Professora integrante do Programa de Mentoria para Mulheres da SBM é premiada em cátedra internacional

Juliana Theodoro, docente da UFAL, foi a agraciada com prêmio da Organização de Estados Ibero-Americanos por trabalho sobre Matemática Antirracista

Juliana Theodoro de Lima no 1º Workshop Mulheres da Matemática, realizado na Universidade Estadual de Maringá (UEM), em 2024 | Foto: Solange Marcon/ SBM

Com um artigo sobre matemática antirracista, a professora Juliana Theodoro de Lima, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), foi uma das vencedoras do 1º Concurso de Artigos Científicos da Cátedra Elena Piscopia, iniciativa da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). A premiação busca incentivar a produção acadêmica voltada ao tema da Transição Justa, conceito que articula dimensões sociais, ambientais e econômicas para orientar processos de transformação produtiva e tecnológica. 

Intitulado “Educação e Transição Justa: caminhos para a equidade social em tempos de transformação – matemática antirracista e decolonial como ferramenta de reparação histórica e tecnológica”, o artigo conquistou o segundo lugar no eixo Educação e Capacitação Profissional, uma das categorias do edital. O trabalho foi desenvolvido em colaboração com a professora Cleonis Viater Figueira, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), câmpus Pato Branco.

“Eu e a professora Cleonis Viater ficamos em uma espécie de choque positivo. Foi uma euforia, porque sabíamos que o trabalho era muito bom, feito com muito cuidado, carinho e esforço”, relata Juliana, que também atua como vice-diretora do Instituto de Matemática (IM) da UFAL. 

A cátedra leva o nome da filósofa veneziana considerada a primeira mulher a receber um diploma universitário na história | Imagem: Reprodução site OEI

Segundo a pesquisadora, o artigo foi desenvolvido durante o período de organização da segunda edição do Workshop da SBM de Mulheres na Matemática (WMM), realizado na UFAL, em 2025. “Sermos protagonistas desse feito é uma sensação difícil de descrever, mas marcada por muita gratidão”, completa.

Com uma carreira acadêmica fortemente envolvida com questões de gênero na ciência, Juliana Theodoro é mentora do Programa de Mentoria para Mulheres, promovido pelas Sociedades Brasileiras de Matemática (SBM), Física (SBF) e Química (SBQ). Em 2024, a docente da UFAL foi a vencedora do 1º Prêmio Elas na Matemática, na categoria “Ela faz a diferença na Matemática”. Iniciativa da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), a honraria reconhece pesquisadoras por suas contribuições à área e à promoção da participação feminina na ciência.

Matemática antirracista em foco 

Segundo Juliana, o artigo parte de um princípio fundamental: a ideia de igualdade só é possível quando estudantes se reconhecem nos espaços em que estão inseridos. “A principal reflexão que apresentamos é que não há equidade de gênero, ou de raça, sem que o aluno ou a aluna se enxergue naquele ambiente, entenda que ele também lhe pertence. Temos metodologias de ensino de matemática incríveis, mas, ainda assim, a procura pela área segue, em sua maioria, o mesmo perfil: homem branco, elitista, cisgênero e eurocentrado”, afirma. 

Juliana ministrando aulas de Matemática no Sistema Prisional Feminino Santa Luzia, em Maceió (AL), por meio da ação Ciências atrás das Grades | Foto: Reprodução Instagram @julianathlima

Coordenadora do Laboratório de Formação e Engajamento de Mulheres nas Exatas e Aplicações (Femea), na UFAL, Juliana atua em diversas iniciativas de divulgação da Matemática orientadas pelos princípios de igualdade, equidade, diversidade e inclusão. Suas ações abrangem diferentes públicos, incluindo pessoas com deficiência, a comunidade LGBTQIA+, neurodivergentes e mulheres privadas de liberdade.

Para a pesquisadora, a Matemática deve ser uma ciência que trabalha não apenas para as descobertas do futuro, mas como instrumento de análise das estruturas sociais historicamente enraizadas: “Ela pode ser usada como ferramenta de análise para desvendar o racismo presente em diferentes setores – nas ciências exatas, nas humanas, no Judiciário. A educação antirracista precisa atravessar todos os espaços, especialmente a Matemática, que está em tudo.”

Ao abordar a educação antirracista – entendida como uma prática que busca enfrentar desigualdades raciais também no campo educacional –, o trabalho joga luz sobre a importância de perspectivas decoloniais no ambiente científico. “A academia, de modo geral, ainda é classista, e o campo das exatas também. Decolonizar a matemática, reconhecendo e devolvendo as contribuições africanas e indígenas da ciência aos seus povos de origem, é fazer com que ela contribua diretamente para a reparação histórica e para a promoção da igualdade e da equidade de gênero e raça que buscamos”, finaliza. 

A cátedra leva o nome da filósofa veneziana Elena Piscopia, considerada a primeira mulher a obter um diploma universitário na história. A iniciativa é fruto de uma parceria entre a OEI, o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e instituições acadêmicas nacionais e internacionais. O objetivo é impulsionar a produção de conhecimento crítico e interdisciplinar voltado a políticas públicas mais inclusivas, sustentáveis e inovadoras.