Noticiário #80 – junho/2025

Nivaldo Grulha, Editor-chefe

Olá, querid@s amig@s do Noticiário Eletrônico da Sociedade Brasileira de Matemática!

Junho foi um mês marcante para a comunidade matemática brasileira, com conquistas que merecem celebração e acontecimentos que nos convidam à reflexão.

A matemática brasileira celebra um marco histórico: o Boletim da Sociedade Brasileira de Matemática alcançou, pela primeira vez, o Quartil 1 no SCImago Journal Rank, posicionando-se entre os 25% mais prestigiados periódicos mundiais na área e consolidando sua relevância internacional.

Boletim da SBM atinge Quartil 1 no SJR e consolida qualidade internacional da publicação

Reconhecimento inédito posiciona o principal periódico matemático brasileiro entre os 25% mais prestigiados da área e reforça o papel de liderança da Sociedade Brasileira de Matemática

A matemática brasileira tem um novo motivo para comemorar. Pela primeira vez em sua história, o Boletim da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) – ou Bulletin of the Brazilian Mathematical Society – acaba de atingir o Quartil 1 (Q1) no índice SCImago Journal Rank (SJR).

SBM e SBMAC divulgam resultado do Prêmio Elon Lages Lima 2025

A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) têm a satisfação de anunciar a obra vencedora da 4ª edição do Prêmio Elon Lages Lima. A premiação tem como objetivo valorizar e incentivar a produção bibliográfica nacional em Matemática e suas Aplicações, com foco na formação e na disseminação do conhecimento na área.

O trabalho vencedor é o livro “Um Primeiro Contato com Bases de Gröbner e suas Aplicações”, de autoria de Marcelo Escudeiro Hernandes. A obra foi publicada em 2023 pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). 

Nota de pesar: Maria Aparecida Soares Ruas

A singularidade de uma vida não se mede apenas pelos prêmios ou pelas conquistas acadêmicas, mas por tudo o que ela representa para aqueles que a cercam. É com profundo pesar que a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) informa o falecimento, nesta segunda-feira, 30 de junho, aos 77 anos, da professora Maria Aparecida Soares Ruas. Cidinha, como era carinhosamente conhecida, era membra honorária e integrava a Diretoria desta Sociedade, que ajudou a moldar com inteligência, sensibilidade e compromisso.

Nota de pesar: Martin Tygel

A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) manifesta seu profundo pesar pelo falecimento do professor Martin Tygel, ocorrido no último domingo, 13 de julho, aos 78 anos. Martin deixa uma contribuição relevante para a formação matemática no país, especialmente no campo da Matemática Aplicada.

Natural do antigo Estado da Guanabara, atual Rio de Janeiro, Martim nasceu em 22 de setembro de 1946. Reconhecido por sua atuação comprometida com a educação e a pesquisa, dedicou décadas à docência e à pesquisa.

IV Workshop de Geometria Diferencial reúne pesquisadores e celebra trajetória de José Miguel Veloso

Mesa de abertura marcou o início da programação no auditório do Icen

Entre os dias 1º e 3 de julho de 2025, ocorreu no Instituto de Ciências Exatas e Naturais (Icen) da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, o IV Workshop de Geometria Diferencial. O evento reuniu estudantes de graduação e pós-graduação, professores e pesquisadores do Brasil e do exterior, e teve como destaque uma homenagem aos 75 anos do professor José Miguel Martins Veloso.

Realizado desde 2021, o Workshop tem como proposta divulgar pesquisas na área de Geometria Diferencial. Segundo o professor Adam Silva, coordenador do evento, o encontro busca garantir diversidade na escolha dos palestrantes, considerando diferentes regiões, linhas de pesquisa e também o equilíbrio de gênero. Ele explica que a ideia é trazer tanto pesquisadores seniores quanto recém-doutores, de várias partes do Brasil, que trabalham com diferentes abordagens dentro da geometria. “Isso é importante para dar visibilidade ao que é feito aqui e criar conexões com outros grupos”, explicou.

Palestrantes convidados apresentaram pesquisas em diferentes abordagens da Geometria Diferencial

Ao longo de suas quatro edições, o evento também tem contribuído para consolidar a área de Geometria Diferencial na universidade. “No início, era comum ouvirmos de convidados que não sabiam que havia pesquisadores da área por aqui. Com o tempo, o evento foi se tornando reconhecido na comunidade e alguns pesquisadores até já demonstram interesse em participar, especialmente aqueles que ainda não vieram à UFPA”, relatou Adam.

Entre os participantes, o professor de matemática do Instituto Federal do Pará (IFPA), Wendel dos Santos, compartilhou suas impressões sobre o evento. “Foi uma experiência fantástica. Saio muito motivado, especialmente porque a primeira palestra tratou de questões que marcaram minha dissertação. Foi como revisitar perguntas que deixei em aberto, mas que continuam vivas em mim.”

Apresentação de pôsteres integrou a programação, com trabalhos de estudantes da pós-graduação

Uma trajetória dedicada à matemática e à formação de novas gerações de pesquisadores

A homenagem ao professor José Veloso, organizada por ocasião dos seus 75 anos e de sua aposentadoria, foi
realizada no segundo dia da programação O reconhecimento emocionou colegas, ex-alunos e participantes.

Professor José Miguel Veloso durante a homenagem recebida no segundo dia do workshop

Natural de Abaetetuba, Veloso iniciou os estudos em Belém e seguiu para a graduação em Matemática na Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu o doutorado. Em 1986, retornou ao Pará para atuar na UFPA, onde ocupou diferentes cargos e contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da Faculdade de Matemática, da pós-graduação e da formação de novos docentes e pesquisadores.

O professor Adam destacou a importância de Veloso na qualificação do corpo docente. “Ele foi o primeiro doutor da área de Matemática na UFPA. Quando chegou, trouxe outros doutores e isso permitiu que os professores que já estavam aqui pudessem sair para fazer pós-graduação. Foi um passo decisivo para o fortalecimento do curso. Sempre o admirei muito, não só pelo conhecimento em Matemática, mas pela disponibilidade em orientar, conversar e ajudar a gente a crescer na carreira.”

A professora do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Maria Rosilene Santos, ex-aluna de Veloso e palestrante do evento, relembrou a experiência de ter sido orientada por ele. “O que mais me inspira é esse lado social que o professor tem. Ele acredita em você mesmo quando você ainda não acredita em si. No início da minha trajetória, enfrentei muitas dificuldades, e o apoio dele foi fundamental para que eu conseguisse continuar estudando. Esse olhar humano é algo que aprendi com ele e tento levar hoje para os meus orientandos.”

Professor Veloso ao lado da esposa e de colegas docentes após a cerimônia de homenagem

Durante o evento, Veloso compartilhou reflexões sobre sua trajetória e deixou uma mensagem para quem está começando na área: “As possibilidades de estudar matemática hoje são muito maiores. A UFPA tem grupos fortes e é possível fazer um trabalho relevante aqui. Basta sentir prazer em fazer matemática.”

8º Simpósio Nacional da Formação do Professor de Matemática

Entre os dias 25 a 28 de setembro de 2025 acontecerá o 8º Simpósio Nacional da Formação do Professor de Matemática, em parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e a Universidade de Brasília (UnB), em Brasília – DF. A Associação Nacional dos Professores de Matemática na Educação Básica (ANPMat) tem como missão promover o desenvolvimento da matemática no Brasil, integrando pesquisa, ensino e extensão de maneira ampla e acessível.

Atuando como um espaço de diálogo e troca de experiências, a ANPMat busca unir profissionais da área, professores da educação básica e ensino superior. O Simpósio Nacional da Formação do Professor de Matemática promovido pela ANPMat é realizado desde 2013 e já percorreu diferentes regiões do Brasil.

Agora, o 8º Simpósio Nacional da Formação do Professor de Matemática retorna a Brasília-DF, sendo realizado pela ANPMat, Universidade de Brasília (UnB) e Ministério da Educação (MEC). Este encontro acontecerá de 25 a 28 de setembro de 2025, de quinta-feira a domingo, e reunirá matemáticos, professores e pesquisadores de todas as categorias para discutir e construir caminhos transformadores para a matemática no Brasil.

Neste simpósio, as palestras terão como tema “Dialogar sobre a Matemática para um Brasil Inclusivo: Currículo, Equidade e Neurociência”, refletindo os desafios e as oportunidades de renovar o ensino da matemática no Brasil. Os palestrantes convidados explorarão a construção de um currículo inclusivo, práticas que promovam a equidade racial e as contribuições da neurociência para o ensino e a aprendizagem matemática. Além disso, o evento contará com 17 eixos temáticos, oferecendo espaço para diferentes perspectivas e áreas de atuação no campo da matemática.

Participe! Este é um convite para todos os professores e profissionais de matemática, independentemente de sua área de atuação, a contribuírem para debates enriquecedores e para o fortalecimento da matemática em nosso país.

Maiores detalhes podem ser obtidos no endereço: https://anpmat.org.br/simposio-nacional-8/

Mathematical Congress of the Americas (MCA)

Entre os dias 21 e 25 de julho de 2025, será realizado o Mathematical Congress of the Americas (MCA), sediado pelo Departamento de Matemática da Universidade de Miami. Reconhecido internacionalmente, o MCA é uma iniciativa de grande relevância voltada à valorização e promoção da excelência das realizações matemáticas desenvolvidas nas Américas.

Com foco na construção de uma comunidade matemática cada vez mais integrada, o congresso tem como objetivo fortalecer as conexões entre pesquisadores, estudantes, instituições acadêmicas e sociedades matemáticas de toda a região. A programação contará com 66 sessões especiais, abrangendo diversas áreas do conhecimento, além de palestras voltadas à tecnologia e premiações de destaque no campo da Matemática.

2025
• 9º Encontro Brasil-Portugal IST-IME – IME USP, São Paulo/SP – 04 a 08 de agosto de 2025
• II Semana Nacional de Iniciação Científica da SBM – UFPA, Belém/PA – 18 a 22 de agosto de 2025
• Encontro Conjunto Brasil-México em Matemática – Fortaleza/CE – 08 a 12 de setembro de 2025
• Workshop da SBM de Mulheres na Matemática – Maceió/AL – 01 a 03 de outubro de 2025
• 6º Colóquio de Matemática da Região Sul – UFSM, Santa Maria/RS – 06 a 10 de outubro de 2025
• II Encontro Nacional do PROFMAT – UFMS, Campo Grande/MS – 15 a 18 de outubro de 2025
• 1º Encontro Nacional em Popularização da Matemática – UNICAMP, Campinas/SP – 03 a 05 de dezembro de 2025

2026
• XII Bienal da Sociedade Brasileira de Matemática – UFRN, Natal/RN – junho de 2026
• 5º Colóquio de Matemática da Região Sudeste – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ – 31 de agosto a 04 de setembro de 2026
• 7º Colóquio de Matemática da Região Nordeste – UFPE, Recife/PE – 23 a 27 de novembro de 2026

Percepções da comunidade acadêmica do PROFMAT sobre o ENQ e as Olimpíadas

Por Fábio Xavier Penna (UNIRIO)

Em março deste ano foi publicado o “Panorama do Profmat em 2024: Perfil e Percepções da Comunidade Acadêmica”. O documento é composto por três relatórios nos quais são analisados dados obtidos via formulário Google enviado em novembro/2024 para os discentes, docentes, egressos e coordenadores institucionais do programa. O primeiro relatório faz uma comparação entre as respostas de discentes e egressos; já o segundo aborda as respostas de docentes e coordenadores institucionais; e o terceiro relatório trata das percepções dos quatro grupos pesquisados sobre os seguintes temas específicos do programa: o Exame Nacional de Qualificação (ENQ) e a relação do programa com as Olimpíadas de Matemática. O documento está disponível no site do Profmat e é parte integrante do processo de autoavaliação do programa, que é uma exigência da CAPES e deve nortear estratégias para seu aprimoramento. Neste texto vamos nos ater às informações constantes no terceiro relatório.

O ENQ é uma etapa estruturante do PROFMAT, realizada após a conclusão das disciplinas básicas. De acordo com o relatório, sua importância é percebida de forma significativamente distinta pelos diferentes grupos envolvidos com o programa. Discentes, egressos, professores e coordenadores reconhecem o papel formativo do ENQ para os estudantes, mas a intensidade dessa percepção varia. Em particular, destaca-se uma discrepância entre discentes e egressos: enquanto os primeiros ainda estão submetidos à pressão imediata do curso, em particular pela aprovação no exame e elaboração da dissertação, os segundos, já formados, tendem a valorizá-lo de maneira mais positiva em retrospectiva. Esse contraste sugere que o distanciamento temporal, associado ao reconhecimento dos ganhos formativos e institucionais proporcionados pelo ENQ, influencia diretamente a avaliação de sua relevância. Além disso, os dados indicam que professores e coordenadores atribuem ao ENQ um nível elevado de importância, o que reforça sua legitimidade como instrumento de avaliação e consolidação do percurso formativo. O documento conclui que, tendo em vista as diferenças observadas nas percepções do ENQ, existe a necessidade de aperfeiçoar os processos de comunicação e orientação sobre o exame, sobretudo junto aos discentes. Tornar mais claro o propósito do ENQ dentro da lógica do programa — como etapa não apenas avaliativa, mas integradora dos saberes desenvolvidos nas disciplinas e preparatória para a elaboração da dissertação — pode contribuir para reduzir a ansiedade dos estudantes e aumentar a compreensão sobre sua função estratégica no processo de formação.

A proximidade da 20ª edição da OBMEP em 2025 reacende o debate sobre seu papel estratégico na valorização da Matemática na educação básica e convida à reflexão sobre o impacto de programas como o PROFMAT nesse contexto. Os dados coletados junto aos grupos pesquisados indicam que, após o ingresso no programa, a maioria dos participantes passou a incentivar mais a participação dos alunos em olimpíadas. No entanto, há uma diferença perceptível entre a autoavaliação dos discentes e egressos e a percepção dos docentes do programa: enquanto os primeiros relatam elevado nível de engajamento nesse incentivo, os docentes indicam que essa mobilização é menos evidente. Essa assimetria pode revelar limites na efetividade do incentivo, bem como lacunas de comunicação ou acompanhamento entre o que é proposto em sala de aula e o que se percebe institucionalmente como resultado desse estímulo. Em relação à premiação dos estudantes, as respostas mostram uma percepção moderada de impacto, com egressos atribuindo maior influência do PROFMAT nesse aspecto do que os discentes e docentes. Isso sugere que, embora haja esforços no sentido de promover a participação em competições, os efeitos diretos na conquista de medalhas ainda são percebidos com cautela. Nesse cenário, o documento destaca a importância de se criar ações específicas sobre o tema visando capacitar os professores para o incentivo e a preparação dos estudantes.

Por Cydara Cavedon Ripoll

Esta coluna discutiu tipos de pensamentos que marcam a aprendizagem de matemática ao longo da Educação Básica, focando-se nos seus fundamentos. Propõe-se, agora, uma inflexão:
Que estratégias pedagógicas amparam a abordagem desses pensamentos?

Escrevemos, eu e Letícia Rangel, Doutora pela COPPE (UFRJ) e por mais de 20 anos professora do Colégio de Aplicação da UFRJ, sobre o que consideramos a mais elementar das estratégias pedagógicas: o uso de material concreto.

Materiais concretos são objetos físicos com potencial de dar concretude a conceitos matemáticos essencialmente abstratos, como números, operações, medidas, formas geométricas, relações etc. É a partir do contato visual e tátil com objetos ou com o próprio corpo (como com os dedos das mãos) que a criança tem os primeiros contatos com a matemática. Portanto, são os materiais concretos a primeira representação de entes e do pensamento matemáticos. Seu potencial é reconhecido na literatura e nos documentos curriculares. No ensino e na aprendizagem, o uso de material concreto vai (e precisa ir) muito além do lúdico e divertido, torna a aprendizagem significativa, desenvolve o raciocínio lógico e propicia a compreensão de conceitos abstratos. O êxito do uso do material concreto está diretamente associado à adequada linguagem utilizada por quem faz a interlocução entre o material concreto e a matemática.

Na escola, a aprendizagem da matemática tem início com os números. O material dourado é amplamente conhecido como recurso concreto para promover a aprendizagem do sistema de numeração decimal. Nele, as unidades são representadas por cubinhos; esses, reunidos em barrinhas, formam dezenas e, em placas, formam centenas. Composições de suas diferentes peças oferecem modelos sensoriais à representação numérica, cuja escrita em algarismos exige abstração.

O raciocínio matemático pode ser evidenciado e fundamentado a partir do material concreto. Para isso, é necessário que os estudantes sejam estimulados a explicar, verbalizar o que aprendem na interação com o recurso. Por exemplo, para mostrar que 1⁄2 é maior que 1⁄3, o estudante pode utilizar a sobreposição das peças correspondentes no disco de frações. A escolha das peças evidencia a compreensão das frações e a sobreposição fundamenta a comparação entre elas.

Envolvendo diretamente os estudantes, o uso de material concreto permite ainda proposições que vão além da observação dos conceitos matemáticos. Muito adequado para o trabalho em grupo, esses recursos estimulam a argumentação, o que promove o desenvolvimento e a organização do pensamento matemático. Além disso, oportunizam uma memória visual para conceitos, propriedades e processos generalizadores. Por exemplo, a balança numérica é muito potente para desenvolver o cálculo mental e o raciocínio algébrico inicial.

No estudo de um conceito matemático, uma vez alcançada a compreensão pretendida com o uso do material concreto, os estudantes devem avançar para outras formas de representação que envolvam progressivamente maior abstração. Assim, por exemplo, é esperado que o material dourado seja abandonado e que os estudantes compreendam os números em sua representação decimal. A comparação e a operação com as frações 1⁄2 e 1⁄3 precisam extrapolar os discos de frações para serem realizadas a partir de procedimentos algébricos escritos ou mentais. Um estudante não deve precisar de um objeto concreto para identificar a altura de um cone. Deve sabê-lo fazer a partir de um desenho ou de uma imagem mental.

Ainda que necessário e predominante nos anos iniciais da Educação Básica, o material concreto não deve se restringir a essa etapa escolar. As dobraduras têm potencial para a observação de simetrias; dados e cartas podem ser usados para simular eventos aleatórios e calcular frequências; canudos podem compor poliedros.

Material concreto pode ser lúdico, mas não é brincadeira. É sério e necessário no ensino da matemática. E você, usa material concreto em suas aulas?

Topo da cadeia alimentar

Por Miriam Telichevesky

Estou, há pouco menos de um ano, coordenadora do Comitê de Assessoramento de Divulgação Científica (CA-DC), no CNPq. Uma das batalhas no nosso Comitê, há alguns anos, vinha sendo auxiliar a comunidade acadêmica, de todas as áreas de conhecimento, a ter maior entendimento acerca do que, afinal, deve ser preenchido no campo “Plano de Divulgação Científica”, que não só está presente como também é avaliado em grande parte dos Editais do CNPq, como é o caso do ARC e do Universal.

Conseguimos recentemente dar o primeiro passo nesta direção, quando, durante uma reunião com coordenadores de todos os CAs, dois colegas do CA-DC e eu apresentamos algumas noções iniciais acerca da DC e possíveis formas de avaliar os Planos de DC submetidos nos respectivos editais. No espaço para perguntas e comentários, um dos coordenadores então nos disse: “vocês [da DC] estão no topo da cadeia alimentar da Ciência”.

Trocando mensagens com ele após a reunião, ele me explicou o comentário. Lembrou como a pandemia escancarou a necessidade de comunicarmos ciência ao público leigo, e enfatizou que (possivelmente como uma das consequências do crescimento do negacionismo científico e suas consequências) as agências de fomento — CNPq, CAPES e diversas FAPs — estão exigindo a presença da Divulgação Científica em boa parte de seus editais. Em outras palavras, as ações voltadas para divulgar e popularizar a ciência não só são desejáveis, como têm se tornado obrigatórias, e isso vem sem dúvida alguma do entendimento de seu papel central no desenvolvimento científico do país.

Além desta já comentada exigência do Plano de DC em alguns Editais do CNPq, também é mandatório que os Programas de Pós-graduação stricto sensu incorporem ações de popularização da Ciência nas suas atividades, conforme consta nas novas diretrizes de avaliação, que regem a próxima avaliação quadrienal. Na página 45 do documento completo está descrito: “A popularização da ciência envolve torná-la acessível e compreensível para o público em geral, especialmente para aqueles que não têm formação científica. O objetivo é engajar a sociedade, estimulando o interesse pela ciência e suas descobertas, além de educar sobre seu valor e impacto no cotidiano” (CAPES, 2025).

São então dados exemplos de atividades de Popularização: museus ou outros tipos de exposição, feiras de ciência ou Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, programas de rádio ou podcasts que tragam o conhecimento científico de maneira simples e envolvente.

A existência de ações de popularização da ciência nos PPGs será um dos itens de avaliação em 2029. Somos obrigados, em nossos PPGs na Matemática, a incorporar essas práticas. Existem muitos caminhos, e todos eles passam por pequenas perturbações no funcionamento interno de cada Programa. Mas não temos saída, caso contrário acabaremos sendo engolidos por quem consegue acessar o topo da cadeia alimentar.

Referência:
CAPES. Diretrizes comuns da Avaliação de Permanência dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Brasília, DF: 2025.

Manuel Amoroso da Costa

Por Sérgio Nobre & Rodrigo Rafael Gomes

Na presente edição da Coluna História da Matemática, falaremos de um personagem muito citado quando o assunto é a história da matemática brasileira nas primeiras décadas do século XX: Manuel Amoroso Costa.

Amoroso Costa nasceu em 13 de janeiro de 1885, no Rio de Janeiro. Em 1900, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde formou-se engenheiro civil cinco anos depois. Desde 1890, a Escola Politécnica concedia o grau de bacharel em ciências a quem lograsse aprovação plena em todas as matérias de seus cursos. Assim, tendo cumprido esse requisito, Amoroso Costa obteve o bacharelado em ciências físicas e matemáticas em 1906. Em 1908, casou-se com sua prima Zaira.

Retrato de Amoroso Costa, de autoria desconhecida, feito para a edição de 02/01/1949 do suplemento Ciência para Todos, jornal A Manhã

Após formado, Amoroso Costa trabalhou em comissões de estudos e na fiscalização de diversas obras de engenharia. Paralelamente à atuação como engenheiro, começou a trilhar o percurso acadêmico. Em 1912, dois anos depois de admitido como membro titular da Sociedade Astronômica da França, ingressou na carreira docente da Escola Politécnica como preparador da disciplina aplicações industriais de eletrotécnica. No ano seguinte, foi nomeado livre-docente da cadeira de astronomia e geodesia e também professor extraordinário efetivo da Escola Politécnica.

Em 1916, foi fundada a Sociedade Brasileira de Ciências (denominada Academia Brasileira de Ciências nos anos seguintes), na qual Amoroso Costa secretariou, durante a primeira gestão, a seção de ciências matemáticas. A partir desse ano, passou a publicar com regularidade, especialmente na Revista Didática da Escola Politécnica. Nesse período, também começou a atuar na divulgação científica, escrevendo, a partir de 1919, artigos expositivos sobre ciências e filosofia para jornais do Rio de Janeiro. O primeiro desses artigos, A teoria de Einstein, iniciou a divulgação da teoria da relatividade no Brasil.

Em 1922, depois de um período de estudos na França, Amoroso Costa publicou seu primeiro livro, Introdução à teoria da relatividade, tema sobre o qual realizou, no mesmo ano, uma série de conferências na Escola Politécnica. Em 1924, foi nomeado professor catedrático de trigonometria esférica, astronomia teórica e prática, e geodesia, da Escola Politécnica. No mesmo ano, saiu em licença para um novo período de estudos no exterior, retornando em 1926.

No triênio 1926-1928, com o apoio da Associação Brasileira de Educação, da qual era membro, Amoroso Costa ministrou três cursos abertos ao público. O curso As ideias fundamentais da matemática foi o primeiro deles, em 1926. Os outros dois foram, respectivamente, As geometrias não euclidianas, em 1927, e As geometrias não arquimedianas, no ano seguinte.

Sobre o último tema ele realizou, no primeiro trimestre de 1928, uma série de conferências na Faculdade de Ciências de Paris. Tais conferências foram resultado de um acordo de cooperação acadêmica que Brasil e França celebraram cinco anos antes, com a criação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura. Por intermédio desse acordo, houve uma permuta anual de acadêmicos de diversas áreas entre as duas nações nas décadas de 1920 e 1930, que deram cursos sobre os mais variados assuntos nos países anfitriões.

Cópia do cartaz das conferências realizadas na Universidade de Paris. Arquivo Amoroso Costa, Museu de Astronomia e Ciências Afins

Sob patrocínio do Instituto Franco-Brasileiro, estiveram no Brasil cientistas ilustres, como a física Marie Curie e o matemático Jacques Hadamard. Amoroso Costa é um dos brasileiros que foram à França. Lá, além das palestras na Sorbonne, ele fez uma comunicação sobre cosmologia no seminário de matemática Hadamard.

Pouco se sabe a respeito do conteúdo das conferências sobre matemática não arquimediana que Amoroso Costa realizou. Há um documento em seu arquivo pessoal, hoje pertencente ao Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro, que faz referência a um manuscrito das palestras, mas este desapareceu.

Amoroso Costa retornou ao Brasil no início de junho. Na manhã do dia 3 de dezembro de 1928, juntou-se a outras personalidades em uma comissão de recepção a Alberto Santos Dumont, que regressava ao país. A bordo de um hidroavião, a comissão lançaria uma mensagem acompanhada de um buquê de flores sobre o transatlântico que trazia o inventor brasileiro. A homenagem nunca ocorreu, pois a aeronave caiu na Baía de Guanabara, morrendo todos os seus ocupantes.

Falecido prematuramente aos 43 anos, Amoroso Costa não pôde testemunhar o lançamento de seu segundo livro, As ideias fundamentais da matemática, no início de 1929. Considerada um marco da divulgação científica no Brasil, a obra ganhou duas outras edições em 1971 e 1981, intituladas As idéias fundamentais da matemática e outros ensaios, que, além do conteúdo da primeira edição, contêm algumas das conferências, artigos e ensaios produzidos pelo autor.

Reconhecido em sua época como o mais importante nome da matemática nacional, Manuel Amoroso Costa foi um defensor da prática teórica da matemática, em um período em que ainda não havia no Brasil cursos voltados para a formação de matemáticos. Coube a dois alunos seus da Escola Politécnica, Theodoro Ramos e Lélio Gama, levar adiante seus ideais de renovação dos estudos matemáticos superiores no país. O primeiro teve um importante papel no processo de fundação da Universidade de São Paulo; o segundo foi um dos fundadores e o primeiro diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada.

Obra de Referência:
Gomes, Rodrigo Rafael. Um conhecimento “não tão completo”: sobre os estudos não-arquimedianos de Amoroso Costa. Revista Brasileira de História da Matemática. Vol. 24, n. 48, p. 90-129, 2024.Em busca do encantamento

E o que pensam aqueles a quem servimos?

Por Carlos Tomei e Ricardo Miranda Martins

Nas últimas colunas sugerimos modificações na forma e no conteúdo de algumas de nossas disciplinas.

Talvez seu otimismo faça você acreditar que nossos colegas engenheiros deveriam estar mais presentes na estruturação dos chamados cursos de serviço (disciplinas oferecidas para outros cursos, como engenharias, química, economia, etc). Faça a experiência: pergunte a seus colegas algo sobre o assunto. Essa coluna é fortemente calcada na experiência de seus autores. As críticas que recebemos são canônicas e as respostas formam um pingue-pongue familiar.

Os alunos não aprendem porque não ensinamos bem, e de quebra não motivamos. É um fato, porém, que as ocasionais participações de colegas de outros departamentos em equipes de cursos de serviço nunca levaram a mudanças no material ensinado. Um exemplo interessante que pudesse servir de motivação leva um tempo de aula comparável à apresentação da teoria. Alunos críticos acreditam que superestimamos a relevância da matemática. Quando convidados a apresentar uma aula desse tipo, nossos colegas de outros departamentos se esquivam.

Todos estamos conscientes dos novos tópicos que vão surgindo sem serem adicionados aos conteúdos dos cursos de serviço. Mas esse novo material tem que ser incluído nos programas sem que, entretanto, se elimine nada do que já é ensinado, uma lei de conservação exótica justificada com o emprego de “novos recursos pedagógicos”. Alguns de nós devem ter conhecido ninjas das transparências, que usavam o retroprojetor com velocidade estonteante. A tecnologia acabou com eles, basta apertar “page down” com velocidade comparável.

Para piorar, mesmo as tais “novas” experiências didáticas, realizadas em uma ou outra instituição (mais pelas pessoas do que pela instituição, de fato), são pouco divulgadas para a comunidade. Nem mesmo a inserção sistemática de computadores nos cursos de serviço estimulou os cursos de engenharia a se aproveitar da nova familiaridade dos alunos. A dificuldade de interagir com outros departamentos no front praticamente fica inalterada.

A possibilidade da criação de cursos introdutórios — possivelmente um inteiro semestre introdutório — para alunos que entram com pouco preparo não é levada a sério, ou é mal aproveitada. Um curso introdutório de física não deveria ser a apresentação de vídeos, e um curso de informática deveria poder usar… números, até mesmo indução. O somatório, que no curso de equações diferenciais parece servir para torturar os alunos a encontrar soluções em séries para EDOs, poderia ser muito bem explicado junto do for. É irresistível pensar no potencial pedagógico de tratar de derivação em três contextos diferentes, devidamente sincronizados.

Disciplinas de introdução à engenharia têm múltiplas utilidades. Uma é apresentar aos engenheiros os alunos jovens, antes de serem submetidos à filtragem dos cálculos e físicas, e dar neles um banho de realidade. Outra é dar oportunidade para que esses alunos interajam com um leque maior de experiências científicas, além de outras dinâmicas em sala de aula (projetos vão ser tema de uma outra coluna). Seria ideal para nós que fosse explicitado o mérito de um maior conhecimento teórico para avançar na vida técnica. Esse último objetivo é delirante: existe um certo orgulho na banalização do material. A impressão que fica é que temas ambiciosos — ambientais, sociais — são reduzidos a conteúdos encontrados em revistas de divulgação.

Há razões profundas para essa inércia. Em poucas palavras, a universidade é corporativa e não é desenhada para uma interdisciplinaridade que não se manifeste fora de projetos institucionais. Os departamentos de matemática, bem intencionados, acreditam que estão preparando os graduandos da melhor maneira, e os outros departamentos simplesmente suprem suas necessidades matemáticas criando novos cursos. A instabilidade da situação é evidente.