Uma semana entre laureados: jovens pesquisadores brasileiros contam experiências no Heidelberg Laureate Forum

Realizado na Alemanha, de 13 a 18 de setembro, evento aproximou pesquisadores em início de carreira de vencedores de prêmios como Abel, Turing e Medalha Fields

A participação brasileira contou com 10 jovens pesquisadores e 3 alumni do HLF, incluindo, a Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita  | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

“É totalmente diferente ter esse contato presencial e saber das experiências de vida deles. É algo único e que eu vou levar para sempre, porque eu acho que não existe nada parecido”. Essa é uma das lembranças que Fernanda dos Anjos Becatti guarda do 13º Heidelberg Laureate Forum (HLF), realizado de 13 a 18 de setembro, em Heidelberg, na Alemanha.

Durante uma semana, a doutoranda em matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG) esteve entre os 200 jovens pesquisadores de matemática e ciência da computação selecionados para participar do encontro. Entre palestras, aulas especiais e conversas em pequenos grupos, eles puderam conhecer de perto cientistas reconhecidos com alguns dos principais prêmios das duas áreas.

Ex-participantes do Heidelberg Laureate Forum retornaram ao evento em 2026 como alumni; três deles eram brasileiros: Jaqueline Mesquita,  Bruno Iochins Grisci e  Felipe Leno da Silva | Crédito da imagem: HLF

O caminho até Heidelberg 

Fernanda soube do HLF no ano passado, durante um evento sobre sistemas dinâmicos, em Presidente Prudente (SP). Na ocasião, conversou com Jaqueline Mesquita, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), que a incentivou a se candidatar. “Era uma seleção bastante longa, tinha vários critérios para serem preenchidos e acabou que deu certo. Eu não estava esperando, foi uma surpresa”, relata.

O fórum recebe estudantes e pesquisadores em diferentes etapas da formação acadêmica, da graduação ao pós-doutorado. A seleção considera a trajetória dos candidatos, sua motivação e cartas de recomendação, além de documentos acadêmicos e informações sobre as pesquisas desenvolvidas.

Doutorando na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e orientado por Jaqueline, Ronaldo Murakami destaca a importância do desempenho acadêmico e das recomendações para quem pretende concorrer. “A recomendação é que a pessoa tenha boas cartas e um bom desempenho nas disciplinas para conseguir entrar”, avalia.

Graduanda na Unicamp, Ana Paula Steuernagel (última à esquerda) era a mais jovem participante do Brasil no HLF | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Pesquisa e experiência de vida lado a lado

Ao longo da semana, a programação do HLF combinou palestras, aulas especiais e conversas com cientistas premiados. Os encontros permitiram aos jovens pesquisadores conhecer as trajetórias por trás das descobertas e ouvir, diretamente dos laureados, como suas carreiras foram construídas.

Para Joyce Saraiva, professora da Universidade Regional do Cariri (URCA), uma das experiências mais marcantes foi uma masterclass conduzida por Robert Metcalfe, vencedor do Prêmio Turing de 2022. “Me surpreendeu porque não era minha área, mas mesmo assim achei muito interessante. O contato foi mais próximo, e ele contou a história de como ele desenvolveu sua pesquisa, foi bem interessante”, conta.

Joyce Saraiva é mestra e doutora em Matemática pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Para Fernanda, as conversas também ajudaram a ampliar a perspectiva sobre os caminhos possíveis nas Ciências Exatas. O contato com os laureados mostrou possibilidades profissionais que, segundo ela, nem sempre aparecem nas discussões do ambiente acadêmico. “Dentro da academia, a gente tem duas vias: ser professor e pesquisar. E conversando com eles, vendo a experiência que eles tiveram para poder chegar ali e serem reconhecidos, é muito diferente”, relata.

Referências ao vivo e em cores 

Mais do que assistir a palestras, os participantes tiveram oportunidades de interação direta com os laureados. Para Bruno Grisci, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essa dinâmica teve um significado especial. Ele participou do HLF pela primeira vez há sete anos, ainda durante o doutorado, e nesta edição, retornou como alumni, passando a integrar a rede de ex-participantes. Nesta edição, Bruno atuou como colaborador da organização e mediou uma sessão temática. “Eu fiquei em uma mesa sobre colaborações com o Sul Global em termos de pesquisa. Era bem aberto, as pessoas iam sentando à mesa, a gente ia conversando sobre o tema e mediando”, explica.

Os brasileiros tiveram a oportunidade de conversar com Shayan Oveis Gharan, matemático iraniano vencedor da Medalha Abacus da União Internacional de Matemática em 2026 | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Bruno também mediou dois encontros entre jovens pesquisadores e os laureados John Hopcroft e Charles Bennett, ambos vencedores do Prêmio Turing. Para ele, a experiência foi uma recompensa: “Foi como receber um prêmio, porque estávamos tendo a oportunidade tanto de interagir diretamente com os laureados quanto com os jovens pesquisadores que estavam fazendo as perguntas”, relata.

Segundo Bruno, Hopcroft falou sobre sua trajetória e o início da carreira, quando a ciência da computação ainda se consolidava como um campo independente. Já Bennett conduziu a conversa como uma aula sobre suas pesquisas em criptografia e computação quânticas, áreas nas quais é pioneiro e que lhe renderam o Prêmio Turing referente a 2025.  

Para Marina Sayuri, doutoranda do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), a informalidade dos encontros contribuiu para aproximar os cientistas, que compartilham não apenas tópicos relacionados ao trabalho, mas também experiências de vida. “Eles dialogavam com naturalidade, tanto sobre pesquisa quanto sobre aspectos pessoais durante a trajetória acadêmica e profissional, o que tornou o contato mais humano e próximo. Essa troca de experiências foi muito enriquecedora, tanto profissional quanto pessoalmente”, afirma. 

Oportunidades de networking

Ao reunir estudantes e pesquisadores em diferentes momentos da programação, o evento favoreceu encontros entre pessoas de países, instituições e áreas de pesquisa distintas, criando vínculos que podem continuar depois da semana em Heidelberg. Foi o que aconteceu com Caio Simon de Oliveira, mestrando na Universidade de Paris. Ele conheceu um doutorando de Camarões que atualmente realiza sua pesquisa em Luxemburgo e trabalha com um tema próximo ao seu. “Ele apresentou o pôster, e metade da sessão foi só eu e ele conversando, ele me explicando o trabalho dele bem detalhadamente. Foi muito bom, ele passou várias dicas, contatos, e eventos que vão acontecer também”, diz.

Bárbara Muniz, brasileira que faz doutorado na Universidade Jaguelônica em Cracóvia, na Polônia, destaca que essa foi uma das características que mais diferenciam o HLF de outros eventos: “É uma conferência muito diferente, não só por ter os laureados, mas pela diversidade de pessoas. As conversas vão além dos temas de pesquisa e abordam a experiência de ser pesquisador e de trabalhar nessa área”.

“Nesse evento a gente conseguiu aprender muito, mas também conhecer um pouco da cidade, o que foi bem bacana”, relata Joyce Saraiva | Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Jaqueline Mesquita, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e ex-participante do HLF, orientou os pesquisadores brasileiros durante o encontro e ajudou a aproximá-los dos laureados. Esse apoio foi destacado por Joyce Saraiva, que também ressaltou a importância da representatividade feminina. “Para mim, que sou uma mulher na Matemática, é muito importante ter uma representatividade feminina na SBM. Ela abraçou todos os brasileiros, foi muito bacana essa interação”, conta.

O que fica da experiência

Ao retornar para casa, cada participante levou consigo aprendizados diferentes. Para Joyce, uma das principais mudanças foi a confiança para se comunicar em inglês e, a partir disso, considerar possibilidades acadêmicas que antes pareciam mais distantes: “Eu sei que ainda não é perfeito, mas consegui me comunicar, e isso me passou mais confiança para tentar aplicar para outras coisas internacionalmente, talvez um pós-doc, que antes me deixava muito receosa”. 

A experiência também aproximou o doutorando Ronaldo de possibilidades que pretende explorar no futuro, como uma experiência de pós-doutorado na Alemanha. O contato com instituições e pesquisadores presentes no fórum ajudou a tornar esse caminho mais concreto. “Eu acho que tinham muitos institutos de pesquisa presentes, e como costumam olhar esse evento com bons olhos, acho que essa experiência pode me aproximar um pouco mais deles”, avalia. 

Para Caio, a convivência com pessoas de diferentes países reforçou o sentimento de pertencer à comunidade matemática. “É sempre bom ver gente de tanto lugar diferente, de tantas línguas e culturas diferentes, todo mundo meio unido na mesma coisa, nas mesmas pautas. Passa muito um senso de união com a comunidade matemática”, conclui.