Evento internacional reuniu pesquisadores de diversos países, promoveu colaborações e destacou a produção científica do continente

Em mais um ano, a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) esteve presente no Miami Mathematical Waves (MMW), evento internacional realizado no mês de janeiro, na Universidade de Miami, nos Estados Unidos. Como parte de uma série de conferências organizadas pelo Instituto de Ciências Matemáticas das Américas (IMSA), o MMW tem como principal objetivo demonstrar os desenvolvimentos recentes na Matemática contemporânea e dar visibilidade ao trabalho de matemáticos latino-americanos.
Em três dias de intensa programação, o evento reuniu mais de 15 palestras plenárias, apresentadas por pesquisadores de instituições de oito países, com forte presença da América Latina, além de Europa e Estados Unidos. Assim como nas edições anteriores, o Miami Mathematical Waves 2026 também reservou parte de sua agenda para a tradicional entrega de prêmios, contemplando categorias voltadas a jovens pesquisadores, matemáticos consolidados e lideranças científicas.
Segundo a Presidente da SBM e da União Matemática da América Latina de do Caribe (UMALCA), Jaqueline Mesquita, a conferência oportuniza colaborações e joga luz sobre a ciência produzida no continente. “Além de ser um evento com matemáticos renomados da América Latina que apresentam seus trabalhos recentes, também conta com a entrega de prêmios muito importantes a pesquisadores da área. O evento ainda tem permitido que lideranças da América Latina e pesquisadores em Matemática iniciem colaborações”, afirma.
Pesquisa de ponta
Integrando o rol de plenaristas logo no primeiro dia de evento, Jaqueline Mesquita, que é docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), levou ao MMW 2026 uma palestra sobre a transmissão da chikungunya no Brasil e no estado da Flórida (EUA), usando modelos matemáticos que descrevem a dinâmica da doença ao longo do tempo.

Intitulado On the Geographic Spread of Chikungunya between Brazil and Florida: A Multi-patch Model with Time-delay, o estudo considera diversos aspectos que influenciam na transmissão do vírus, como fatores climáticos, características do mosquito Aedes aegypti (o vetor da doença) e etapas biológicas da infecção. Para isso, é proposto um modelo multi-patch, ou seja, que considera diferentes regiões conectadas entre si. Com base em simulações dadas pelo modelo matemático, a pesquisa permite avaliar diferentes cenários e fazer projeções futuras.
“O nosso modelo traz equações com retardo e também leva em consideração o tempo de incubação da larva e do mosquito até que ele se torne infectado. Tudo isso foi considerado em um modelo bastante complexo, no qual fizemos algumas previsões sobre como determinadas medidas podem ser adotadas para evitar o aumento do número de pessoas infectadas pela chikungunya aqui na Flórida”, explica.

O estudo é um trabalho conjunto com os pesquisadores A. Gondim, X. Huo and S. Ruan, do IMSA. Jaqueline revela que o resultado do trabalho está intimamente relacionado à experiência proporcionada pelo Instituto, o qual ela é vinculada ao comitê científico: “Justamente vindo bastante aqui para Miami, eu descobri que tem um grupo muito forte que trabalha dentro da minha linha de pesquisa, que são com as equações diferenciais com retardo e com aplicações na área de biologia”.
Representatividade brasileira
Além da Presidente da SBM, outros brasileiros foram destaque na agenda do Miami Mathematical Waves 2026, como Lino Grama e Marcos Jardim, docentes da Unicamp, e Leonardo Cavenaghi, pós-doutor pelo IMSA e pela Unicamp, e atualmente pesquisador no Centro Internacional de Ciências Matemáticas (ICMS- Sofia), na Bulgária.

O Diretor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp, Ricardo Miranda, reconhece positivamente a representatividade brasileira ancorada por docentes do Instituto. “Acredito que nós somos atores importantes na Matemática da América Latina e a nossa presença aqui acaba reforçando isso. A delegação do IMECC representa bem as várias linhas de pesquisa que a gente tem desenvolvido dentro da Matemática e é sempre bom estar presente nesses eventos grandiosos”, avalia.
Integração latino-americana
Para além da construção de bases científicas cada vez mais sólidas, o evento também oportuniza uma atividade importante presente nas entrelinhas de seus objetivos: o fortalecimento do diálogo entre as nações latino-americanas. Estabelecer laços e colaborações, reencontrar amizades e conhecer novas redes de pesquisa estão entre os destaques proporcionados pelo MMW. É o que aponta a Presidente da Sociedade Mexicana de Matemática (SMM) e professora da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Gabriela Araujo-Pardo, ao relembrar as primeiras edições do evento.
“Ao longo desses três anos, estamos consolidando coisas muito importantes. Na primeira vez, nós – vários presidentes das sociedades científicas latino-americanas e do Caribe – nos conhecemos. Por exemplo, eu conheci a Jaqueline [Mesquita] aqui. E isso é de uma importância fundamental: a pesquisa em Matemática desenvolvida na América Latina, e as redes que construímos em grande medida graças a esta conferência”, relembra.

Em sintonia, Laura Schaposnik, da University of Illinois, em Chicago (EUA), e uma das plenaristas do evento, afirma que a troca com pesquisadores do continente latino foi um dos destaques na experiência: “Eu fico muito feliz com todos esses pesquisadores da América do Sul aqui. Existem modelos incríveis, especialmente mulheres mais experientes que influenciaram a minha carreira, e vê-las aqui é realmente muito bonito. E também é muito bom ter pessoas de tantos lugares diferentes, isso tem sido muito positivo”.
O Diretor do IMSA, Ludmil Katzarkov, avalia os resultados da conferência de forma promissora, destacando o protagonismo da nova geração de pesquisadores. E completa: “O que também podemos observar agora é que existem conexões muito fortes e consolidadas em termos de colaboração entre pessoas de todo o mundo, e isso é consequência direta dos programas muito bem-sucedidos que o IMSA tem organizado ao longo dos anos”.
Premiações
O último dia de evento foi reservado à tradicional cerimônia de premiação do MMW. Federico Castillo, professor da Pontifica Universidad Catolica de Chile, foi distinguido com o IMSA Young Mathematical Award – para matemáticos até 40 anos. Já Luna Lomonaco, pesquisadora italiana vinculada ao Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), foi agraciada com o IMSA Young Female Mathematical Award, que reconhece matemáticas de até 45 anos.
A cerimônia homenageou ainda Guillermo Cortiñas, da Universidade de Buenos Aires, na categoria IMSA Established Mathematician, voltada a pesquisadores consolidados. E também da Universidade de Buenos Aires, Alicia Dickenstein, recebeu o Latin America Mathematical Leadership Award – prêmio que reconhece lideranças latinas de destaque.

Federico, um dos matemáticos premiados, revela ter ficado muito feliz com o reconhecimento: “É uma forma de destacar que fazemos um bom trabalho na América Latina”. Ele complementa dizendo que a promoção de iniciativas como essa são também uma forma de driblar os desafios enfrentados no território. “Ainda falta bastante apoio, porque os países têm contextos de financiamento muito diferentes e, geograficamente, estamos muito espalhados. Então, promover esses espaços de encontro, conferências, workshops e outras iniciativas é muito importante para manter as redes de contato e de pesquisa”, diz.
Um futuro promissor
Ao celebrar trajetórias consolidadas e talentos em ascensão, a cerimônia de premiação reforçou o papel do reconhecimento científico como incentivo à continuidade e ao fortalecimento da pesquisa na região. Para o Diretor do IMSA, Ludmil Katzarkov, valorizar essas contribuições é fundamental para o desenvolvimento da Matemática no continente.

Nesse sentido, Katzarkov avalia que o Miami Mathematical Waves tem cumprido a missão institucional do Instituto. “Assim, essa função principal do IMSA – servir como um espaço de oportunidades, de desenvolvimento e de excelência – tem sido cumprida de forma exemplar por todas essas atividades realizadas nos últimos três anos. E o mundo passa a reconhecer as conquistas da Matemática latino-americana, que é uma parte muito importante da nossa missão”, conclui.