Realizado na Unicamp no final de setembro e apoiado pela SBM, encontro reuniu jovens talentos e lideranças internacionais em três dias de programação

Fortalecer a cooperação científica internacional e valorizar jovens talentos do mundo em desenvolvimento foram os objetivos do TYAN Meeting 2025 (The World Academy of Sciences Young Affiliates Network 2025), realizado de 25 e 27 de setembro, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O encontro foi um evento satélite do 17º General TWAS Meeting, principal conferência da TWAS (Academia Mundial de Ciências), ocorrida logo depois, no Rio de Janeiro.
Criada em 2016 pela TWAS, a Rede de Jovens Afiliados (TYAN) é formada por pesquisadores com menos de 40 anos de diferentes áreas. Selecionados para integrar o TYAN por seis anos, esses pesquisadores colaboram na busca de soluções conjuntas para os desafios globais. Atualmente, o grupo reúne mais de 400 afiliados e ex-afiliados, de 82 países. Jaqueline Mesquita, Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e chair do evento, foi afiliada do TYAN de 2018 a 2022.
Durante os três dias, o TYAN Meeting proporcionou aos participantes palestras plenárias, painéis de discussão, apresentações de pôsteres, sessões paralelas, além de inúmeros momentos de networking. A programação foi marcada pela diversidade temática, abordando desde inovação científica e sustentabilidade a diversidade e inclusão na ciência, com a presença de especialistas e lideranças acadêmicas internacionais.

Para Tasrina Choudhury, membra do comitê executivo do TYAN, o evento possibilita criar laços e construir um futuro colaborativo. “É uma grande oportunidade para os jovens cientistas estarem aqui, porque trocamos conhecimentos, construímos colaborações e amizades que perduram mesmo depois da conferência. Após o evento, nosso trabalho de pesquisa se expande e tentamos construir um mundo melhor”, afirmou a pesquisadora do Atomic Energy Centre, em Bangladesh.
Jovens são o futuro
Ao valorizar a diversidade, eventos dessa natureza proporcionam principalmente oportunidades de troca geracional, em que nomes consolidados da ciência compartilham experiências com jovens pesquisadores, fortalecendo redes de colaboração e aprendizado mútuo.
Para Mónica Ramirez, professora da Universidad Mayor de San Andrés, na Bolívia, esse intercâmbio é fundamental para o avanço da ciência. “É maravilhoso trabalhar com jovens. Já orientei cerca de 65 alunos na universidade, e acredito que essas conexões entre professores e alunos – ou entre pessoas mais experientes e jovens – são a melhor combinação para transferir conhecimento e também fazer as coisas da melhor forma”, destacou.
Por sua vez, Helena Lopes, membra da Diretoria da TWAS e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sintetiza a ideia: “Os jovens são o futuro”, e acrescenta: “Precisamos investir realmente na formação de lideranças acadêmicas jovens. Além disso, essa troca de experiências também é muito importante porque permite que formem uma comunidade”.
Brasil protagonista
Um dos destaques da programação foi a mesa-redonda que reuniu representantes de diversas entidades de matemática, como a SBM, a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), a Sociedade Brasileira de Automática (SBA) e a Região Brasileira da Sociedade Internacional de Biometria (RBras). Ao apresentarem as principais ações e projetos das entidades, os participantes reforçaram o impacto da ciência brasileira no cenário global e o papel do país como agente ativo na cooperação científica internacional.

Diogo Rossoni, professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Presidente da RBras, destacou que o Brasil vive um novo momento de inserção internacional, deixando de ser apenas um exportador de talentos para se tornar também um polo de atração de pesquisadores estrangeiros. Para ele, “essas iniciativas são fundamentais para desconstruir a visão limitada que parte do mundo ainda tem do país, muitas vezes associada à violência e ao subdesenvolvimento, e mostrar que nós temos um potencial gigantesco”.
A crescente presença brasileira em eventos e redes internacionais reforça esse protagonismo. O país, que em novembro sediará a COP 30 (30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) e integra o bloco dos BRICS (agrupamento formado por onze países: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã), tem assumido papel central nas discussões científicas e ambientais do Sul Global, consolidando-se como uma voz relevante na agenda da ciência e da sustentabilidade.
“A ciência é internacional, e ter encontros desse tipo, que são interdisciplinares e que reúnem os melhores talentos do mundo, especialmente aqueles que estão em ascensão no mundo em desenvolvimento, é absolutamente essencial. O Brasil é protagonista, é um dos países do Sul Global com maior força e impacto e, realmente, tem apoiado muito a TWAS desde o início”, aponta o Diretor executivo da TWAS e ex-Reitor da Unicamp, Marcelo Knobel.
Integração da ciência
A cooperação científica internacional não é apenas um caminho para o fortalecimento das redes de pesquisa, mas também um instrumento essencial para o desenvolvimento sustentável e tecnológico dos países. Essa visão permeou as discussões do TYAN Meeting, que destacou a importância de investir em ciência de excelência e em parcerias que transcendam fronteiras geográficas e econômicas.

Para Vanderlan Bolzani, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e afiliada à TWAS, o avanço científico depende da integração com o cenário global. “A ciência de excelência tem que ultrapassar todas as barreiras. Então, nós não podemos ficar isolados do mundo desenvolvido, do mundo que tem a melhor ciência. E nós, hoje, somos um país que tem uma ciência de excelência, que tem uma tecnologia também de excelência, porque boa ciência tem que gerar boa tecnologia e inovações, para que nós possamos adentrar o mundo dos poderosos, ou seja, o primeiro mundo”, afirma.
Nesse sentido, o TYAN Meeting se configurou como um espaço singular de convergência entre diferentes campos do saber. Durante o evento, pesquisadores de distintas áreas apresentaram seus trabalhos e iniciativas, revelando a amplitude e a diversidade temática que caracterizam a pesquisa contemporânea.
A Presidente da SBM ressalta que o ambiente multidisciplinar estimula a inovação e rompe com a rotina tradicional da pesquisa. “É uma oportunidade única, porque, normalmente, os pesquisadores estão na sua zona de conforto. É muito difícil que parem o que estão fazendo para assistir a uma palestra sobre biologia, mudanças climáticas, engenharia, matemática e física. É muito interessante porque estamos aqui nesse ambiente com vários pesquisadores jovens que trabalham em diferentes áreas do conhecimento, pensando em como podemos colaborar na fronteira do conhecimento”, destaca.
O compromisso com um futuro sustentável
Presente em toda a programação, o tema Ciência, Inovação e Desenvolvimento Sustentável orientou as discussões e inspirou reflexões sobre o papel da pesquisa na construção de um mundo mais equilibrado. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, desigualdades e desafios globais, a sustentabilidade foi tratada como eixo estratégico para o avanço científico e social, reforçando a necessidade de ações conjuntas e integradas entre países e instituições.

Para o professor Paulo Artaxo, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável (Ceas) da Universidade de São Paulo (USP), o rompimento das barreiras territoriais na ciência é elemento essencial nesse processo. “A internacionalização da ciência é algo absolutamente essencial se quisermos efetivamente construir um mundo mais sustentável. E eventos como esse, onde cada pesquisador retorna ao seu laboratório levando uma experiência de interdisciplinaridade valiosa, é uma questão absolutamente estratégica para a ciência mundial e é uma das coisas que a TWAS tenta implementar”, ressalta.
A mesma inspiração se reflete nas palavras de Marcelo Knobel, que encerrou com uma mensagem de esperança ao futuro. “Nesse momento em que estamos vendo tanta guerra, tanta coisa ruim no mundo, é muito inspirador perceber que há tanta capacidade e vontade de melhorar o mundo, de melhorar as coisas. Então, realmente, é isso que me motiva: ver pessoas com vontade e acreditar em um mundo melhor”, finaliza.