Maria Aparecida Soares Ruas: conheça a sócia fundadora que compõe a atual Diretoria da SBM

Paulista começou a dar aulas com 12 anos e conhece como poucos os processos estruturais da Sociedade desde sua origem

Em julho de 1969, a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) foi criada com o objetivo de se organizar como uma entidade científica que representasse as principais lideranças da comunidade da área científica no período. O movimento ocorreu durante o VII Colóquio de Matemática, em Poços de Caldas, em Minas Gerais. Dentre a relação dos 172 membros da ata que consta no site oficial da SBM, está presente a paulista Maria Aparecida Soares Ruas.

Na época, a jovem Cidinha, com 21 anos, cursava a graduação em Licenciatura em Matemática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (atual campus da UNESP). Participar do Colóquio, o evento mais importante de Matemática até então no Brasil, era um projeto singular e raro para uma aluna de graduação do interior do estado de São Paulo, principalmente pelas limitações dos recursos de comunicação. Mal imaginava a paulista que seria uma referência para a SBM mais de cinco décadas depois.

Em julho de 2023, Maria Aparecida foi convidada pela atual Presidente Jaqueline Mesquita a compor a Diretoria da SBM para seu mandato, que expira em julho de 2025. É a segunda vez que a matemática paulista vai integrar o grupo majoritário da entidade. Mas, se tratando de uma das poucas Associadas Honorárias da instituição – título recebido há três anos -, falar em mais desafios é uma tarefa que se encaixa facilmente em sua vida.

Origem

Natural de Lins, no noroeste do estado de São Paulo, Maria Aparecida nasceu em 5 de janeiro de 1948. Desde pequena, gostava de estudar e sempre sonhou em lecionar.

E as ótimas aulas da professora Râmisa, como lembra com carinho, garantiram uma sólida formação matemática durante o Ensino Fundamental.

E foi daí que a saga como docente se iniciou. Com apenas 12 anos, lá estava a pequenina Cidinha ensinando Matemática a um garoto de sete, descendente de japoneses, que encontrava dificuldades em falar português. “Para você ver, eu dou aulas há 64 anos. Era mais que natural seguir por esse caminho na minha vida”, recorda, esbanjando bom humor.

A partir daí, até a conclusão do Ensino Médio, somou inúmeras horas de aulas particulares de Matemática. Foi o reforço necessário para entrar na universidade, em 1967. Durante a graduação, em Araraquara, conheceu seu marido José Gaspar, com quem construiria seus laços, tanto afetivos quanto profissionais. Dois anos mais tarde, por ocasião do VII Colóquio Brasileiro de Matemática, ambos tiveram a oportunidade única de participar da reunião de fundação da SBM.

Carreira acadêmica

Com tal experiência na bagagem, Cidinha completou a graduação em 1970 e iniciou o Mestrado em Matemática na Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, sob a orientação do professor Gilberto Francisco Loibel. O docente foi um pioneiro na pesquisa em Topologia no interior de São Paulo e, coincidentemente, foi o principal organizador do famoso Colóquio em Poços de Caldas.

Finalizado o Mestrado, acompanhados da filha Janaína, Cidinha e José Gaspar viajaram aos Estados Unidos para fazer o Doutorado na Brown University, em Providence, no estado de Rhode Island. Após quatro anos no exterior, Cidinha adiou um pouco o seu projeto de Doutorado, enquanto a família crescia. O segundo filho, José Augusto, nasceu em 1980, e a caçula, Juliana, no ano seguinte.

Ainda que não tenha terminado o Doutorado nos Estados Unidos, a matemática reconhece a importância do período para seu amadurecimento. “Foi um período muito decisivo da minha formação. Lá, eu pude trabalhar na área de pesquisa em que trabalho até hoje. Não tinha terminado o Doutorado e estava esperando meu segundo filho. Então, demorou um pouco mais para terminar, mas eu garanto que o estágio nos Estados Unidos foi fundamental para minha formação como pesquisadora”, analisa.

Em 1981, Cidinha começou seu período de docência no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos. Mas seu período como professora após a graduação se iniciou uma década antes, ainda em Araraquara.

“Comecei como professora auxiliar de ensino em 1971, no ano seguinte da formatura. Os tempos eram completamente diferentes. Hoje você não consegue ingressar essencialmente na carreira antes de terminar o Doutorado. É interessante notar as mudanças que ocorreram na vida acadêmica ao longo dos anos. Há 40 anos, o acesso à informação, por exemplo, era muito mais difícil e demorado, o contato entre pesquisadores tinha que ser feito por cartas, pelo correio. Não existiam computadores pessoais, não existia internet”, analisa Maria Aparecida, que também se tornaria a primeira mulher a chefiar o Departamento de Matemática do ICMC.

Finalmente, em 1983, defendeu sua tese de Doutorado na USP, em São Carlos, com o tema “Cl-determinação finita e aplicações”, supervisionada pelos professores Luiz Antonio Fávaro e Terence Gaffney. Fávaro foi aluno de Doutorado de Loibel, orientador de Cidinha no Mestrado no ICMC, e um dos principais impulsionadores do grupo de pesquisa da Teoria de Singularidades, principal área de pesquisa da paulista em sua carreira.

Hoje, esse grupo de pesquisa é um dos maiores do mundo em Teoria de Singularidades e que torna a trajetória de Cidinha ainda mais singular. Atualmente, suas principais contribuições  ao tema referem-se à Classificação Topológica e Diferenciável de Singularidades, e às aplicações desta teoria à Geometria Genérica.

SBM daqui para frente

Aos 76 anos, ela se considera muito entusiasmada para seu segundo mandato na Diretoria da SBM. Cidinha compôs o grupo majoritário entre 2009 e 2011 no mandato de Hilário Alencar. Como principal feito na ocasião, ajudou a criar o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), há 13 anos.

“Estou empolgada para trabalhar junto com meus colegas de Diretoria, que são incríveis e, claro, sob o comando da Jaqueline, que tem uma visão muito clara do papel da SBM. Ela tem uma energia sem fim”, considera a pesquisadora, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2008.

Para seus dois anos na função, obviamente a criação de um Doutorado para o PROFMAT é um dos grandes objetivos da Diretoria. Entretanto, os planos da paulista se estendem para compromissos também fora do Brasil.

“Eu tenho atuado mais diretamente em projetos de cooperação internacional, por exemplo, organizando e coordenando a organização de um evento da SBM com a Sociedade Mexicana de Matemática, na integração entre a SBM e outras sociedades científicas de outras áreas e projetos que fomentem a editora da SBM”, completa.

Até julho de 2025, a SBM terá o respaldo de uma diretora que acompanhou seus 55 anos de história, para o cumprimento de seus objetivos, entre eles elevar ainda mais a Matemática brasileira no cenário internacional. E Cidinha sabe, como poucos, o caminho a trilhar para que isso se torne uma realidade.

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