Realizado na USP, encontro reuniu pesquisadores de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e abriu novas perspectivas de cooperação científica, intercâmbios e projetos conjuntos

A aproximação entre as comunidades matemáticas dos países do Sul Global ganhou um novo capítulo em São Paulo. Realizada entre 18 e 21 de agosto, no Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP), a 7ª Conferência Matemática dos BRICS reuniu pesquisadores, professores e estudantes ligados a instituições do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul para quatro dias de intercâmbio científico, apresentação de pesquisas e construção de novas possibilidades de colaboração internacional.
A conferência integrou a agenda de internacionalização que vem sendo impulsionada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), com atenção especial à aproximação com a China e com outras comunidades científicas do Sul Global. Ao longo de agosto, a entidade esteve envolvida na realização de uma série de encontros internacionais no Brasil, fortalecendo uma estratégia que começa a se traduzir em novos projetos, mobilidade de pesquisadores e estudantes e redes de pesquisa.
“A SBM tem investido bastante na relação da Matemática com o Sul Global. A gente tem olhado com muita atenção, especialmente para a China, que tem sido um país estratégico para colaborações na área de Matemática, mas também para a América Latina e para os demais países do BRICS. Já temos visto várias colaborações surgindo, intercâmbio de estudantes e possibilidades de projetos de cooperação”, afirmou a Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita.

A organização da conferência contou com a participação da SBM, USP, Unicamp, UFSCar e das sociedades científicas integrantes | Foto: João Arenhart/SBM
Para ela, receber encontros dessa dimensão também consolida o Brasil como espaço de articulação científica internacional. “É uma grande satisfação ver o Brasil liderando toda essa discussão da Matemática no Sul Global. Espero que a gente continue avançando nessa agenda, cada vez mais estreitando essas relações. Fico muito contente de ver a Sociedade Brasileira de Matemática organizando essa série de eventos e trazendo a Matemática brasileira para esse palco tão importante”, acrescentou.
Organizada pela SBM, pela USP, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e por sociedades matemáticas dos países participantes, a conferência retornou ao Brasil pela primeira vez desde 2018. Criado em 2017, o encontro busca aproximar matemáticos das nações que compõem o BRICS e estimular relações capazes de permanecer para além dos dias de programação científica.
Quatro dias de intercâmbio científico
A programação reuniu diferentes áreas da Matemática Pura, Aplicada e da Estatística em palestras plenárias, sessões temáticas, apresentações de trabalhos e pôsteres. O objetivo foi aproximar tanto pesquisadores consolidados quanto jovens cientistas e estudantes.

Professor do IME-USP e coordenador da conferência, Yuri Lima destacou que a diversidade da programação foi pensada justamente para favorecer encontros entre áreas e tradições de pesquisa distintas. “Foi elaborada uma programação ampla, que contempla diversas áreas e coloca as pessoas em contato com o que está sendo feito de melhor nesses países. A ciência avança quando ideias de uma área são utilizadas em outra e quando pesquisadores têm a oportunidade de trocar informações”, afirmou.
Entre os convidados esteve Artur Ávila, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e primeiro brasileiro a receber a Medalha Fields. Para ele, realizar encontros internacionais no país não beneficia apenas os pesquisadores brasileiros, mas ajuda a inserir o Brasil de maneira mais efetiva nos fluxos internacionais da ciência.

“É importante que o Brasil fique visível para que se torne uma possível destinação de intercâmbio científico. Para os brasileiros, é interessante ter esse contato, mas também é importante que estudantes de outros países pensem no Brasil como um lugar onde podem estudar, pesquisar e colaborar”, disse.
Uma Matemática sem fronteiras
Embora o BRICS seja mais frequentemente associado às relações econômicas e geopolíticas entre seus membros, a conferência mostrou como essa aproximação pode se estender à produção do conhecimento.
Pós-doutorando indiano no IME-USP, Anindya Chanda vê a iniciativa também como um intercâmbio cultural. “Quando falamos do BRICS, normalmente pensamos primeiro em economia e política. Eu vejo este encontro também como uma troca cultural, e a academia desempenha um papel muito importante nisso, especialmente a Matemática. Reunir pesquisadores de diferentes países, permitindo que conversem e colaborem, abre muitas possibilidades”, afirmou.

Para ele, a própria natureza da Matemática exige esse contato constante entre diferentes comunidades. “A Matemática é verdadeiramente uma cultura internacional. Quando trabalhamos na área, precisamos observar o que está acontecendo no mundo, entender como pesquisadores de outros países pensam sobre um assunto, quais são suas intuições e quais caminhos utilizam. Ter contato com essas diferentes culturas matemáticas é muito importante”, explicou.
Professor da Universidade de Pequim, Zhiyu Tian seguiu na mesma direção. Segundo ele, encontros presenciais permitem que ideias sejam confrontadas e aperfeiçoadas, processo particularmente relevante em uma área movida pelo raciocínio e pela discussão entre pesquisadores.
“O avanço da ciência ocorre por meio da discussão e da troca de ideias. As pessoas precisam se encontrar e conversar para que as coisas aconteçam. Isso é especialmente importante na Matemática: discutimos nossas ideias com os colegas e, algumas vezes, começamos a trabalhar juntos e conseguimos avançar”, disse.
A programação variada também permitiu que pesquisadores entrassem em contato com temas distantes de suas especialidades. Tian afirmou que pretendia aproveitar o encontro justamente para conhecer novos assuntos e buscar inspirações que pudessem ser incorporadas ao próprio trabalho.
Brasil e China seguem estreitando relações
A participação chinesa teve destaque ao longo da conferência e refletiu um movimento de aproximação que vem sendo construído por sociedades científicas e pesquisadores dos dois países.
Secretário-geral adjunto da Sociedade Chinesa de Matemática, Yi Wang ressaltou que Brasil e China têm ampliado suas relações científicas por meio de encontros bilaterais e de iniciativas multilaterais, como a própria Conferência Matemática dos BRICS. “Precisamos de bons parceiros e de comunicação para ampliar o entendimento e as nossas capacidades. A China possui muitas possibilidades de parceria e acredito que conseguiremos aprofundar e ampliar a nossa cooperação. Vejo um futuro muito promissor”, afirmou.
O professor chinês Xiaobo Liu também considera que ainda existe espaço significativo para o crescimento dessa relação. “É muito importante que os países do BRICS fortaleçam a cooperação em Matemática. Brasil e China avançaram muito economicamente, mas a colaboração entre suas comunidades matemáticas ainda não chegou ao nível que poderíamos esperar. Este é um bom momento para ampliá-la”, avaliou.

Para Liu, a conferência funcionou também como um espaço para identificar potenciais parceiros de pesquisa. “Quero saber o que outros pesquisadores dos países do BRICS estão fazendo e encontrar oportunidades futuras de cooperação entre o meu trabalho e o de colegas dessas nações”, completou.
Olhares diferentes para um mesmo problema
A construção de redes internacionais também permite que pesquisadores entrem em contato com formas distintas de pensar a Matemática. Professor da Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, Michael A. Henning destacou que diferentes países desenvolveram competências e tradições próprias que podem se complementar.
“É importante reunir conhecimentos distintos para que possamos aprender uns com os outros. Determinados países são muito fortes em algumas áreas e, dessa maneira, podemos aproveitar essas diferentes competências. Somos expostos a outras formas de pensar e de abordar um problema”, explicou.
Henning ressaltou ainda a importância de conhecer pesquisas que estejam fora da própria especialidade. “Às vezes é bom sair da nossa pequena área e ser exposto a um espectro mais amplo da Matemática, conhecendo aquilo em que outras pessoas estão trabalhando”, acrescentou.

Na prática, esse tipo de interação pode gerar novos resultados científicos. Foi o que ocorreu com uma pesquisa apresentada pelo doutorando Anderson Mauro da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sobre configurações centrais empilhadas no problema de muitos corpos.
O trabalho nasceu da aproximação entre resultados obtidos por um grupo formado por pesquisadores do Brasil, Chile e Espanha e outro grupo da China. Ao comparar e combinar as abordagens, os pesquisadores chegaram a um novo resultado. “A gente tentou misturar essas ideias e fazer um comparativo. Desse comparativo acabou sendo criado um resultado novo. Isso tem tudo a ver com o evento: a ideia é que o intercâmbio seja cada vez maior e que não existam grupos isolados de pesquisa. Quando pesquisamos juntos, conseguimos mais resultados e resultados melhores”, explicou Anderson.
Universidade como espaço de internacionalização
Sediar a conferência também levou parte dessa rede internacional para o cotidiano da comunidade acadêmica da USP. Para o Diretor do IME-USP, Roberto Marcondes Cesar Junior, eventos dessa dimensão permitem ampliar o acesso de estudantes e pesquisadores brasileiros a interlocutores internacionais. “O nosso Instituto tem uma tradição muito grande de cooperação internacional. Isso faz parte do nosso DNA, porque o IME foi construído com cooperação internacional há quase cem anos, e essa tradição continua se perpetuando”, afirmou.
Segundo ele, ao receber pesquisadores estrangeiros, a Universidade proporciona uma forma de internacionalização que não depende apenas do envio de seus estudantes ao exterior. “Esse tipo de oportunidade traz alguns dos principais matemáticos do mundo para dentro do Instituto. Os nossos estudantes ficam expostos a palestras de alto nível, ao medalhista Fields e a grandes lideranças da Matemática da China, Rússia, Índia e África do Sul. Trazemos a internacionalização para dentro do IME”, destacou.

Jaqueline Mesquita também ressaltou a parceria entre a SBM e o Instituto na realização da conferência. “A Sociedade Brasileira de Matemática tem uma ótima relação com o IME-USP. É um instituto bastante reconhecido pela nossa comunidade e temos uma colaboração muito intensa. A SBM fica muito feliz de sediar um evento da magnitude da Conferência dos BRICS na USP e de contar com os professores do IME na sua organização”, afirmou.
Da pesquisa à formação matemática
Além das discussões acadêmicas, a conferência também abriu espaço para reflexões sobre o papel da Matemática na sociedade. Alexandre Moreira, coordenador de Desenvolvimento e Estudos da Fundação Itaú, apresentou dados sobre os impactos econômicos da área e os desafios brasileiros relacionados ao ensino e à aprendizagem.
Para ele, o domínio da linguagem matemática e estatística está diretamente relacionado à capacidade de compreender informações e exercer plenamente a cidadania. “A Matemática é uma agenda importante para combater as desigualdades no nosso país. Ter essa linguagem como instrumento para exercer a cidadania é algo que precisa ser garantido às nossas crianças e aos nossos jovens”, afirmou.
A discussão aproximou pesquisa científica, educação e desenvolvimento social, ampliando o escopo de uma programação que procurou tratar a Matemática não apenas como campo de investigação, mas também como elemento estratégico para os países participantes.
Conferência abre novos caminhos de cooperação
O encerramento da programação não representou o fim das articulações iniciadas em São Paulo. Durante o encontro, representantes das sociedades matemáticas discutiram os próximos passos para aprofundar a cooperação entre os integrantes do BRICS e criar mecanismos mais permanentes de aproximação.
Para Jaqueline Mesquita, esse foi um dos principais resultados da sétima edição. “O saldo da conferência foi muito positivo. Saímos daqui com discussões para avançar ainda mais nessa agenda do BRICS, pensando em prêmios, eventos de colaboração e publicações. Tivemos também uma reunião do comitê em que foram tomadas várias decisões estratégicas para avançar a Matemática no Sul Global”, destacou.

As conversas incluíram a possibilidade de ampliar a estrutura de articulação entre as comunidades matemáticas do bloco e desenvolver novas iniciativas conjuntas. A próxima edição da Conferência Matemática dos BRICS deverá ser realizada na Índia. Para Yuri Lima, a realização de encontros internacionais desse porte no país contribui também para mostrar ao exterior o nível alcançado pela pesquisa matemática brasileira.
“O Brasil tem uma dificuldade geográfica para trazer pessoas de outros continentes. A confluência desses eventos é muito importante para mostrar que fazemos ciência e Matemática de alto nível e que temos capacidade de estabelecer colaborações que podem perdurar por muitos anos”, afirmou.
Ao final dos quatro dias, ficaram não apenas as palestras e trabalhos apresentados, mas uma rede ampliada de pesquisadores e instituições. Para a SBM, a conferência representa mais uma etapa de uma estratégia que busca posicionar a Matemática brasileira como protagonista na construção de pontes científicas entre os países do Sul Global — transformando encontros em colaborações, intercâmbios e projetos capazes de permanecer muito além da programação do evento.