Com recorde de participação, evento realizado na Unicamp combinou divulgação de pesquisas de iniciação científica e intercâmbio entre estudantes de diferentes áreas da Matemática

Em sua terceira edição, a Semana Nacional de Iniciação Científica da Sociedade Brasileira de Matemática (SENIC-SBM) bateu recorde de participação, reunindo mais de 200 participantes na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre os dias 5 e 9 de outubro. Considerado o maior evento do país dedicado à iniciação científica (IC) em Matemática, o encontro promoveu a apresentação de trabalhos em pôsteres e comunicações orais, além de palestras plenárias, minicursos e premiações.
Para o professor Fernando Manfio, da Universidade de São Paulo (USP), que organiza o evento desde sua primeira edição, a SENIC 2026 se fundamentou na excelência científica e no protagonismo estudantil. “Proporcionamos um espaço para que os estudantes pudessem conhecer diferentes formas de se fazer Matemática. Tivemos pesquisadores de diferentes áreas, todos eles muito bem renomados, que trabalham na construção dessa formação que nós acreditamos ser importante”, destacou.

A SENIC 2026 também se destacou pela representatividade regional de seus participantes. “É muito importante essa diversidade porque cada um trouxe a realidade para cá. E voltando para as suas cidades, poderão levar toda essa experiência vivida aqui, multiplicando ainda mais o conhecimento e encorajando outros estudantes a se inscreverem na SENIC”, avaliou a professora Jaqueline Mesquita, Presidente da SBM.

A oportunidade de colocar a pesquisa no mundo
A programação reservava diariamente dois horários para as sessões de pôsteres, nas quais os estudantes apresentavam livremente os trabalhos ao público que circulava pelo evento. Já nas comunicações orais, cada participante dispunha de 30 minutos para expor os resultados da pesquisa e responder a eventuais perguntas.
Para muitos, a SENIC foi a primeira oportunidade de apresentar suas pesquisas. Esse foi o caso de Ric Inácio, estudante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que levou à SENIC seu trabalho sobre aplicações do sudoku – jogo de origem japonesa baseado na colocação lógica de números – no contexto do ensino da Matemática. “O meu trabalho era um dos únicos que tinha o ensino da Matemática como foco, então quem gostava mais dessa área veio conversar comigo. Além disso, foi muito interessante conhecer as outras áreas e os estudantes de faculdades de outros estados”, comentou.

Para o estudante Lucca Delboni, da Unicamp, o evento ajudou a fortalecer o senso de comunidade entre os estudantes. “Eu sou um grande advogado da divulgação científica em Matemática. Então eu acho que esse tipo de evento é importantíssimo pra comunidade, principalmente para a IC, que é onde a gente começa a ver as coisas e a se sentir parte de uma comunidade. Dá um pouco mais de fôlego e motivação”, afirmou.

Troca de saberes
Nesta edição, a SENIC contou com oito palestras, dois minicursos e uma mesa-redonda. As atividades abordaram desde assuntos clássicos da Matemática, como a hipótese de Riemann e a Conjectura de Poincaré, até temas que permeiam a contemporaneidade, como o impacto da inteligência artificial (IA) na rotina dos matemáticos e os desafios da carreira acadêmica no exterio
A professora Flávia Morgana Jacinto, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), conduziu uma palestra focada na divulgação científica do coletivo Caboclas Kirimbaua Auaeté. Iniciado em 2018, no Departamento de Matemática da UFAM, o projeto busca promover o protagonismo das mulheres e meninas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês). Segundo Flávia, falar do tema foi uma forma de evidenciar a conexão entre a ciência e os desafios sociais contemporâneos. “A Matemática está em todo lugar. Ela se apresenta e ajuda a modelar o pensamento humano e a resolver vários problemas que estão hoje postos. A ciência anda em paralelo com o desenvolvimento social e humano. Tornar isso claro para a população é uma obrigação nossa como cientistas”, pontuou.
Mais do que conhecimento técnico, a SENIC também proporcionou trocas entre gerações, ampliando o significado da Matemática na vida dos estudantes. “Eles falaram bastante sobre as dificuldades e os desafios reais da Matemática, que a vida não é linear, a gente tem altos e baixos, mas que isso acontece com todo mundo. Enfim, Matemática é isso: a gente insiste, demonstra, procura, instiga, observa, contempla. E isso me marcou bastante, me deu força pra continuar”, pontuou a mestranda Alice Vitória Macedo, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A importância da IC na formação de um pesquisador
Ao acompanhar a plenária de Emanuel Carneiro, do International Centre for Theoretical Physics (ICTP), sobre a hipótese de Riemann, a docente Patricia Klaser, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), recordou-se de sua época como estudante de iniciação científica. “A IC tem uma importância essencial. A gente tem possibilidades de ter muito contato com temas e pessoas interessantes, participar dos primeiros eventos. É muito legal porque nessa fase os alunos são protagonistas da sua pesquisa, ao contrário de quando eles estão na sala de aula. Isso é um baita aprendizado para a carreira de cientista”, destacou.
Para o professor Eduardo Teixeira, da Oklahoma State University, a SENIC é uma das atividades mais fundamentais realizadas pela SBM. “Quando recebi o convite para participar eu aceitei de pronto por perceber a importância desse evento. Nós precisamos dos jovens motivados e interessados, porque a força que vem dessa nova geração muda a compreensão da própria sociedade sobre a Matemática. E isso é muito importante para termos cada vez mais uma sociedade bem informada, com competências matemáticas melhor estabelecidas. Um evento como esse é absolutamente estratégico”, avaliou.

Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues de Iniciação Científica
No último dia da semana (9) foi realizada a cerimônia de entrega do Prêmio Hildebrando Munhoz Rodrigues de Iniciação Científica, que reconheceu trabalhos nas categorias apresentação oral e pôster, com premiações nos níveis ouro, prata e bronze. Uma novidade da edição 2026 foi a entrega de cinco menções honrosas na modalidade pôster, destinadas a um trabalho de destaque de cada região do país.
O prêmio concedeu um diploma outorgado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e pela SBM, um troféu, uma premiação em dinheiro de R$2000 a R$300, conforme modalidade e nível da premiação. Além disso, os premiados poderão escolher dois livros que estejam disponíveis na loja virtual da Sociedade.
Segundo a professora Regilene Delazari, da USP e integrante do comitê científico da premiação, cada trabalho foi avaliado por pelo menos dois professores, em um processo que envolveu cerca de 25 avaliadores. Nas comunicações orais, foram considerados critérios como a relevância do trabalho, a objetividade da apresentação, o domínio sobre o tema, a capacidade de comunicação oral e visual, a interação com a plateia e o grau de desenvolvimento da pesquisa. Já na avaliação dos pôsteres, foram observadas a clareza e a completude do material, além da complexidade do tema em relação ao estágio de formação do estudante.
A estudante Gabriela Alves Squaiella, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi a vencedora do nível ouro nas apresentações orais. O trabalho abordou o uso de métodos topológicos para investigar a existência de soluções de equações matemáticas. “Eu fiquei muito emocionada com tudo. Não esperava o prêmio, porque as outras apresentações também foram maravilhosas. Estou me sentindo muito feliz de ter sido reconhecida por esse trabalho, porque foi muito difícil de fazer, tive apenas dois meses”.

O estudante Mauro de Andrade Pinto, da Unicamp, vencedor do nível ouro na modalidade pôster, destacou que as experiências vividas ao longo da semana tiveram importância tão grande quanto o reconhecimento pelo trabalho apresentado. “O que mais me marcou realmente foi o contato com a comunidade. Consegui conhecer muita gente legal e trabalhos impecáveis. Fiquei muito feliz de ver que o Brasil desenvolve Matemática de alto nível”, relatou.
As trocas também ultrapassaram as fronteiras da ciência e chegaram à cultura e às relações pessoais. Para Alice Vitória, a convivência entre estudantes de diferentes regiões permitiu a construção de amizades que se estenderão para além do evento. “A mistura de sotaque sempre me encanta. A gente teve uma roda de conversa sobre ritmos musicais, sobre a cultura. Eu acho que isso é muito enriquecedor. E a gente já está marcando de ir a eventos um na região do outro, acho que isso é uma das maiores contribuições”.
Ao encerrar o evento, Fernando Manfio divulgou que a próxima edição da Semana Nacional de Iniciação Científica da SBM será realizada em João Pessoa, na Paraíba, em agosto de 2027. Na oportunidade, ele também fez questão de destacar a importância da democracia para iniciativas como a SENIC e o papel das instituições públicas no fomento da ciência. “A ciência e a democracia andam juntas, elas estão entrelaçadas pela propriedade transitiva, que a gente entende bem. Então, a democracia também deve ser algo que a gente deve se atentar, e com mais razão nesse momento, porque a SENIC só existe porque nós estamos em uma universidade pública. É um esforço tremendo ter recurso financeiro para gerenciar tudo isso, para receber vocês. Para que possamos ter a quarta, a quinta e as demais edições, temos que ter essa ambiência. Isso tudo só ocorre no ambiente democrático”, finalizou.