EDITORIAL

Editora do Noticiário Eletrônico da SBM
Secretária Regional da SBM
Olá, leitores e leitoras do Noticiário Eletrônico da SBM!
É com satisfação que apresentamos a edição de fevereiro, que reúne reflexões institucionais, um grande conjunto de oportunidades acadêmicas e diversos anúncios de eventos científicos nacionais e internacionais.
Esta edição destaca a celebração do Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, reafirmando o compromisso da SBM com a promoção da equidade de gênero e com ações estruturantes voltadas à construção de um ambiente acadêmico mais diverso e inclusivo
Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência
Prezados/as Colegas da Comunidade Matemática Brasileira e Associados/as da SBM,
No dia 11 de fevereiro celebramos o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. Mais do que uma data simbólica, é um momento de memória, reconhecimento e responsabilidade coletiva enquanto comunidade acadêmica.
A história mostra que a presença das mulheres na ciência nunca foi simples. Cada espaço hoje ocupado resulta da luta de mulheres que enfrentaram silêncio, exclusão e descrédito, e que precisaram provar reiteradamente sua competência e legitimidade.
Ainda hoje persistem desafios. Somos frequentemente avaliadas com maior rigor, cobradas com mais intensidade e sub-representadas em espaços de decisão. A misoginia nem sempre é explícita; muitas vezes se manifesta em pequenas exclusões, na ausência de convites, em questionamentos constantes, entre outros. Fazer Matemática sendo mulher ainda exige resistência diária.
Ao ocupar a presidência da Sociedade Brasileira de Matemática, tenho plena consciência do significado institucional e simbólico dessa posição. A presença de mulheres em cargos de liderança amplia horizontes, fortalece a representatividade e contribui para transformar estruturas historicamente desiguais. Antes de mim, Keti Tenenblat e Suely Druck exerceram essa função com excelência, firmeza e coragem, abrindo caminhos importantes para todas nós. Este ano estamos também com mulheres presidentes em todas as sociedades científicas brasileiras da matemática: SBM, SBEM, SBMAC, ANPMat, SBHMat, algo histórico.
Durante a gestão na SBM, assumimos o compromisso de ações concretas: criação e implementação do Programa de Mentorias para Mulheres, a criação e realização do Workshop de Mulheres da SBM, a criação do Prêmio “Elas na Matemática”, o apoio ao Torneio Meninas na Matemática, o fortalecimento da Comissão de Gênero e Diversidade e parcerias como a realizada com o British Council para formação e oportunidades específicas, entre outras. São medidas estruturantes, voltadas à construção de um ambiente acadêmico mais justo e inclusivo.
Não ocupamos esses espaços por concessão, mas por mérito, competência, trabalho árduo e perseverança. Estamos aqui porque pertencemos a este espaço.
Que esta data nos lembre de que não estamos sozinhas, somos muitas, somos fortes. Somos cientistas, pesquisadoras, professoras, líderes e continuaremos abrindo portas, não apenas para nós, mas para todas as que virão depois de nós. Precisamos de uma comunidade comprometida com a representatividade e a inclusão.
Que sigamos juntas, fortalecendo redes, apoiando umas as outras a subir e a se erguer diante das adversidades. Seguimos juntas na construção de uma matemática cada vez mais inclusiva, diversa, ética e humana.
Feliz Dia das Mulheres e Meninas na Ciência a todas as cientistas e futuras cientistas do nosso país. Vocês fazem a diferença!
Cordialmente,
Jaqueline Mesquita
NOTÍCIAS

Curso Cálculo Essencial retoma inscrições com nova turma
Depoimentos da primeira turma destacam clareza, rigor e custo-benefício
Com a primeira turma concluída e depoimentos expressivos dos estudantes, estão reabertas as inscrições para a segunda edição do curso Cálculo Essencial. Ministrado pelo professor Adail Cavalheiro, da Universidade de Brasília (UnB), o curso foi desenvolvido para quem deseja compreender o Cálculo de forma profunda, estruturada e acessível.

III Semana Nacional de Iniciação Científica da SBM será realizada em Campinas (SP), no mês de outubro
Reunindo os melhores estudantes de Iniciação Científica em Matemática do país, o evento contará com palestras, minicursos, mesa-redonda e tradicional entrega de prêmios
A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) realizará, de 5 a 9 de outubro de 2026, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a III Semana Nacional de Iniciação Científica da SBM (SENIC-SBM). Promovido desde 2024, o evento se consolidou como um dos principais espaços de valorização e estímulo à formação de jovens pesquisadores em Matemática no Brasil.

SBM e Unión Matemática Argentina (UMA) realizarão I Encontro Conjunto em setembro
Evento inédito em Mar del Plata, na Argentina, pretende reforçar laços de cooperação bilateral entre os países
Pela primeira vez, a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e a Unión Matemática Argentina (UMA) realizarão um encontro científico conjunto, consolidando um movimento de aproximação institucional entre as duas comunidades acadêmicas. O I Encontro Conjunto SBM–UMA será realizado de 21 a 25 de setembro de 2026, na Universidade de Mar del Plata, na Argentina.

SBM e IMSA lançam edital de auxílio viagem para encontro Brasil–Itália em Matemática
Serão concedidos seis auxílios de US$ 1.200 para pesquisadores com trabalho aprovado no II Joint Meeting Brazil–Italy in Mathematics, marcado para setembro de 2026, na Itália
A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), em parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas das Américas (IMSA, sigla em inglês), da Universidade de Miami, lançou o edital de Auxílio Viagem SBM-IMSA 2026 para participação no II Joint Meeting Brazil–Italy in Mathematics, que será realizado de 7 a 11 de setembro de 2026, em Messina, Itália.

Editor-chefe da Revista Professor de Matemática (RPM) e coordenador acadêmico da OBM conquista reconhecimento internacional na área olímpica
Na linha de frente da Olimpíada Brasileira de Matemática há mais 30 anos, Edmilson Motta foi agraciado com o Prêmio Paul Erdős
Edmilson Luis Rodrigues Motta, coordenador acadêmico da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e editor-chefe da Revista do Professor de Matemática (RPM), publicada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), foi agraciado com o Prêmio Paul Erdős. Concedido pela World Federation of National Mathematics Competitions (WFNMC), o Prêmio é uma das mais significativas honrarias voltadas ao reconhecimento de contribuições ao fortalecimento das competições matemáticas em âmbito internacional.

SBM realizará XII Bienal de Matemática em Natal (RN)
Promovido pela Sociedade Brasileira de Matemática, encontro será realizado de 3 a 7 de agosto, na UFRN, com programação científica e ações de divulgação matemática
De 3 a 7 de agosto, Natal (RN) será palco de um dos mais emblemáticos eventos da comunidade matemática brasileira: a XII Bienal de Matemática, promovida pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Pela primeira vez realizada na capital potiguar, a Bienal será realizada no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e reunirá pesquisadores, professores e estudantes de diversas regiões do Brasil em torno de uma programação dedicada à popularização e ao fortalecimento da Matemática.

Organizada pela SBM, 2ª Conferência de Tendências em Ciências Matemáticas fortalece as relações científicas entre Brasil e Alemanha
Realizado no ICMC-USP, em São Carlos, o evento reafirma a relevância da produção científica brasileira e amplia parcerias globais
Na última semana, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos (SP), foi sede da 2ª edição da Conferência de Tendências em Ciências Matemáticas, evento internacional organizado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Instaurado como uma iniciativa de cooperação entre Brasil e Alemanha, a conferência manteve como objetivo ampliado a expansão do intercâmbio científico entre pesquisadores de diferentes nações.
COLUNA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
A construção da Análise Matemática no Brasil: de pioneirismos à consolidação institucional
Por Sérgio Nobre & Roberto de Morais
O texto a seguir é baseado na dissertação de doutorado de José do Carmo Toledo (1964-2017), apresentada em 2008, intitulada “Uma história do processo de institucionalização da área de análise matemática no Brasil”.
A história da Análise Matemática no Brasil é um testemunho da resiliência e da visão de uma comunidade científica que, partindo de um cenário de escassez e isolamento, conseguiu edificar um campo de pesquisa robusto e reconhecido internacionalmente. No início do século XX, o ambiente científico brasileiro era incipiente, marcado pela ausência de infraestrutura adequada, de programas de pós-graduação e de uma tradição de pesquisa consolidada. A matemática, em particular, era vista predominantemente como uma ferramenta para outras disciplinas ou como um componente do ensino secundário e superior básico, carecendo de um reconhecimento como ciência fundamental autônoma.
Os desafios eram múltiplos: a falta de professores e pesquisadores qualificados, a ausência de periódicos especializados e bibliotecas atualizadas, e a dificuldade de intercâmbio com centros de excelência no exterior. Contudo, a partir da metade do século, um movimento gradual de profissionalização e institucionalização começou a tomar forma, impulsionado por indivíduos visionários e pela criação de marcos institucionais que seriam cruciais para o desenvolvimento da Análise Matemática e da matemática brasileira como um todo. Este artigo traça essa trajetória, destacando os momentos-chave e as figuras que moldaram o campo.
O desenvolvimento da Análise Matemática no Brasil não pode ser dissociado do contexto mais amplo da profissionalização da ciência no país. As primeiras iniciativas para a criação de um ambiente de pesquisa matemática surgiram em meados do século XX. Um dos marcos fundamentais foi a realização dos Colóquios Brasileiros de Matemática (CBM), iniciados em 1957. Esses eventos, organizados pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), fundado em 1952, foram essenciais para reunir os poucos matemáticos existentes no país, promover a troca de ideias e expor a comunidade a novas tendências e resultados da pesquisa internacional.
O IMPA, desde sua concepção, desempenhou um papel central na formação de pesquisadores e na difusão do conhecimento. Inicialmente focado em áreas como a Análise, o instituto atraiu talentos e estabeleceu as bases para os primeiros programas de pós-graduação. A criação de cursos de mestrado e doutorado, ainda que em escala limitada, permitiu que uma nova geração de matemáticos brasileiros fosse formada no país, muitos dos quais viriam a se tornar líderes em suas respectivas áreas. A Análise, com sua vasta gama de subcampos – desde a análise funcional e harmônica até as equações diferenciais e a teoria da medida – rapidamente se tornou uma das áreas mais ativas e produtivas.
Um ponto de inflexão significativo para o desenvolvimento da Análise Matemática e da ciência brasileira em geral foi a Reforma Universitária de 1968. Essa reforma, embora controversa em muitos aspectos, teve um impacto profundo na estrutura acadêmica, promovendo a departamentalização e a criação de institutos de pesquisa dentro das universidades. Mais importante, ela impulsionou a expansão e a formalização dos programas de pós-graduação, com o apoio de agências de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em junho de 1974 ocorre na UNICAMP o Simpósio de Análise Funcional que de acordo com Toledo foi o embrião dos Seminários Brasileiros de Análise que se iniciaram em 1975, no IMPA, sob a coordenação dos Professores Chain, Nowosad e Djairo que se mantiveram na coordenação até o 21o SBA. O objetivo era reunir os pesquisadores em Análise duas vezes por ano num evento que teriam um espaço para apresentação de conferências (de 25 a 50 minutos) e comunicações (de 15 minutos). Os SBA surgiram como uma estratégia de intercâmbio científico para mitigar o isolamento de pesquisadores e grupos menores fora dos grandes eixos. Diferente de congressos formais, os seminários possuíam um caráter de “trabalho em andamento”, focando na discussão de pesquisas ainda não finalizadas. O objetivo central era permitir que pesquisadores conhecessem as investigações de seus colegas em tempo real, promovendo parcerias e colaborações. Além disso o SBA não deve ser confundido com um “Congresso”. As atas dos trabalhos apresentados não eram consideradas publicações definitivas, o que encorajava a exposição de ideias inovadoras e críticas construtivas.
A partir do 22o SBA entram em cena os professores Luiz Adauto da Justa Medeiros (UFRJ) e Dicesar Lass Fernandes (UNICAMP) e outros matemáticos começam a trabalhar na organização dos SBA.
A partir da década de 1970, houve um crescimento exponencial no número de cursos de mestrado e doutorado em matemática, muitos deles com forte ênfase em Análise. Universidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outras regiões começaram a estabelecer seus próprios centros de pesquisa e formação, atraindo estudantes e consolidando grupos de pesquisa. A maior disponibilidade de bolsas de estudo e a possibilidade de realizar doutorados no Brasil, sem a necessidade de intercâmbio internacional em todos os casos, democratizaram o acesso à pesquisa e aceleraram a formação de um corpo docente e de pesquisadores qualificados. Esse período marcou a transição de uma fase de pioneirismo para uma de consolidação institucional, onde a Análise Matemática brasileira começou a ganhar projeção internacional.
O sucesso da Análise Matemática no Brasil é inseparável das contribuições de matemáticos que dedicaram suas vidas à pesquisa e à formação de novas gerações. Quatro figuras se destacam por seu impacto duradouro: Chaim Samuel Hönig, Leopoldo Nachbin, Nelson Onuchic e Pedro Nowosad. Eles estabeleceram as bases para que a Análise Matemática brasileira pudesse dialogar em pé de igualdade com os centros de pesquisa mais avançados do mundo. Hoje, o Brasil possui uma comunidade de Análise Matemática madura, com grupos de pesquisa ativos em diversas subáreas e uma produção científica consistente. O legado desses pioneiros continua a inspirar e a guiar o desenvolvimento futuro da matemática no país, garantindo que a Análise Matemática brasileira permaneça na vanguarda da pesquisa global.
Chaim Samuel Hönig (1926-2018) – Pioneiro da Análise Funcional moderna no Brasil. Catedrático da USP, sua produção científica centrou-se em equações diferenciais ordinárias em espaços de Banach, teoria da integração e integrais de Stieltjes. Foi o mentor de uma vasta linhagem de pesquisadores, consolidando o rigor analítico e a formação de quadros docentes em diversas universidades brasileiras.
Leopoldo Nachbin (1922-1993) – Matemático de maior projeção internacional do período. Com doutorado em Chicago, atuou no IMPA e na UFRJ. Notabilizou-se por contribuições seminais em espaços de funções holomorfas, teoria da aproximação e topologia, atuando como o principal elo diplomático e científico entre a matemática brasileira e os grandes centros globais (como Rochester e Chicago).
Nelson Onuchic (1926-1999) – Referência em Equações Diferenciais Ordinárias (EDO). Doutor pela Brown University, liderou a interiorização da excelência matemática na USP-São Carlos e na UFSCar. Sua pesquisa em estabilidade de sistemas dinâmicos, equações diferenciais funcionais e teoria assintótica estabeleceu um polo de pesquisa de renome mundial no interior paulista.
Pedro Nowosad (1934-2024) – Peça-chave na estruturação da Análise no IMPA. Doutor por Chicago, especializou-se em Teoria Espectral, Teoria de Operadores e Equações Integrais, com forte interface em física matemática. Foi fundamental na formação dos primeiros doutores do instituto, elevando o patamar de profundidade analítica e rigor metodológico da instituição.
A trajetória da Análise Matemática no Brasil é uma narrativa de superação e crescimento. De um cenário de poucas oportunidades e recursos limitados, o campo evoluiu para se tornar uma área de pesquisa vibrante e produtiva, com reconhecimento internacional. A criação de instituições como o IMPA, a realização dos Colóquios Brasileiros de Matemática e a expansão dos programas de pós-graduação, especialmente após a Reforma de 1968, foram pilares fundamentais para essa transformação.
A tese de José do Carmo Toledo captura precisamente esse momento de transformação. Seu trabalho não é meramente descritivo — é uma arqueologia do extraordinário: como um Brasil que começou tardio e de forma dispersa conseguiu elevar a Análise Funcional e suas aplicações a um patamar que hoje a distingue em toda a América Latina.
A Análise Matemática brasileira não é simplesmente um caso de sucesso a celebrar. É um laboratório vivo de como ciência genuína emerge quando há vontade coletiva, recursos estratégicos e tempo suficiente para que sementes germinem.
Bibliografia: Toledo, José do Carmo: Uma história do processo de institucionalização da área da Análise Matemática no Brasil. Dissertação de Doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. 2008
COLUNA PROGRAMA DE MENTORIA PARA MULHERES – ELAS EM MOVIMENTO
Nesta edição, temos a contribuição de Rozane Turchiello, Professora da UTFPR – campus de Ponta Grossa e coordenadora da área da Física do Programa de Mentorias para Mulheres na área de STEM
Por Valéria Neves Domingos Cavalcanti
A problemática de gênero nos departamento de Física das universidades públicas
Em 2013, realizou-se no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, a I Conferência Brasileira de Mulheres na Física, promovida pela Comissão de Gênero da Sociedade Brasileira de Física (SBF), com os temas: Carreira e família; Emprego, bolsas e mercado de trabalho; Como atrair meninas para a Física; e Vida profissional – dificuldades. Durante o evento, apresentei uma pesquisa que mostrava o panorama da relação de gênero nos departamentos de Física das principais universidades federais e estaduais do Estado do Paraná. As universidades pesquisadas foram: Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – universidade a qual pertenço, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Os resultados do levantamento da participação feminina nos departamentos de Física dessas instituições mostraram índices extremamente baixos, variando de 7 a 30% do quadro total de professores efetivos.
A pergunta é: o que mudou nesse cenário, passados 13 anos? A resposta é desanimadora, pois os índices continuam extremamente baixos. Em nova análise no início de 2026, a pesquisa foi refeita e não foram observadas mudanças significativas em relação à presença de mulheres nos departamentos de Física das universidades pesquisadas. Os índices de representatividade feminina continuam não ultrapassando 30% do quadro total de professores efetivos.
Podemos extrapolar a análise para fora do Estado do Paraná e olhar para a participação feminina nos departamentos de Física de duas universidades do estado de São Paulo: IF – USP e IF – UNICAMP. Será que essas universidades apresentam índices de representatividade feminina mais elevados? Os resultados da análise nos diferentes departamentos de Física do IF – USP mostraram um índice de participação feminina que varia de 15 a 31%, dependendo do departamento. Já na UNICAMP os dados da participação feminina são mais alarmantes: dos quatro departamentos analisados, três apresentam participação feminina entre 6 a 8% e somente um departamento com 35%. Atualmente, todas as chefias dos departamentos de Física da UNICAMP são ocupadas por representantes masculinos, professores, sendo que a participação feminina fica atribuída às secretárias dos departamentos. Outra pergunta que podemos fazer é como eram compostas as bancas dos concursos para esses cargos? Eram majoritariamente compostas por professores homens? Certamente, a resposta é sim.
Quais são as possíveis causas para esse cenário na área da Física? Um cenário que não se repete com a mesma intensidade em áreas como a Matemática e Química. Em que período da vida escolar as ações devem ser intensificadas para reverter esse quadro? Diante desse contexto, é imprescindível que se estabeleçam políticas de incentivo para aumentar a participação feminina nos departamentos de Física das universidades públicas. Um conjunto de ações torna-se necessário para que o quadro atual seja revertido ou, ao menos, melhorado. Essas ações podem ser classificadas em três níveis: graduação, pós-graduação e atuação profissional (acadêmico/científico). No nível de graduação podemos citar: a realização de campanhas e palestras de incentivo ao ingresso de meninas nos cursos de graduação em Física; a criação de programas de mentoria ao longo do curso, desenvolvidos preferencialmente por professoras dos departamentos de Física; a concessão de bolsas de incentivo à permanência ao longo do curso de graduação. No nível de pós-graduação e atuação profissional (acadêmico/científico) podemos citar: o combate ao efeito tesoura (disparidade de gênero que aumenta com a progressão da carreira); o incentivo à participação em eventos, com alocação de recursos para infraestrutura, pagos pelas agências de fomento, como, por exemplo, espaços kids; o estabelecimento de parcerias com agências de fomento para a elaboração de editais de financiamento à pesquisa conduzida por professoras-pesquisadoras; a continuidade da realização de conferências específicas para mulheres na Física, para que seja possível avaliar os avanços obtidos em relação às políticas de incentivo; e a criação de programas de mentoria para mulheres, a exemplo do que vem sendo realizado pelo Programa de Mentoria para Mulheres da SBM, SBF e SBQ. Embora grande parte dessas ações já esteja sendo desenvolvidas em nível nacional, é importante que existam grupos de trabalho voltados à problemática de gênero na área da Física em nível regional, para que a atuação seja mais efetiva, principalmente junto às agências estaduais de fomento à pesquisa.
Como exemplos pontuais da representatividade feminina na área da Física, podemos citar o fato do IF – USP ter, pela primeira vez, sua diretoria conduzida por uma professora da área, a Profa. Dra. Kaline Rabelo Coutinho (gestão 2023-2027). Outro exemplo é o da Profa. Dra. Marcia Barbosa, atual reitora da UFRGS e uma das idealizadoras do Programa de Mentoria para Mulheres da SBF, SBM e atualmente com a participação da SBQ. Ou seja, os exemplos de representatividade feminina na Física são poucos, mas existem.
É importante ressaltar que o Conselho da SBF instituiu, em 2003, a Comissão de Relações de Gênero (CRG), com o objetivo de levantar dados e estabelecer ações no sentido de resolver possíveis problemas de relações de gênero no âmbito da Física. Posteriormente, em 2015, instituiu o Grupo de Trabalho sobre Questões de Gênero (GTG), em substituição à CRG. Atualmente, a SBF possui a Comissão de Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI), criada em 2021, para tratar de assuntos relacionados à promoção da justiça, da diversidade e da inclusão, bem como a garantia da equidade e dos direitos humanos. A pergunta final que permanece é: essas ações foram efetivas ao longo do tempo? Devemos elaborar novas estratégias? Diante do atual cenário, a resposta é que novas e imediatas ações devem ser tomadas.
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