalho com participação de membro do Conselho Diretor da SBM propõe nova abordagem geométrica para cálculos fundamentais na Química
A matemática produzida no Brasil conquistou destaque internacional ao figurar na capa da revista Journal of Computational Chemistry. O artigo Conformal Coordinates for Molecular Geometry: From 3D to 5D apresenta uma nova abordagem para o cálculo de distâncias interatômicas, um problema central na Química Computacional.
Entre os autores está Carlile Lavor, membro do Conselho Diretor da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Secretário regional da SBM em São Paulo é premiado por excelência como professor na USP
Paulo Dattori foi agraciado com o Prêmio Paulo Freire, iniciativa promovida por estudantes da USP em São Carlos que reconhece docentes de destaque
Professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), câmpus de São Carlos, e secretário regional da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), em São Paulo, Paulo Leandro Dattori da Silva foi agraciado com o Prêmio Paulo Freire. A iniciativa é promovida pela Secretaria Acadêmica de Licenciatura em Ciências Exatas (SACEx) da USP São Carlos.

Brasil sediará a 7ª Conferência Matemática dos BRICS, em agosto
Pela segunda vez, o país recebe fórum científico internacional que reúne as lideranças matemáticas do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul
O Brasil será sede da 7ª edição da BRICS Mathematics Conference, que será realizada de 18 a 21 de agosto de 2026, na Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista. O evento é organizado em estreita parceria entre a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e as sociedades representantes dos demais países-membros do bloco BRICS: China, Índia, Rússia e África do Sul.
OPORTUNIDADES
Pós-doutorado – UFES
A Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Matemática – PPGMAT da Universidade Federal do Espírito
Santo (UFES) recebe candidaturas de pesquisadoras para uma bolsa de pós-doutorado em Matemática.
Informações principais:
- Bolsa: R$ 5200,00 mensais (isentos de impostos);
- Duração: 12 meses, com possibilidade de prorrogação por igual período.
Prazo para submissão: 29/04/2026
Informações e inscrições: https://matematica.ufes.br/pt-br/pos-doutorado
VII Colóquio de Matemática da Região Nordeste
Estão abertas as inscrições para a submissão de trabalhos no VII Colóquio de Matemática da Região Nordeste, que será realizado de 23 a 26 de novembro de 2026, na cidade do Recife. O evento contará com uma programação científica diversificada, incluindo mesas-redondas, conferências e sessões temáticas organizadas nas seguintes Áreas Temáticas: Álgebra, Análise, Ensino/Educação Matemática, Estatística e Probabilidade, Geometria e Topologia, Combinatória e Singularidades.
Informações e inscrições: https://sbm.org.br/coloquio-nordeste-7/
Conferência Real Analytic Geometry and Singularity Theory
Estão abertas as inscrições para a conferência Real analytic geometry and singularity theory, que ocorrerá de 23 a 27 de novembro, no Centre International de Rencontres Mathématiques (CIRM), próximo de Marseille, na França. O objetivo desta conferência é abordar temas relacionados à teoria das singularidades, geometria o-minimal e análise real. Essas áreas estão profundamente interconectadas, com raízes que remontam aos trabalhos fundamentais de Lojasiewicz, Hironaka, Thom e Malgrange.
Informações e inscrições: https://conferences.cirm-math.fr/3612.html
PROFMAT: PARA ALÉM DAS CONTAS
Fábio Xavier Penna: uma despedida que não é bem uma despedida
José Vinicius do N. Silva e Pedro H. P. Daldeganberto Nobre
Sabe quando você conhece alguém e percebe que essa pessoa deixou uma marca? Que fez diferença? Pois é, o Fábio Xavier Penna é assim. Ele está deixando a Comissão Acadêmica Nacional (CAN) do PROFMAT – da qual participou no mandato representando o corpo docente de 2023 a 2025 – e também sua coluna neste Noticiário. Confessamos que isso nos deixa com um misto de gratidão e nostalgia.
O mineiro que se apaixonou pela Matemática
O Fábio é de Belo Horizonte, onde cursou o ensino técnico no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), na área de Informática. Posteriormente iniciou Engenharia Elétrica, mas acabou se apaixonando pela Matemática e migrou para esse curso na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nesse percurso, alguns professores marcaram sua formação, como a Tatiana Leal, no CEFET-MG, e o Israel Vainsencher e a Cristina Marques, ambos na UFMG. Depois veio o doutorado no IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), em 2006. E lá era outro mundo: ambiente corporativo, pressão, estudando e convivendo ao lado de pesquisadores de alto nível. Mas sabe o que mais inspirou o Fábio? Foi o contato com professores da Educação Básica.

O CAD: o legado que fica
Se tem uma coisa que o Fábio deixa de herança é ter participado da construção dos Critérios de Avaliação e Desempenho (CAD) do PROFMAT. Antes, o PROFMAT era avaliado pela CAPES como mestrado acadêmico, cobrando publicações científicas. O Fábio e a CAN lutaram para estabelecer: o PROFMAT é profissional. Produções que importam são produtos educacionais voltados à prática docente em sala de aula. Foi uma “guerra cultural” dentro da comunidade matemática. Porque os matemáticos valorizam o conteúdo puro, os teoremas. E aí vem alguém e diz: “Ensinar Matemática é diferente de fazer Matemática”. E é mesmo. Estudar funções para dar aula não é o mesmo que para Engenharia. Essa mudança demorou, custou. E o Fábio estava lá, firme.
A coluna no Noticiário
Durante a gestão na CAN, o Fábio escreveu regularmente para o Noticiário da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), na coluna “PROFMAT: para além das contas”. Entre os textos que mais o marcaram, ele destaca um artigo sobre produção técnica, publicado em fevereiro de 2024. Após a publicação, recebeu a mensagem de um professor leitor do noticiário: “Nossa, agora está tudo claro”. Foi um momento de validação. Ele reconhece as limitações: “É difícil saber se alcançamos o público, porque o Noticiário é um PDF, não uma rede social”.
Tecnologia e o desafio de não apertar só botões
Fábio desenvolve pesquisas relacionadas a algoritmos de aprendizagem de máquina e ao uso de tecnologias digitais no ensino. Mas não é só usar o GeoGebra. Ele quer que os alunos entendam a Matemática por trás dos algoritmos. Sobre inteligência artificial (IA) na educação, ele adota uma visão realista. Considera inevitável o avanço de sistemas tutores baseados em IA, mas alerta para o risco da “preguiça cognitiva”. O desafio, segundo ele, é construir estratégias pedagógicas que permitam o uso dessas ferramentas sem gerar dependência intelectual.
Entre conteúdo e pedagogia
O Fábio aponta o desafio mais complexo do PROFMAT: a tensão entre matemáticos puros e educadores. “O currículo é muito conteudista. Precisamos migrar para Conhecimento Pedagógico do Conteúdo”. Faz sentido. Formar professores, ressalta, não significa apenas aprofundar conteúdos matemáticos, mas também desenvolver competências relacionadas ao ensino desses conteúdos.
Se o PROFMAT fosse uma palavra…
Perguntamos: se o PROFMAT fosse uma palavra, qual seria? Ele não hesitou: “Desafio. É um desafio porque está no meio dessa tensão, mas é uma oportunidade de transformar a educação básica”. Em outra dinmica de respostas rápidas, associou: Educação: Responsabilidade | PROFMAT: Desafio | Matemática: Vida | Docência: Ofício | CAN: Saudade | Despedida: “Eu não gosto de despedidas”
O que fica
Com a saída do Fábio, o PROFMAT perde um articulador incansável, mas ganha um legado: um sistema de avaliação que reconhece a produção educacional. O CAD, assim como os demais documentos do Programa, continuará orientando gerações e sendo atualizado regularmente. Porque formar professores exige mais que teoremas, exige compromisso com a sala de aula. E o Fábio entendeu isso. Então, Fábio, nosso muito obrigado. Por seu trabalho na CAN, pelo CAD, pelas colunas, pelas lutas. Você não gosta de despedidas, bem sabemos. Mas essa não é bem uma despedida. É um “até logo”. Porque sua contribuição permanece viva. Em cada produto educacional. Em cada docente que você representou durante seu mandato na CAN. Em cada professor que encontra no PROFMAT um caminho. E também em cada leitor do Noticiário que seguirá acompanhando a coluna “PROFMAT: para além das contas” conosco, José Vinicius e Pedro Daldegan, representantes discente e docente, respectivamente, da CAN atual.
Um abraço, com café e pão de queijo.
COLUNA ENSINO DA MATEMÁTICA
Cydara Cavedon Ripoll
Escrevem-nos hoje sobre o Museu de Matemática UFMG a professora Carmen Rosa Giraldo Vergara e Júlia da Mata Gonçalves Dias. Carmen é membro fundadora do Museu e Júlia é licenciada em Matemática, estudante de Especialização em Matemática pela UFMG e colaboradora do Museu desde 2022.
Quadrinhos na aula de Matemática: por que e como usar?
A pecha de “subproduto” da arte carregada pelas histórias em quadrinhos foi parcialmente superada ao longo do último século. Antes escondidos nas mochilas dos estudantes — para escapar de repressões —, hoje são parte integrante dos livros didáticos e das bibliotecas escolares. Ainda assim, nas aulas de matemática, esse recurso é pouco explorado ou, quando aparece, costuma ser subutilizado. Em primeiro lugar: por que levar quadrinhos para a aula de matemática? Uma razão está nas dificuldades que muitos alunos apresentam na leitura e interpretação de problemas matemáticos.
Não é raro ouvirmos professores comentarem: “Se os alunos não conseguem ler o problema, como irão resolvê-lo?”. A “linguagem” dos quadrinhos integra texto, imagem, expressões, gestos, onomatopeias e sinais de movimento, servindo como ponte entre narrativa e conceito matemático. Além disso, a própria matemática escolar é atravessada por metáforas. A operação de adição, por exemplo, perpassa as ideias de juntar, reunir, totalizar e acrescentar. Os quadrinhos, por sua natureza narrativa e visual, potencializam essas metáforas e ajudam a problematizar conceitos e resultados matemáticos.
Com essa perspectiva, licenciandos, professores da educação básica e do ensino superior interessados nas articulações entre quadrinhos e ensino de matemática integram o projeto Histórias em Quadrinhos no Ensino de Matemática (HQEM) da UFF, com o objetivo de investigar o uso de quadrinhos para problematizar situações matemáticas por meio de metáforas visuais e narrativas. Um aspecto central dessa proposta é uma inversão na lógica tradicional de ensino.
Em vez de o professor explicar primeiro para que o aluno apenas “interprete” depois, os quadrinhos entram em cena para que os próprios estudantes falem sobre eles. São os alunos que fazem as leituras iniciais e constroem narrativas a partir das imagens. Cabe ao professor, então, acolher essas narrativas e, a partir delas, explorar o potencial matemático presente no material. Vejamos um exemplo: o quadrinho “Fazendo Arte”.

No primeiro quadro, aparecem dois copos, cada um contendo 2/3 de seu volume preenchido com líquidos de cores diferentes (azul e amarelo). Ao juntar o conteúdo dos dois copos, o líquido, agora na cor verde, transborda e uma segunda pessoa recolhe o excesso em outro copo. Não há uma única palavra no quadrinho — mas uma história a ser narrada por um leitor.
A partir dessa cena, diferentes perguntas podem orientar a conversa em sala de aula: por que o líquido verde transborda? O copo que a menina segura vai ficar cheio? Misturando as tintas amarela e azul, quanta tinta verde se obtém? Que quantidade de tinta verde é recolhida no segundo copo? Com este quadrinho pode-se trabalhar, por exemplo, a adição de frações com o mesmo denominador (2/3 + 2/3). A ideia de “juntar os conteúdos dos copos” funciona como metáfora para a operação de adição de frações, e o “transbordamento” do líquido ajuda a discutir frações maiores do que a unidade.
Também é possível explorar a decomposição do resultado em parte inteira e parte fracionária. Um único quadrinho, nenhuma palavra e várias ideias matemáticas em jogo! Outras atividades semelhantes podem ser encontradas no caderno Frações em Quadrinhos https://periodicos.uff.br/cadernodalicenca/issue/view/2875, produzido pelo projeto HQEM.
Venham nos conhecer!
COLUNA DIVULGAÇÃO MATEMÁTICA
Gratuidade e Universalidade
Miriam Telicheveski
Faz algum tempo que venho observando o quão comum é o argumento de que algumas ações de divulgação ou popularização da Ciência são gratuitas, e portanto podem ser apreciadas por qualquer público. Vale para tudo: desde o conteúdo que está na internet até exposições espalhadas pelo Brasil, incluindo feiras de ciências, olimpíadas, ou qualquer outra atividade que se possa imaginar. Precisamos tomar um pouco de cuidado com isso.
Não é por ser gratuita que determinada atividade pode ser considerada endereçada para todas as pessoas. Gratuidade não é sinônimo de universalidade, embora seja sem dúvida alguma um passo importantíssimo (nem vamos entrar, nessa reflexão, no mérito do interesse do público pela atividade, apenas estamos pensando na possibilidade de acesso a ela)! Ano passado tivemos aqui na minha Universidade a experiência maravilhosa do IV Festival da Matemática – RS.
Felizmente tivemos um robusto financiamento, por meio de agências de fomento e algumas instituições que nos auxiliaram, e por causa disso podemos dizer que nosso evento teve um caráter muito mais próximo do “universal” do que se não tivéssemos o fomento. Essa minha afirmação vem da comparação com as edições anteriores, quando uma grande parte das escolas não puderam participar porque não tinham recursos financeiros suficientes para o deslocamento até o local do evento. É uma triste realidade, sem dúvida alguma!
Num mundo ideal, uma atividade gratuita seria universal, todas as pessoas poderiam acessá-la. Enquanto isso não acontece, é preciso que estejamos muito atentos, enquanto comunidade que quer divulgar a Matemática, a respeito de qual público queremos atingir. Se queremos efetivamente atingir públicos que já se encontram mais marginalizados, o que na minha opinião sempre deve ser a meta, é preciso buscar recursos financeiros para viabilizar isso.
Estes recursos não caem do céu e não é trivial buscá-los, pois grande parte dos projetos aos quais estamos vinculados, por mais que possam ter planos de divulgação científica em suas execuções, muitas vezes não têm rubrica que permita garantir essas condições; outras vezes, pode ser que até haja como justificar o gasto, mas não há recurso suficiente… vocês sabem do que estou falando, não é mesmo?
O meu convite à comunidade matemática é seguir lutando por maior financiamento para nossos projetos, e em paralelo a isso pressionar as agências de fomento que incluam em suas previsões orçamentárias a possibilidade de popularizar a Ciência através de atividades que possam efetivamente ser consideradas universais. Enquanto isso não se torna algum tipo de política pública, cada pessoa que vai divulgar a Matemática pode se perguntar como atingir aqueles que têm menor acesso às atividades de popularização da Ciência. É possível visitar uma escola de difícil acesso e conversar por algumas horas, levar alguns estudantes e fazer atividades diferentes? Tem alguma cidadezinha onde todos ouvem o mesmo programa de rádio e este pode transmitir algum programa que divulgue a Matemática? É possível ocupar algum espaço público de fácil acesso em sua cidade, para fazer uma pequena Mostra de Matemática?
Posso ser uma sonhadora, mas sinceramente confio no “trabalho de formiguinha”. Se cada um de nós abraçar um pedacinho do Brasil, isso com certeza vai estar muito mais perto da efetiva democratização do conhecimento em Matemática.
PROGRAMA DE MENTORIA PARA MULHERES – ELAS EM MOVIMENTO
Valéria Neves Domingos Cavalcanti
Nesta edição, temos a contribuição das participantes do Programa de Mentorias para Mulheres na área de STEM: Genyle Nascimento (Mentora – UFF) e Caroline Assmann (Mentoranda – UFRGS).
Dados da UNESCO (2018) apontam que “apenas 35% de todos os estudantes inscritos nos campos relacionados com à STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) são mulheres”. O Programa de Mentoria para Mulheres tem como “objetivo principal apoiar e incentivar o desenvolvimento profissional e pessoal de mulheres em início de carreira” (SBM), buscando promover a equidade de gênero nessas áreas.
Desde a edição passada, diríamos que o programa se caracteriza predominantemente como uma mentoria informal entre a mentora – professora atuante em uma universidade – e uma mentoranda – alguém em início de carreira. Além de conectar ambas, o programa oferece palestras semanais com mulheres vencedoras, que se tornam importantes fontes de inspiração e motivação. Buscou-se, sempre que possível, combinar mentorandas com mentoras com áreas de estudo ou experiência de trabalho semelhantes, embora saibamos que nem sempre seja viável.
Somos da área de Geometria – uma com atuação em Diferencial e a outra em Complexa – e, mesmo assim, há muita proximidade e temas em comum. Normalmente, reunimo-nos uma vez por semana, por 60 a 120 minutos, por meio de chamadas de vídeo, de acordo com nossas agendas, sem contar na troca de mensagens por aplicativos. Ambas éramos responsáveis por definir a agenda, mas conversas orgânicas sobre o que está acontecendo nas nossas vidas também se mostraram muito proveitosas para discussão e orientação. Sentimos falta de ter pelo menos um encontro presencial ao longo de 2025 para fortalecer ainda mais o vínculo, nossa expectativa é que esse encontro aconteça em 2026.
É raro ter um programa que ofereça tanto valor para ambos os lados: a mentoranda ganha uma mentora e é exposta a possibilidades para seu futuro; a mentora ganha uma nova perspectiva, a capacidade de retribuir e, potencialmente, uma futura colaboradora de pesquisa ou colega de departamento em breve. Após a defesa do doutorado, em meio às incertezas profissionais, ouvir histórias de superação de tantas mulheres e conversar na mentoria sobre os desafios que elas enfrentaram, fortalecem a confiança e acreditam mais na própria formação.
Então, foi muito importante compreendermos que não estamos sozinhas e que os obstáculos podem ser superados com trabalho, estudo, perseverança e uma visão realista da carreira acadêmica. Um dos objetivos centrais é aumentar a representação feminina na ciência. Uma ideia inicial seria combinar estudantes do ensino médio a estudantes universitárias e mulheres profissionais como mentoras nas áreas de matemática, física e química. Em um processo mais local, no qual podemos alcançar de fato um impacto maior e nos concentrar em dar assistência às estudantes de pós-graduação em termos de orientação sobre carreira, orientação acadêmica e sobre ser uma mulher nessas áreas de baixa representatividade feminina.
Ser mulher na STEM é desafiar crenças sociais. A pluralidade de ideias, de pessoas, de conhecimentos e de experiências constrói uma base mais sólida para o desenvolvimento da ciência. As conversas proporcionadas pelo programa, além de inspiração, nos mostram o quanto a academia é desigual, considerando que muitas vezes somos invisibilizadas pela estrutura patriarcal da nossa sociedade. Termos como “teto de vidro” e “labirinto de cristal”, ajudam-nos a compreender a construção da nossa carreira, ilustrando a necessidade, não apenas de conhecimento científico, mas de estratégias de posicionamento e persuasão.
Referências
An Unbalanced Equation: Increasing Participation Of Women In STEM In LAC publicado em 2019 pelo Escritório Regional da UNESCO para a Ciência na América Latina e Caribe, Escritório da UNESCO em Montevidéu, (Luis Piera 1992, Piso 2, 11200 Montevidéu, Uruguai). Disponível em: < http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/igo/ >
Programa de Mentoria para Mulheres. Disponível em: < https://sbm.org.br/programa-de-mentoria-para-mulheres/ >.
DAVIES-NETZLEY, S. A. Women above the Glass Ceiling: Perceptions on Corporate Mobility and Strategies for Success: Perceptions on Corporate Mobility and Strategies for Success. Gender & Society, 12(3), 339-355. 1998. Disponível em: < https://doi.org/10.1177/0891243298012003006 > .
LIMA, B. S. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na Física. Revista Estudos Feministas, v. 21, n. 3, p. 883-903, 2013. Disponível em: < https://doi.org/10.1590/S0104-026X2013000300007 >.