EDITORIAL

Olá, queridas e queridos leitores do nosso querido Noticiário Eletrônico da SBM
Agosto marca um momento de renovação e continuidade para a nossa comunidade matemática. Neste mês, celebramos a posse da nova diretoria da SBM e damos as boas-vindas ao grupo de secretárias e secretários regionais que passam a integrar o comitê editorial do nosso noticiário. Registramos também nosso agradecimento a todas e todos que concluíram seus mandatos, reconhecendo o trabalho, a dedicação e o compromisso que contribuíram de forma significativa para fortalecer a integração e a atuação da Sociedade.
Secretárias e Secretários Regionais da SBM
Queremos dar as boas-vindas às novas secretárias e aos novos secretários regionais da Sociedade Brasileira de Matemática, que assumem a partir de agosto de 2025 as regionais Minas Gerais e Centro-Oeste, São Paulo e Sul.
Agradecemos imensamente a colaboração, o trabalho e a dedicação dos(as) professores(as) que encerram seus mandatos após dois anos de serviço à nossa sociedade:
- José Nazareno Vieira Gomes (UFSCar) – Região São Paulo
- Marcela Duarte Ferrari (UEM) – Região Sul
- Vinícius de Carvalho Rispoli (UnB) – Região Minas Gerais e Centro-Oeste
Também registramos nosso agradecimento aos colegas que permanecem conosco neste novo biênio (01/08/2025 – 31/07/2027):
- Região Norte: João Rodrigues dos Santos Júnior (UFPA)
- Região Nordeste: Damião J. Araújo (UFPB)
- Região Rio de Janeiro e Espírito Santo: Juliana Fernandes da Silva Pimentel (UFRJ)
Lembramos que as secretárias e os secretários regionais também integram o corpo editorial do Noticiário Eletrônico da SBM, desempenhando papel essencial na articulação da comunidade matemática em todo o país.
Novas secretarias regionais
Região Minas Gerais e Centro-Oeste – Luciana Aparecida Elias (UFJ)

A Professora Luciana Aparecida Elias é Professora Titular da Universidade Federal de Jataí (UFJ). Graduada em Matemática (Bacharelado) pela Universidade Federal de Goiás (UFG), onde também concluiu o mestrado em Matemática (Geometria), obteve o doutorado em Matemática Aplicada/Física Matemática pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É membra da Comissão de Gênero e Diversidade da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), além de integrar os coletivos Matemáticas Negras e Negres na Matemática. Entusiasta da coletividade e dos processos de aquilombamento, tem se dedicado a fortalecer espaços de inclusão e diversidade no meio acadêmico.
Região São Paulo – Paulo Leandro Dattori da Silva (USP)

O Professor Paulo Leandro Dattori da Silva é Professor Associado 5.3 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP). É licenciado em Matemática pela UNESP/Presidente Prudente (1998). Obteve o título de Mestre (2001) e de Doutor em Matemática (2004) pelo Programa de Pós-Graduação em Matemática da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Conquistou o título de Livre-Docente pelo ICMC-USP (2012) e realizou estágios de pós-doutorado na UFSCar e na Florida International University (Miami, EUA).
Tem ampla atuação em gestão acadêmica: foi Chefe do Departamento de Matemática, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Matemática (atualmente é Vice-Coordenador) e Vice-Coordenador do ProfMat. É assessor colaborador da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, nível 1D. Atualmente, coordena um projeto de colaboração bilateral Brasil-Bélgica, com financiamento FAPESP-FWO. Sua pesquisa concentra-se em Equações Diferenciais Parciais, especialmente em problemas relacionados a propriedades (semi)globais de estruturas involutivas.
Região Sul – Márcio Rostirolla Adames (UTFPR)

Márcio Rostirolla Adames é doutor em Matemática pela Leibniz Universität Hannover (2012, Alemanha) e professor da UTFPR, em Curitiba/PR, desde 2013. Tem interesse em Análise Geométrica e em aplicações da Matemática na Física e na Computação, além de atuar em divulgação e ensino de Matemática. Foi coordenador do ProfMat na UTFPR-CT (2015–2019 e 2025–atual) e representante docente na Comissão Acadêmica Nacional do programa (2020–2022).
Maria Aparecida Soares Ruas (1947–2025): uma vida dedicada à Matemática e às pessoas
Por Nivaldo Grulha

Entre tantos adjetivos possíveis para descrever a professora Maria Aparecida Soares Ruas, carinhosamente chamada de Cidinha, talvez “singular” seja o mais adequado. Uma cientista brilhante, professora dedicada, orientadora generosa e incansável incentivadora — verdadeiramente singular.
Mas não se tratava de uma singularidade isolada. Cidinha entrelaçou caminhos: entre teorias, ideias e, sobretudo, entre pessoas. Era presença constante e atenta. Em congressos, sua mão se erguia com leveza para formular perguntas certeiras, capazes de abrir novos ângulos de reflexão e iluminar aspectos que poucos haviam notado.
Há encontros que nos moldam a ponto de se tornarem parte do que somos. Tive a honra de ser aluno da professora Cidinha na graduação, em uma disciplina de Topologia, e mais tarde seu orientando de doutorado. Com ela aprendi que pensar é também sentir, e que fazer ciência é, em grande medida, um gesto de cuidado. Esse cuidado ultrapassava os limites da pesquisa. Ela se interessava por nossas vidas com a mesma seriedade com que discutia equações, artigos e resultados. Sua orientação não era apenas acadêmica — era também humana.
Cidinha faleceu em 30 de junho de 2025, aos 77 anos. Membra honorária da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e integrante da sua Diretoria, ela ajudou a moldar a instituição com inteligência, sensibilidade e compromisso, sendo também uma das membra fundadoras da SBM.
Nascida em Lins (SP), foi uma das pioneiras na consolidação da pesquisa em Teoria das Singularidades no Brasil. Sua trajetória se entrelaça ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP), em São Carlos, onde se tornou professora emérita. Ali, formou gerações de matemáticos e matemáticas, ocupando cargos de liderança como chefe do Departamento de Matemática, presidente da Comissão de Pós-Graduação (em duas gestões) e vice-diretora.
Suas contribuições científicas foram vastas e decisivas. Autora de mais de 80 artigos internacionais e coautora de cinco livros, tornou-se referência mundial em Teoria das Singularidades e em suas aplicações à geometria diferencial, à topologia e à geometria real e complexa.
Em seu currículo Lattes, a professora Cidinha destacou cinco artigos que considerava particularmente significativos. Esses trabalhos exerceram um impacto profundo na matemática, especialmente nos campos da teoria das singularidades, geometria e topologia. Conforme observado em [1], tais publicações representam marcos importantes da contribuição da professora Cidinha para a área.
No artigo de Rieger e Ruas [2], encontramos uma contribuição seminal para a classificação de germes A-simples de aplicações Kn › K2. O estudo sistematizou classes de equivalência A e sua relação com órbitas de equivalência K, tanto no contexto real quanto complexo, incluindo resultados importantes sobre a modalidade mínima de certas órbitas finitamente determinadas.
O trabalho de Mochida, Romero-Fuster e Ruas [3] introduziu uma abordagem de contato para estudar superfícies em R4, caracterizando pontos parabólicos e pontos de inflexão. Demonstrou-se que, em embutimentos genéricos, as curvas de pontos parabólicos apresentam auto-interseções transversais, enquanto os pontos de inflexão surgem precisamente nesses cruzamentos, revelando sutilezas geométricas significativas.
Em Garcia, Mochida, Romero-Fuster e Ruas [4], a relação entre pontos de inflexão e a topologia de superfícies compactas orientáveis em R4 foi explorada. O estudo estabeleceu uma desigualdade precisa N > 2|x(m)| para o número de pontos de inflexão N, ligando diretamente a geometria local à característica de Euler da superfície.
O artigo de Rieger e Ruas [5] abordou deformações M de germes A-simples de Rn em Rp, com n > p, ampliando o entendimento sobre a estabilidade dessas deformações sob mudanças dimensionais e fornecendo técnicas valiosas para o estudo de equivalência A em famílias paramétricas. Por fim, Nishimura, Oset Sinha, Ruas e Wik Atique [6] investigaram campos vetoriais levantáveis sobre multigermes de corank um. O trabalho apresentou um método sistemático para construir tais campos em classes essenciais de multigermes, estabelecendo conexões importantes com problemas clássicos e contemporâneos da geometria singular.
Esses cinco artigos, além de demonstrarem rigor matemático excepcional, refletem a visão de Cidinha de integrar teoria e aplicação, e de inspirar novas gerações de matemáticos e matemáticas. Formadora incansável, orientou dezenas de estudantes de iniciação científica, 11 mestres, 23 doutores e 21 pós-doutores, muitos deles hoje em posições de destaque no Brasil e no exterior.
Sua atuação se estendeu à gestão e à construção de comunidades científicas. Idealizou, em 1990, o International Workshop on Real and Complex Singularities, hoje um dos principais encontros mundiais da área, e teve papel decisivo na criação e consolidação de vários outros encontros importantes na área. Atuou também em comitês nacionais de fomento, como CNPq e CAPES, contribuindo para o fortalecimento da matemática brasileira.
Por essa trajetória, recebeu distinções de grande relevância: a insígnia da Ordem Nacional do Mérito Científico (2009); a eleição como membra da Academia Brasileira de Ciências e, em 2024, da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Em janeiro de 2025, foi laureada com o Prêmio Latino-Americano de Liderança Matemática, concedido pelo IMSA (Miami). A honraria, entregue postumamente, foi recebida por sua filha durante o evento.
Ao mesmo tempo, sua presença era marcada por humildade e generosidade. Como professora e orientadora, transformava a ciência em um gesto profundamente humano — feito de rigor, mas também de cuidado. A matemática brasileira perde uma referência; a SBM, uma colaboradora essencial; e todos nós, uma presença insubstituível.
References
[1] Grulha Júnior, N. de G.: A perspective of Cidinha’s research works. Special Issue Dedicated to Maria Aparecida Soares Ruas. Volume 18, pages 1143–1153 (2024)
[2] Rieger, J.H., Ruas, M.A.S.: Classification of A-simple germs Kn → K2 . Compos. Math. 79(1), 99–108 (1991)
[3] Mochida, D., Romero-Fuster, M.C., Ruas, M.A.S.: The geometry of surfaces in 4- space from a contact viewpoint. Geom. Dedic. 54(3), 323–332 (1995)
[4] Garcia, R.A., Mochida, D., Romero-Fuster, M.C., Ruas, M.A.S.: Inflection points and topology of surfaces in 4-space. Trans. Am. Math. Soc. 352, 3029–3043 (2000)
[5] Rieger, J.H., Ruas, M.A.S.: M-deformations of A-simple Σn−p+1 -germs from Rn to Rp , n ≥ p. Proc. Camb. Philos. Soc. 139, 333–349 (2005)
[6] Nishimura, T., Oset Sinha, R., Ruas, M.A.S., Wik Atique, R.: Liftable vector fields over corank one multigerms. Math. Ann. 366(1–2), 61–573 (2016)
Jovem talento une Olimpíadas de Matemática e inclusão social

Em um contexto marcado pelo contínuo avanço da matemática e pelo surgimento precoce de novos talentos, a trajetória de Isac Vinícius Xavier chama atenção não apenas pela precocidade dos feitos, mas também pela força humana e social que a acompanha. Aos 14 anos, Isac é visto como um jovem em ascensão no cenário olímpico brasileiro, reunindo conquistas que despertam a admiração de professores e organizadores.
Nascido em Maceió, Isac enfrentou aos 8 anos o diagnóstico de uma doença mitocondrial rara que comprometeu significativamente sua visão. Para muitos, esse seria o início de um caminho limitado. Para ele, foi um ponto de virada: a mente passou a enxergar ainda mais longe. Pouco depois, seu talento já despontava nas olimpíadas científicas. Desde então, vem acumulando conquistas expressivas: dois ouros na OBMEP, desempenho perfeito na Olimpíada de Raciocínio Lógico, uma coleção de medalhas de ouro na Canguru de Matemática e quatro ouros na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, entre outras. Isac vem se destacando pelas soluções criativas e pela habilidade em transitar por diferentes áreas da matemática — da combinatória à lógica formal.
Mas talvez o aspecto mais marcante de sua trajetória não seja apenas o brilho acadêmico, e sim a consciência de como colocá-lo a serviço dos outros. Em 2023, Isac fundou o projeto social A+, que oferece mentorias, oficinas e materiais acessíveis para crianças e jovens de escolas públicas de todo o Brasil, com especial atenção às da periferia. Este ano, conseguiu inscrever dezenas de alunos da rede municipal de um município vizinho à capital alagoana, democratizando o acesso ao universo olímpico e inspirando novos talentos em regiões frequentemente esquecidas.
“Não basta eu conquistar uma medalha se ninguém ao meu redor acreditar que também é possível”, afirmou em entrevista recente. A frase revela a maturidade de alguém que já enxerga o conhecimento como ferramenta de
transformação coletiva. A trajetória de Isac soma-se a um movimento mais amplo de valorização de jovens talentos de origem popular, cada vez mais presentes em debates sobre oportunidades internacionais. O desafio que se coloca é como o Brasil pode criar condições para que trajetórias como a dele se desenvolvam plenamente.
Mais do que medalhas, sua caminhada mostra como a matemática pode unir pessoas, abrir caminhos e criar oportunidades. Ao reconhecê-lo, celebramos também a riqueza da matemática brasileira, que floresce em diferentes realidades e ganha força quando apoiada.
Para saber mais sobre o projeto A+ e a trajetória de Isac, acesse: @isacvinii | @projetoamais
NOTÍCIAS

Do balé à Topologia Diferencial: a trajetória de Suely Druck, nova associada honorária da SBM
Dos movimentos da dança clássica às complexidades da matemática, Suely Druck mostra que talento e dedicação não têm limites e podem moldar o futuro da matemática no Brasil
Filha do Rio de Janeiro e apaixonada por matemática desde a juventude, Suely Druck teve no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) um marco definitivo em sua formação. Foi ali que, três anos depois de concluir um curso de Licenciatura, ela redescobriu a matemática e consolidou o caminho que seguiria como pesquisadora e professora. Duas décadas depois, na mesma instituição onde viveu este momento definidor, a carioca recebeu um reconhecimento que sintetiza sua contribuição à comunidade científica: foi eleita associada honorária da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).

PROFMAT 2026: inscrições abertas até 30 de setembro deste ano
Programa coordenado pela SBM oferece 1.797 vagas distribuídas nas cinco regiões brasileiras
Estão abertas as inscrições para o Exame Nacional de Acesso ao Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), com ingresso para 2026. Coordenado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), com apoio da CAPES, o PROFMAT se direciona especialmente a professores de Matemática em exercício na Educação Básica, que busquem aprimoramento em sua formação profissional.

Uma vida pela Matemática: Walcy Santos é eleita associada honorária da SBM
Reconhecida por sua atuação em pesquisa, formação de professores e gestão acadêmica, Walcy Santos tem trajetória marcada pelo compromisso com a ciência, a educação e a comunidade matemática
Walcy Santos é uma das figuras mais destacadas da matemática brasileira. Docente titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora na área de Geometria e Topologia e referência na formação de professores, ela construiu uma carreira marcada pelo compromisso com a ciência, a educação e a comunidade acadêmica. Durante o 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado de 28 de julho a 1º de agosto no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, esse percurso foi reconhecido com a sua nomeação como nova associada honorária da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).

SBM marca presença em congresso em Miami e acompanha homenagem a pesquisadora brasileira
A Presidente Jaqueline Mesquita representou a Sociedade em articulações científicas durante o MCA 2025 e prestou tributo à professora Maria Aparecida Soares Ruas, a Cidinha, falecida em junho
A professora Maria Aparecida Soares Ruas, carinhosamente conhecida como Cidinha, foi homenageada com o Americas Prize durante a cerimônia de encerramento do Mathematical Congress of the Americas (MCA) 2025, realizada no fim de julho, em Miami. A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) esteve presente no evento por meio da Presidente Jaqueline Mesquita, que acompanhou de perto a premiação.

Novo ciclo na SBM: gestão eleita toma posse com foco na manutenção de ações voltadas à diversidade e à cooperação internacional
Cerimônia de posse ocorreu durante o 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, no IMPA, e marca a continuidade da presidência de Jaqueline Mesquita à frente da Sociedade
A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) iniciou em agosto um novo ciclo de gestão, com a posse oficial dos novos membros eleitos para seus Órgãos Dirigentes até 2027. A cerimônia de apresentação foi realizada durante o 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), e reuniu representantes da comunidade acadêmica de todas as regiões do país.

Prêmio SBM 2025: conheça José Edson Sampaio, o pesquisador vencedor da honraria
Aos 37 anos, o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) é autor de artigo inovador que propõe uma nova homologia para estudar fenômenos métricos
Concedido a cada dois anos pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), o Prêmio SBM distingue o melhor artigo original de pesquisa publicado recentemente por um jovem pesquisador residente no país. A avaliação leva em conta critérios como originalidade, relevância, profundidade e potencial de impacto na área de atuação. A entrega ocorre tradicionalmente durante o Colóquio Brasileiro de Matemática — e, em 2025, a honraria foi concedida a José Edson Sampaio, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC).
CRONOGRAMA DE EVENTOS
2025
• Workshop da SBM de Mulheres na Matemática – Maceió/AL – 01 a 03 de outubro de 2025
• 6º Colóquio de Matemática da Região Sul – UFSM, Santa Maria/RS – 06 a 10 de outubro de 2025
• II Encontro Nacional do PROFMAT – UFMS, Campo Grande/MS – 15 a 18 de outubro de 2025
• 1º Encontro Nacional em Popularização da Matemática – UNICAMP, Campinas/SP – 03 a 05 de dezembro de 2025
2026
• XII Bienal da Sociedade Brasileira de Matemática – UFRN, Natal/RN – junho de 2026
• 5º Colóquio de Matemática da Região Sudeste – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ – 31 de agosto a 04 de setembro de 2026
• 7º Colóquio de Matemática da Região Nordeste – UFPE, Recife/PE – 23 a 27 de novembro de 2026
PROFMAT: PARA ALÉM DAS CONTAS
BNCC Computação: uma rica fonte de temas para o PROFMAT
Por Fábio Xavier Penna (UNIRIO)
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), publicada pelo Ministério da Educação, normatiza um conjunto de aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas pelos estudantes ao longo da Educação Básica, composta pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Essas etapas visam ao desenvolvimento integral do estudante, assegurando uma formação comum para o exercício da cidadania e oferecendo bases para o trabalho e estudos posteriores. No contexto da BNCC, a Computação foi incorporada de forma oficial pelo Parecer CNE/CEB no 2/2022, que estabeleceu normas para sua inclusão como complemento às aprendizagens essenciais, reforçadas pela Resolução CNE/CEB no 1/2022, que definiu conteúdos e habilidades voltados à Educação Digital nas escolas. Uma leitura atenta da BNCC Computação Básica evidencia a relevância do tema no currículo da Educação Básica e pode motivar e direcionar a elaboração de TCC e a criação de recursos educacionais inovadores no Profmat.
A BNCC Computação organiza-se segundo as três etapas da Educação Básica, já citadas acima. No documento, cada uma delas é estruturada por premissas ou competências específicas que orientam o desenvolvimento progressivo do estudante. Na Educação Infantil destacam-se a capacidade de reconhecer padrões, vivenciar diferentes formas de interação mediadas por dispositivos computacionais e testar algoritmos em atividades lúdicas com objetos do ambiente ou com movimentos corporais. No Ensino Fundamental, a BNCC Computação estabelece um conjunto de competências que visam ampliar a compreensão dos estudantes sobre o papel da Computação no mundo contemporâneo. Entre elas, destaca-se a capacidade de reconhecer a Computação como uma área de conhecimento essencial para explicar fenômenos atuais e para formar cidadãos ativos e conscientes, aptos a analisar criticamente os impactos sociais, ambientais, econômicos, científicos e éticos das tecnologias digitais. Já no Ensino Médio, o documento enfatiza competências que ampliam a capacidade dos estudantes de compreender tanto as possibilidades quanto os limites da Computação na resolução de problemas, avaliando a
viabilidade e a eficiência de diferentes soluções em diversos domínios do conhecimento. Em todas as etapas as análises devem respeitar questões éticas e legais, respeitando princípios democráticos e socialmente responsáveis. Seguindo o padrão da BNCC, cada uma dessas etapas apresenta listas de habilidades que os alunos devem desenvolver, acompanhadas de explicações e exemplos genéricos de atividades que podem ser realizadas nas aulas. Essa estrutura em múltiplos níveis garante tanto a coerência entre as etapas da Educação Básica quanto a clareza sobre o que se espera da aprendizagem em Computação, oferecendo subsídios concretos para a prática docente.
Como já destacado em colunas anteriores, as dissertações produzidas no âmbito do Profmat vêm revelando um interesse crescente pelo uso de tecnologias digitais no ensino de matemática, evidenciando uma tendência de modernização e inovação didático-pedagógica em sincronia com o momento de inovação tecnológica. Nesse contexto, a BNCC Computação apresenta-se como uma fonte valiosa de inspiração para a elaboração de recursos educacionais, oferecendo subsídios concretos para que esses trabalhos acadêmicos explorem de forma criativa e fundamentada o potencial das tecnologias digitais no processo de ensino-aprendizagem.
COLUNA ENSINO DA MATEMÁTICA
Cydara Cavedon Ripoll
Hoje escreve nesta coluna Diego Lieban, professor da Licenciatura e do Ensino Médio-Técnico do IFRS-Campus Bento Gonçalves. Diego é muito empolgado com a produção e divulgação de materiais educacionais, levando-os consigo nos Hotéis de Hilbert da OBMEP e nos Simpósios da Associação Nacional dos Professores de Matemática (ANPMat), dos quais é assíduo colaborador.
Brincar e aprender são estágios naturais da vida cotidiana das crianças e adolescentes. Aspectos importantes da matemática podem ser despertados nessas fases do desenvolvimento através de brinquedos ou brincadeiras, jogos ou desafios lógicos. Para tanto, o papel da mediação (do professor, educador ou familiar) e dos recursos utilizados é fundamental.
O uso de manipulativos físicos em aulas de matemática é geralmente motivado por seu apelo representacional na conexão de conceitos concretos e abstratos. Embora também viáveis no Ensino Médio e até Superior, os manipulativos físicos ainda parecem estar mais associados ao Ensino Fundamental por sua natureza de significação mais concreta. Para além da exploração desses diferentes materiais, uma tendência cada vez mais em voga, especialmente por considerar o protagonismo discente, é a produção deles pelo próprio público usuário ou por seus pares. Esta perspectiva ampara-se em duas estratégias metodológicas, a Aprendizagem Baseada em Projetos e a Cultura Maker. Ambas têm como premissa o fato de considerar o interesse inerente de estudantes por aquilo que desejam investigar ou, no caso da Cultura Maker, desenvolver (criar, adaptar, reproduzir,,..) por si próprios. O “aprender fazendo” tem lições indeléveis. Entender essas metodologias como um campo aberto e inesgotável de possibilidades e oportunidades de ensino e aprendizagem de matemática é recomendável para o exercício docente. A despeito da atividade lúdica, transcender o ato de brincar ou jogar para o ato de fazer tais materiais, pode ser igualmente proveitoso do ponto de vista didático. Estudantes podem ser incentivados, por exemplo, a desenhar e construir representações de objetos geométricos 2D e 3D e assim, desenvolverem sua espacialidade ou o reconhecimento de padrões. Isso pode ser feito usando uma variedade de recursos para lidar com situações que envolvam design de projetos e criações de protótipos, inclusive de outros materiais, para entender os efeitos de transformações simples e suas composições. Além de aprimorar as competências de modelagem, essas abordagens com a impressão 3D, corte a laser, ou habilidades manuais podem ser uma boa oportunidade para promover um ambiente de aprendizagem. Passando do brincar para o fazer, professores e estudantes desenvolvem competências que vão além da matemática, como comunicação, criatividade, colaboração e pensamento crítico, os 4C’s para as demandas do século 21.
Um exemplo é o jogo Genis Square (desafio lógico individual baseado em peças de TETRIS). Resolver esse desafio envolve: o Pensamento Geométrico-Espacial, ao tentarmos desvendar uma disposição possível das peças; o Pensamento Combinatório, quando avaliamos as diferentes possíveis combinações dos dados e, portanto, para a configuração inicial do desafio; o Pensamento Probabilístico e o Pensamento Estatístico, ao considerarmos as diferentes distribuições das faces de cada um dos sete dados e suas possíveis incidências. Todas essas oportunidades são ampliadas quando cumprimos com a etapa de reproduzir o material. A ênfase a ser dada é uma escolha didática!

Para saber mais sobre o Movimento Maker ou perspectivas metodológicas considerando os contextos atuais, recomendo: VIA Revista – Movimento Maker; Fabricação Digital; Creative Intelligence: Harnessing the Power to Create, Connect, and Inspire, de Bruce Nussbaum; e 21 lições para o século 21, de Yuval Harari.
COLUNA DIVULGAÇÃO MATEMÁTICA
Ocupar espaços é essencial
Miriam Telichevesky
Dia desses apareceu no meu Instagram um vídeo de “concurseiros” explicando uma questão que dizia algo do tipo (prepare-se porque vem bomba!): “Se a cor preferida de Lara é azul e a da Maria é verde, quem tem amarelo como cor preferida?”
As alternativas eram: “(A) Sara, (B) Joana, (C) Felipe, (D) Gabriel” (faço aqui livre adaptação nos nomes, porque não lembro, mas a ideia da pergunta está mantida). Inocentemente segui assistindo ao vídeo, pois achei que a seguir a pessoa faria uma exposição apresentando argumentos de por que isso a pergunta não fazia sentido algum.
Estava nessa expectativa porque em geral o Instagram me entrega bons conteúdos, já que sigo páginas sérias de divulgação científica. Mas o que aconteceu foi extremamente desesperador. A pessoa RESOLVEU a questão! Para isso, construiu uma argumentação constatando que a cor preferida tinha de cada pessoa (das duas apresentadas) tinha exatamente o mesmo número de letras que o nome da pessoa.
Faço aqui uma pausa para que você, que está lendo este texto, sinta a mesma perplexidade que eu senti. Embora a minha reação a esse tipo de conteúdo costume ser apenas ignorar, o absurdo era tão gigante que desta vez resolvi ler os comentários, achando que de repente encontraria pelo menos algumas pessoas engajadas em dizer que tudo não passava de uma grande distorção da lógica. Mas pasmem: o que constatei é que a maior parte dos comentários tinha como conteúdo “por isso odeio matemática, ela não faz sentido!” .
Então a minha inicial perplexidade se metamorfoseou em indignação, seguida de um forte sentimento de impotência. E a pergunta: de onde vem a ideia de invocar a matemática para “resolver” esse tipo de show de horror?
Notem que sequer estou falando daquele tipo de questão sem única solução, como “qual o próximo número da sequência?”, trato aqui de um uso totalmente descabido de argumentos “lógicos”, e que, de maneira que
considero até beirar ao perigo, as pessoas entendem como sendo o padrão da Matemática. Há, sem dúvida alguma, quem considere interessante manter um pedaço da população longe da compreensão de que, seja lá o que se faz em matemática, ela mantém grande distância deste tipo de “resolução” de questão.
A ignorância de uns é benéfica para outros, sabemos bem disso. Mas tenho forte convicção que nossa comunidade não pensa desta forma! Os espaços formais de ensino têm um papel fundamental nisso, mas realizar ações de divulgação e popularização certamente pode contribuir para que, a médio e longo prazo, esse tipo de associação com a matemática não aconteça mais.
Convoco vocês, colegas, a ocuparem sempre que possível os espaços da divulgação da Matemática. É urgente, e é um longo caminho a ser percorrido! Enquanto não ocuparmos esses espaços, eles continuarão sendo ocupados da maneira errada.
COLUNA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
A Lógica Matemática no Brasil e seus precursores
Sergio Nobre & Carlos Roberto de Moraes
O Brasil tem atualmente muitos trabalhos na área de lógica matemática que merecem menção e foram publicados pelos mais acatados periódicos especializados no mundo. Só para citar um exemplo, o Prof. Dr. Newton Affonso Carneiro da Costa é um dos matemáticos brasileiros mais citados internacionalmente. Como foi possível atingir este patamar?
A lógica passa a ser investigada de modo acadêmico e científico no Brasil apenas no século XX e apresenta um salto qualitativo a partir do final dos anos 50, quando dois centros se destacam: um na Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo, com o Prof. Edison Farah e outro na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, onde um grupo de alunos manifesta um forte interesse pelo assunto.
Uma especial atenção aos pioneiros do “grupo de São Paulo” será dada aqui com a apresentação de uma breve biografia deles. No final da década de 50, há o que é denominado por Leonidas Hegenberg como a “era dos pioneiros”, quando um grupo de estudiosos de lógica e fundamentos da matemática liderados pelo Prof. Edison Farah, do qual fizeram parte Benedito Castrucci, Newton Carneiro Affonso da Costa, Mario Tourasse Teixeira e Leonidas Hegenberg, se reunia em seminários no Departamento de Matemática da Universidade de São Paulo.
Esses professores formaram o núcleo inicial desse grupo de estudos e embora outros estudiosos tenham participado e contribuído com o grupo, podemos considerar os professores citados como os pioneiros desta área de pesquisa.
Benedito Castrucci (1909 -1995)
O Professor Benedito Castrucci foi uma figura importante no cenário acadêmico brasileiro, especialmente na área de Matemática. Nascido no bairro do Brás, em São Paulo, teve uma trajetória acadêmica destacada. Em 1935 obteve o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e em 1939 graduou-se em Matemática pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (FFCL) da USP. Em 1940 foi designado Professor Assistente da Cadeira de Geometria e em 1942 assumiu o cargo de Professor da Cadeira de Geometria Analítica, Projetiva e Descritiva da FFCL da USP.
Apesar de sua atuação principal estar voltada para a geometria, demonstrou interesse pela lógica na década de 1960, indicando uma versatilidade intelectual.
Edison Farah (1915-2006)
O Professor Edison Farah foi um importante matemático brasileiro, nascido em Capivari, São Paulo. Em 1941 graduou-se em Matemática pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. No ano seguinte, foi convidado pelo Prof. Omar Catunda para ser seu Assistente na Cadeira de Análise Matemática. Em 1945, tornou-se Assistente de Análise Superior, trabalhando com o matemático francês André Weil.
Suas principais áreas de interesse eram teoria dos conjuntos, topologia geral e medida e integração. Nestas áreas publicou cerca de 20 artigos de pesquisa, além de vários artigos de divulgação. Foi orientador de vários mestrados e doutorados, e, em particular, foi o responsável pelo encaminhamento dos doutorados dos professores Mario Tourasse Teixeira, Leonidas Hegenberg e Newton da Costa.
Leonidas Helmuth Baebler Hegenberg (1925 – 2012)
O Prof. Leonidas Hegenberg nasceu em Curitiba, no Paraná. Em 1947, ingressou na Faculdade de Filosofia do Instituto Mackenzie que então iniciava suas atividades, onde se graduou em Matemática e Física. Teve uma passagem significativa como professor no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde lecionou por 38 anos, influenciando gerações de engenheiros e cientistas.
No período de 1960 a 1962, recebe uma bolsa para estudar na Universidade da Califórnia (Berkeley), tendo oportunidade de ter contato com Paul Feyerabend, Alfred Tarski, entre outros. A influência de Feyerabend foi importante e permitiu que, de maneira gradual, fosse focando seus estudos em Filosofia da Ciência. Ao voltar ao Brasil, participa dos seminários do grupo liderado pelo Prof. Edison Farah, onde começa a desenvolver uma ideia trazida de Berkeley que vai culminar com sua tese de doutorado, em 1968. Leonidas Hegenberg foi um importante intelectual brasileiro, especialmente reconhecido por sua contribuição à divulgação e ao ensino da lógica e da filosofia da ciência no Brasil.
Mario Tourasse Teixeira (1925-1993)
O Prof. Mario Tourasse Teixeira nasceu na cidade de Recife em Pernambuco. No ano de 1951, ingressou no curso de Matemática da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, concluído em 1954. Nos anos de 1955 a 1956, atuou como Auxiliar de Ensino, sem proventos, da cadeira de Análise Matemática e Análise Superior na Faculdade Nacional de Filosofia.
Entre 1957 e 1959, obteve uma Bolsa de Estudos, concedida pelo Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), com o objetivo de aperfeiçoar-se em Lógica Matemática e Fundamentos de Matemática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, sob a orientação do Prof. Edison Farah.
Em 1958 inicia sua trajetória como docente do curso de Matemática da então recém criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, onde permaneceu por toda sua vida. Nos anos 1960 fez um Estágio de Especialização em Álgebra da Lógica e em Funções Recursivas na Argentina, com os professores Antônio Aniceto Ribeiro Monteiro e Jean Porte.
O Professor Mario Tourasse Teixeira orientou trabalhos de mestrado e doutorado em diversas instituições. Foi considerado um dos grandes nomes da Lógica no Brasil, destacando-se tanto pela produção acadêmica quanto pela atuação como incentivador de colegas e alunos.
Newton Carneiro Affonso da Costa (1929- 2024)
O Professor Newton da Costa nasceu em Curitiba, estado do Paraná. Em 1948, ingressou na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná, onde em 1952 concluiu o curso de Engenharia Civil. No ano de 1956, concluiu o Bacharelado em Matemática e, no ano seguinte, a Licenciatura em Matemática, ambos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Paraná.
Em 1961, obteve seu doutorado em Matemática ao ser aprovado no Concurso para Docência Livre na cadeira de Análise Matemática e Análise Superior, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Paraná e a tese de cátedra “Sistemas Formais Inconsistentes” é um trabalho dos mais relevantes e mais citados dentre todos feitos no Brasil.
Newton da Costa é, sem dúvida, um dos intelectuais brasileiros mais destacados no campo da lógica e da filosofia da ciência, com reconhecimento internacional. Sua trajetória acadêmica e suas contribuições científicas o consolidaram como o maior nome da lógica no Brasil e um dos principais no mundo. No Brasil, em função da influência de Newton da Costa, desenvolveu-se uma forte escola de lógica, inicialmente em São Paulo e Campinas, mas atualmente se estendendo por todo o país.
O Prof. Newton da Costa lecionou na Universidade Federal do Paraná (1957-1967), no Instituto de Matemática, Estatística e Ciências da Computação (IMECC) da UNICAMP (1967-1969), no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP (1970-1981) e no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (1982-1999) e a partir de 1985, foi pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. Nos seus últimos anos, o Prof. Newton da Costa foi professor do Curso de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O Prof. Newton da Costa é um dos primeiros, em nível internacional, a desenvolver trabalhos em lógica paraconsistente, e, graças à relevância e à repercussão de seus trabalhos, se tornou um dos brasileiros mais citados e homenageados em nível nacional e internacional. Newton da Costa foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL) e desde 1979 foi membro do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da UNICAMP.
Além de ser um dos primeiros em nível internacional a desenvolver trabalhos em lógica paraconsistente, ele e seus alunos estudaram várias aplicações de tal lógica a problemas de filosofia, computação e inteligência artificial e medicina. Com a colaboração de Rolando Basim Chuaqui e Irene Mikenberg, construiu a Teoria da Quase-Verdade, e a tem aplicado aos fundamentos da ciência. Trabalhou também com teoria dos modelos e a teoria de Galois generalizada. Em parceria com o Prof. Francisco A. Dória, trabalhou em teoria da complexidade. Newton da Costa não apenas elevou o status da lógica no Brasil, mas também mostrou como a produção acadêmica brasileira pode ser inovadora e relevante em escala global. Sua obra continua a inspirar pesquisadores em diversas áreas do conhecimento.
Se considerarmos apenas aqueles que mais contribuíram na área de lógica, é interessante observar quatro perfis bastante diferentes e relevantes: o Prof. Farah como o mentor e aglutinador do grupo, acolheu os outros três na sua cátedra e permitiu o fortalecimento deste campo de pesquisa no país; o Prof. Leonidas, que embora tenha focado mais a área de filosofia, foi muito importante na divulgação da lógica e da filosofia da ciência no país com as traduções de importantes obras e a publicação de livros para iniciantes nesta área; o Prof. Mario, que sempre incentivou e apoiou todos os trabalhos na área de lógica, inclusive o do prof. Newton, antes de partir para a área de Educação Matemática e, finalmente, o Prof. Newton, o criador de uma escola considerada importante internacionalmente, com pesquisas num novo campo da lógica; através de seus trabalhos e de trabalhos de orientandos abriu novos campos de aplicações da lógica a vários ramos das ciências.
Referência Bibliográfica
MORAES, Carlos Roberto de. Uma história da lógica no Brasil. Dissertação de Doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática. Universidade Estadual Paulista – Instituto de Geociências e Ciências Exatas., Rio Claro, 2007.
COLUNA ENSINO UNIVERSITÁRIO DA MATEMÁTICA
Uma revolução atrás da outra
Carlos Tomei e Ricardo Miranda Martins
Quando computadores se tornaram mais acessíveis, a opinião geral foi unânime: o ensino ia ser alterado radicalmente. Se foi ou não, não ficou claro, mas o que se viu é que os cursos de serviço das universidades não só não anexaram o computador como ferramenta didática, como alteraram muito pouco seus conteúdos para se adequar a novas possibilidades. É verdade, surgiram cursos de programação e análise numérica, ambos fora dos departamentos de matemática habituais, mas cálculo e álgebra linear continuaram a ser essencialmente o que sempre foram.
A continuação da história é interessante. Originalmente, os cursos de análise numérica eram motivados pela eventual necessidade dos alunos escreverem seus próprios programas (para resolver sistemas lineares, por exemplo). A situação atual é invertida: o software disponível tem rotinas com uma qualidade que só um profissional pode alcançar. É o de sempre: a quase totalidade das aplicações já foi automatizada.
Naquelas priscas eras, um amigo de um dos autores, dono de um escritório de arquitetura, estava entusiasmado com as possibilidades. Entre outras maravilhas, ele tinha comprado um CD com detalhes de fabricação de 5000 portas. Perguntado sobre o que fazer com a eventual criatividade de seus clientes, ele foi direto: para inventar uma porta diferente dessas, só sendo Salvador Dali. A situação não é muito diferente quando o assunto é resolver um sistema linear ou projetar um motor elétrico. Quase tudo está resolvido e disponível.
Depois veio a revolução bayesiana e os expert systems. Era inevitável: um médico ia ter um computador em cima da mesa, e os diagnósticos iam se tornar muito melhores. Só que não: é até verdade que os médicos fazem suas consultas aos grandes bancos de dados longe dos clientes. E que muitos clientes já vão ao médico com informação — sensata ou não — colhida de pesquisas na internet. A famosa “second opinion” passou a ser um procedimento frequente em momentos mais delicados, coisa que não se fazia décadas atrás. Em paralelo, estamos todos torcendo pela automatização massiva do processo jurídico.
E agora, que a IA está às portas? Talvez a grande diferença seja o fato econômico: ela não está às portas, ela já invadiu nossa vida, disponível em cada smartphone. Os cursos de cálculo só podem viver sem computadores enquanto as provas forem em sala de aula, com alunos afastados de seus celulares. Claro, não é assim que pesquisadores pensam. Quem faz pesquisa quer e usa tudo. E não se sente especialmente preocupado com a possibilidade de encontrar erros no percurso. Erros já existiam antes, assim como já existiam relatórios e pareceres ruins, inadequados, antes da IA. É uma opinião geral que um terço dos artigos de matemática publicados têm erros substanciais. Aliás, talvez essa seja uma boa notícia que veio com a IA: passamos a nos tornar mais críticos da informação em geral.
Doutorandos, quase pesquisadores reconhecidos, também não hesitam em usar IA, e ninguém se vê criticando sua atitude. Quando traçamos a linha? Alunos de graduação em casa podem usar IA, e em sala não? A IA como gerador de cola universal é muito diferente do que os alunos fazem hoje, com recursos muito mais toscos?
Nós professores parece que estamos mais interessados em gastar tempo descobrindo como proibir alunos de usar ferramentas de IA do que pensando em atividades e exames que forcem os alunos a usarem alguma ferramenta de IA de forma consciente. Já já alguém aparece com a ideia de dar somente provas orais, aliás uma tradição italiana.
Parte do problema é que nossas formas de avaliação não evoluíram muito. Em um de seus livros de análise, Terence Tao sugere que, caso o livro seja usado em um curso, que as provas do curso sejam do tipo “open book”. Alguém de fato faz isso, além do próprio Terence Tao? O fato é que a venda de `blue books’, onde são feitas as provas em muitas universidades americanas, aumentou muito.
E você, leitor, o que acha? Seus alunos têm usado ferramentas de IA? A pergunta é retórica: claro que sim! A questão real é se o uso é consentido ou escondido.