Organizada pela SBM, 2ª Conferência de Tendências em Ciências Matemáticas fortalece as relações científicas entre Brasil e Alemanha

Realizado no ICMC-USP, em São Carlos, o evento reafirma a relevância da produção científica brasileira e amplia parcerias globais

O evento internacional reuniu pesquisadores atuantes no Brasil, Alemanha, China, Espanha, Holanda, Estados Unidos e Polônia | Foto: João Arenhart/SBM

Na última semana, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos (SP), foi sede da 2ª edição da Conferência de Tendências em Ciências Matemáticas, evento internacional organizado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Instaurado como uma iniciativa de cooperação entre Brasil e Alemanha, a conferência manteve como objetivo ampliado a expansão do intercâmbio científico entre pesquisadores de diferentes nações.

Entre sessões temáticas, palestras plenárias e sessões de pôsteres, a programação da conferência contou com a participação de pesquisadores vinculados a 7 países, com predominância de instituições brasileiras, e presença qualificada de universidades da Alemanha, China, Espanha, Holanda, Estados Unidos e Polônia. Das pesquisas inovadoras em Matemática Aplicada e Ciência de Dados aos desenvolvimentos mais recentes do campo teórico, a agenda do evento foi concebida para fomentar o diálogo de ideias, conectando fundamentos matemáticos a aplicações transformadoras.

É o que afirma o coordenador da iniciativa e professor do ICMC-USP, Everaldo Bonotto: “Nesse segundo Trends in Mathematical Sciences, nós vimos um fortalecimento consolidado da cooperação bilateral entre Brasil e Alemanha. E, além disso, queremos também reforçar a Matemática na sociedade, mostrando a sua importância diante dos problemas e desafios. Por isso, pensamos em uma programação ampla, contendo palestrantes de Matemática Aplicada e da área de Ciências de Dados”. Everaldo também integra o Comitê Editorial da SBM, na qualidade de editor-chefe. 

Como surgiu 

Realizado pela primeira vez na cidade de Erlangen, na Alemanha, em 2024, a Conferência de Tendências em Ciências Matemáticas, se mostrou, desde então, um sucesso na comunidade matemática internacional. A Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita, explica que a ideia de realizar o evento surgiu durante uma visita à Alemanha, em 2022. 

A mesa de abertura foi composta por Enrique Zuazua, Kalinka Castelo Branco e Jaqueline Mesquita | Foto: João Arenhart/SBM 

Na ocasião, ela atuava como Humboldt Fellow, título concedido a pesquisadores contemplados com bolsa da Fundação Alexander von Humboldt, tradicional instituição alemã de fomento à pesquisa. Foi em diálogo com Enrique Zuazua, professor na Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU), que a iniciativa amadureceu: “Quando eu fiz essa visita, começamos a conversar e pensar em formas de potencializar essa colaboração entre o Brasil e a Alemanha. E aí surgiu a ideia de fazer esse evento que é o Trends in Mathematical Sciences”. 

Segundo Enrique, que esteve presente nesta segunda edição, em São Carlos, entre as premissas do evento estão o compromisso com os horizontes de avanço matemático e o fortalecimento das oportunidades para pesquisadores e matemáticos em formação. “Essa é uma visão que já compartilhávamos com a Jaqueline: tentar fazer um evento que olhasse para o futuro da Matemática. E que pudesse ser também uma inspiração para os jovens ou para os profissionais que querem conhecer um pouco qual é o estado da arte, quais são os campos mais importantes e onde estão as melhores oportunidades de inovação”, explica. 

Foco na cooperação internacional 

Enrique também elucida que outro objetivo central do evento é o fortalecimento da cooperação internacional entre os países, protagonizado pelas trocas científica e cultural entre os participantes. O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do Conselho Diretor da SBM, Carlile Lavor, destaca as oportunidades de diálogo como ponto alto de sua experiência como plenarista. 

Além de professor da Unicamp, Carlile Lavor integra o Conselho Diretor da SBM | Foto: João Arenhart/SBM

“Conhecer pesquisadores tanto daqui do Brasil quanto da Alemanha é um aspecto fundamental. Além de descobrir novas áreas, novos problemas, receber novas questões até de problemas que a gente já conhece. A grande importância de um evento como esse é conhecer outros assuntos e outras pessoas”, avalia. 

A Presidente da SBM complementa que iniciativas como essa também abrem precedentes para chances de intercâmbio em instituições no exterior: “Têm surgido várias oportunidades para os nossos estudantes e professores irem para a Alemanha. Temos tido resultados muito bons. A expectativa é que os pesquisadores que estão aqui possam também interagir e ter uma relação frutífera para o futuro”. 

Brasil na vanguarda

Como país anfitrião desta segunda edição, o Brasil assumiu protagonismo no programa científico do evento e na articulação da rede internacional mobilizada pela conferência. Ao todo, 26 pesquisadores atuantes em instituições brasileiras participaram da programação, entre palestras e apresentações de pôsteres, liderando a presença no encontro. O dado não apenas reflete a centralidade do país na organização desta edição, mas também evidencia a solidez e a diversidade da produção matemática desenvolvida no contexto do Sul Global, cada vez mais integrada aos principais circuitos internacionais da área.

Para Fernanda Andrade da Silva, pesquisadora do ICMC-USP e membra do comitê organizador, a alto nível da pesquisa brasileira é amplamente reconhecido no exterior. “A qualidade dos trabalhos de todo o Brasil é muito boa. É uma visão errônea achar que estamos abaixo. Muitos pesquisadores brasileiros publicam em revistas internacionais de renome. O trabalho brasileiro é bem visto lá fora”, destaca.

O período da tarde do primeiro dia de evento foi reservado para a sessão de pôsteres | Foto: João Arenhart/SBM 

Ela ressalta ainda o papel estratégico da Sociedade Brasileira de Matemática na ampliação dessas conexões internacionais: “A SBM atualmente tem feito mais essas colaborações entre Brasil e outros países, o que faz cada vez mais os brasileiros serem conhecidos lá fora. Mas a qualidade sempre foi muito boa. Acho que o foco hoje em dia é a divulgação dos trabalhos.”

Como exemplo concreto desse movimento de maior visibilidade e inserção internacional, o doutorando Lucas Ozaki Mizuguti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), destacou a importância de apresentar seu trabalho em equações diferenciais na sessão de pôsteres do evento. Para ele, a experiência foi estratégica especialmente neste momento de transição acadêmica.

“Eu acho que o ponto principal é poder mostrar para o pessoal de fora, especificamente da Alemanha, um pouco do que eu faço, um pouco da minha pesquisa. E o networking também é muito importante: conhecer pessoas de fora, não só da sua área, mas que trabalham com temas próximos. Para quem está no final do doutorado, que é o meu caso, isso começa a ampliar um pouco as possibilidades, abrir o leque para outras opções e poder seguir outros caminhos”, afirma. 

A criação de um legado

A dimensão internacional e a diversidade temática da conferência também foram destacadas por Stefanie Sonner, pesquisadora da Radboud University Nijmegen, da Holanda, que ressaltou o papel desses encontros na renovação das agendas científicas: “Na Matemática é muito importante se reunir e realmente discutir ideias e se inspirar para pensar em novas direções. E o que é interessante aqui é que é um encontro muito amplo. Você consegue ver trabalhos de diferentes áreas da Matemática e também de diferentes países, reunindo pesquisas da Alemanha e do Brasil, e isso pode levar a colaborações muito frutíferas.”

A pesquisadora Stefanie Sonner, atuante na Radboud University Nijmegen, na Holanda, no momento de sua plenária | Foto: João Arenhart/SBM 

Na avaliação de Carlile Lavor, a principal marca deixada pelo evento está justamente na energia mobilizada e na perspectiva de continuidade. “Eu acho que o principal legado é dizer que é um evento vivo, que deve ser continuado. A animação das pessoas, tanto dos estrangeiros quanto dos participantes brasileiros, mostra isso. Devemos seguir com esse formato itinerante Brasil–Alemanha”, finaliza.