Realizado pela SBM em parceria com o Departamento de Matemática da UFRN, evento começou no domingo com entrega de prêmios e segue até sexta-feira com atividades para estudantes, professores e pesquisadores

Desde o último domingo (2), Natal se transformou em um dos principais pontos de encontro da comunidade matemática brasileira. A abertura e os dois primeiros dias de programação da XII Bienal de Matemática reuniram estudantes, professores da educação básica, pesquisadores e divulgadores científicos em torno de plenárias, oficinas, minicursos, apresentações de trabalhos e debates sobre ensino, pesquisa, diversidade e popularização da Matemática.
Realizada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), em parceria com o Departamento de Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Bienal chega pela primeira vez à capital potiguar com mais de 1.500 pessoas inscritas. A programação segue até sexta-feira (7), no campus da UFRN.
“A Bienal é o maior evento de Matemática da Sociedade Brasileira de Matemática e a gente está aqui com um público muito amplo. Temos mais de 1.500 pessoas inscritas. Então, imaginamos que um evento como esse vai causar muito impacto, especialmente para os estudantes que, muitas vezes, estão participando pela primeira vez”, afirma Jaqueline Mesquita, Presidente da SBM.
Segundo ela, a diversidade da programação permite aproximar diferentes públicos e etapas da formação matemática. Além das atividades de pesquisa, a Bienal conta com ações relacionadas ao Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), à educação básica, à divulgação científica e à representatividade na área.
“Os estudantes terão contato com vários pesquisadores de ponta que estarão aqui durante esta semana e também poderão estabelecer redes e conexões. Esperamos que as atividades melhorem a formação do professor de Matemática”, acrescenta Jaqueline.
Um sonho iniciado em 2010
A cerimônia de abertura foi realizada no domingo, no Praiamar Natal Hotel & Convention, em Ponta Negra. Para Carlos Alexandre Gomes da Silva, professor da UFRN e integrante da organização local, o início da XII Bienal representou a concretização de um projeto concebido há mais de uma década.
Carlos conheceu a Bienal em 2010, quando participou da edição realizada em João Pessoa, na Paraíba. Naquele mesmo ano, ele começou a trabalhar na UFRN e passou a alimentar a ideia de levar o evento para Natal. “Eu fui como participante e me apaixonei pelo evento. A sensação que tive naquela ocasião foi: ‘Eu preciso levar esse evento para Natal, para o meu departamento’. Agora estamos organizando a XII Bienal aqui. É um prazer e uma responsabilidade enorme”, conta.
Para o professor, uma das principais características da Bienal é a capacidade de reunir diferentes dimensões da Matemática em um mesmo espaço. “Ela atinge todo o espectro, desde a escola básica, passando pelo Ensino Médio, graduação e pós-graduação, até palestras e atividades de pesquisa avançada. Trabalhamos incansavelmente nos últimos meses para fazer com que esse evento se tornasse realidade. Aquele sonho de 2010 está sendo realizado”, celebra Carlos.
Prêmios marcam cerimônia de abertura
A solenidade de domingo também foi marcada pelo anúncio e pela entrega de importantes premiações promovidas pela SBM, entre elas o Prêmio SBM, o Prêmio Elon Lages Lima e a primeira edição do Prêmio de Divulgação Matemática.
Uma das iniciativas reconhecidas foi a Matemateca, projeto do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP), vencedora do 1º Prêmio de Divulgação Matemática da SBM. Criado no início dos anos 2000, o projeto utiliza objetos, jogos, exposições e experiências concretas para tornar conceitos matemáticos acessíveis a públicos variados.

“A Matemateca ganhou a primeira edição do Prêmio de Divulgação Matemática da SBM e nós ficamos muito felizes e contentes pelo reconhecimento de um trabalho que fazemos há mais de 20 anos. É um prêmio que nos deixa motivados para o futuro, para continuar fazendo o que a gente gosta e ser reconhecido por isso”, afirma Eduardo Colli, professor do IME-USP e um dos coordenadores do projeto.
Para Colli, a criação de uma premiação específica também sinaliza o fortalecimento da divulgação matemática no Brasil. “O número de pessoas fazendo divulgação de Matemática aumentou. Há toda uma comunidade que tem se encontrado e conversado. O prêmio é um farol muito bom para essa comunidade”, avalia.
O Prêmio Elon Lages Lima de 2026 reconheceu o livro Teoria dos Jogos Combinatórios em Grafos, de Samuel N. Araújo, Nicolas A. Martins, Nicolas Nisse e Rudini M. Sampaio. A obra apresenta conceitos da Teoria dos Jogos Combinatórios e suas aplicações em problemas representados por grafos.

Já o Prêmio SBM, que tem por finalidade distinguir o melhor artigo original de pesquisa em Matemática publicado recentemente por jovem pesquisador residente no Brasil, foi concedido a Yuri Lima, da Universidade de São Paulo (USP), e Maurício Poletti, da Universidade Federal do Ceará (UFC), pelo artigo Measures of maximal entropy for non-uniformly hyperbolic maps.

Para Yuri Lima, um dos diferenciais do trabalho foi sua publicação em uma revista de grande relevância na área e o reconhecimento por pesquisadores de destaque: “Eu acredito que um dos diferenciais do nosso trabalho, em primeiro lugar, é que o artigo foi publicado em uma revista de grande relevância – Journal of the European Mathematical Society. E a segunda coisa foi que a gente teve as cartas de apresentação enviadas para o prêmio escritas por matemáticos de grande renome. Eu acredito que isso também conta muito na hora da avaliação”.
Programação percorre diferentes áreas da Matemática
Na segunda-feira (3), as atividades foram transferidas para o campus da UFRN. As primeiras plenárias abordaram temas como a presença de meninas e mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e Matemática; o pensamento matemático no Ensino Médio; e as relações entre Álgebra Linear e Combinatória.
A agenda da manhã contou com uma mesa-redonda que reuniu representantes da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), da Associação Nacional dos Professores de Matemática (ANPMat) e da Sociedade Brasileira de História da Matemática (SBHMat). Durante o encontro, as entidades assinaram um Acordo de Reciprocidade e Colaboração, reforçando o compromisso conjunto com o desenvolvimento e a valorização da Matemática no país.
A programação também incluiu uma palestra do PROFMAT sobre a Matemática na educação básica, além de comunicações orais, oficinas, minicursos e apresentação de pôsteres. No fim do dia, Jaqueline Mesquita ministrou a palestra da SBM, seguida pela Assembleia da Sociedade.

Entre os participantes está Adriana Souza Resende, professora do curso de Matemática da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Atuante também no PROFMAT, ela viajou a Natal interessada especialmente nas atividades relacionadas às olimpíadas de Matemática e à formação de professores.
“Esse tipo de evento traz um ânimo novo para nós que estamos em sala de aula. São trabalhados vários assuntos e formas diferentes de abordar os conteúdos do dia a dia, muitos deles relacionados ao trabalho dos professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio”, relata.

Adriana espera levar as experiências da Bienal para suas atividades na graduação e na pós-graduação. “Esses assuntos vão contribuir com a nossa prática didática em sala de aula. Vão trazer um ânimo novo para despertar nos alunos o interesse por desenvolver pesquisas, escrever suas dissertações e também os trabalhos de conclusão de curso”, afirma.
Terça-feira amplia debates sobre pesquisa e participação feminina
Nesta terça-feira (4), o dia começou com novas plenárias, entre elas “Ciclotomia”, apresentada por Rodrigo Gondim, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e uma conferência da professora Valeska Zanello, da Universidade de Brasília (UnB).
A manhã também teve uma plenária de Regilene Delazari dos Santos Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP), e uma palestra do PROFMAT ministrada por Ildeu Moreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao longo da tarde, a programação continua com comunicações orais, oficinas e minicursos.
O dia marca ainda o começo das atividades do III Encontro do Programa de Mentoria para Mulheres na Ciência, iniciativa organizada pela SBM em conjunto com a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ). O encontro segue até quinta-feira (6) e reúne palestras e debates sobre trajetórias acadêmicas, assédio, letramento racial, diversidade e construção de ambientes científicos mais justos.
Para o fim da tarde desta terça-feira, estão previstas uma palestra do Programa de Mentorias para Mulheres e apresentações relacionadas ao Prêmio SBM e ao Prêmio Elon Lages Lima. A programação noturna inclui ainda uma palestra dedicada à edição de 2026 do Prêmio Elon e uma sessão de autógrafos com autores da Editora SBM.
Bienal consolidada no calendário nacional
Ao reunir temas que vão da formação de professores à pesquisa avançada, a XII Bienal mantém a proposta de estabelecer conexões entre diferentes integrantes da comunidade matemática.
“A Bienal tem se consolidado porque é um evento diverso. Há palestras de popularização e palestras um pouco mais específicas, mas sempre em um sentido amplo para atingir os alunos de graduação. Também há reuniões temáticas, discussões importantes, mesas-redondas e debates sobre educação e divulgação”, observa Eduardo Colli.

Para Carlos Gomes, o impacto do evento deverá continuar mesmo após o encerramento da programação. “Particularmente para nós, aqui no Nordeste, ela vai favorecer a formação de novas conexões com centros de pesquisa no Brasil e com outros eventos promovidos pela Sociedade Brasileira de Matemática. Eu costumo dizer que a Bienal contamina positivamente as pessoas, capturando aquelas que têm simpatia pela Matemática para participar dos próximos eventos”, afirma.
O que vem por aí
Na quarta-feira (5), os participantes poderão acompanhar novas plenárias, palestras do PROFMAT, comunicações, minicursos e oficinas. A programação também reserva uma mesa-redonda sobre os desafios da transição para o Ensino Superior e um encontro entre representantes da SBM, da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), da Sociedade Brasileira de História da Matemática (SBHMat) e da Associação Nacional dos Professores de Matemática (ANPMat).
A partir de quinta-feira (6), a Bienal também será palco da Conferência em Matemática Brasil–China–Macau–Portugal, criada para reunir pesquisadores dos quatro países e territórios, apresentar avanços científicos e fortalecer novas colaborações internacionais. A conferência segue até sexta-feira (7).
Até sexta-feira, a programação terá ainda atividades relacionadas à Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), divulgação científica, formação de professores e história da Matemática. O encerramento contará com a palestra “Episódios da história antiga da Matemática”, apresentada por Eduardo Wagner, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A edição também conta com a Bienalzinha, espaço gratuito destinado aos filhos dos participantes, com atividades lúdicas e educativas voltadas a crianças e adolescentes de 4 a 14 anos.