Evento realizado na última semana reuniu lideranças internacionais da Matemática e consolidou alianças estratégicas

Em viagem à China na última semana, a Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA), Jaqueline Mesquita, participou do 6º BRICS Mathematical Conference, realizado de 12 a 14 de dezembro, na Hainan University, em Haikou. O encontro anual é conduzido pelos países que integram a aliança intergovernamental de nações emergentes, encabeçada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Entre as atividades da agenda, a Presidente também esteve presente nas reuniões sobre a construção do China–Latin America Mathematics Center (CLAMC). Idealizado por Shing-Tung Yau, medalhista Fields em 1982, o centro tem como objetivo estreitar a colaboração científica entre pesquisadores da China, da América Latina e da região do Caribe.
Segundo Jaqueline Mesquita, a proposta do CLAMC é fomentar a interação entre matemáticos das diferentes regiões, com foco especial em matemática aplicada e inteligência artificial. “O objetivo desse centro é justamente estreitar a colaboração entre pesquisadores da China e pesquisadores da América Latina e da região do Caribe. A ideia é que os matemáticos de ambas as regiões possam interagir entre si”, destaca.
O Sul Global em destaque
A iniciativa integra um projeto mais amplo liderado pelo professor Yau, que prevê ainda a criação de centros semelhantes voltados para a África e para a Ásia. Para a Presidente da SBM, a proposta reforça a importância da cooperação entre as nações emergentes. “A ideia é justamente ter toda essa colaboração entre o Sul Global, a cooperação Sul–Sul”, reitera.
Na ocasião, também foi firmado um acordo de cooperação entre a UMALCA e o professor Shing-Tung Yau, responsável pela criação do CLAMC. De acordo com a Presidente, o termo prevê a organização de eventos científicos periódicos de alto nível, alternando entre a América Latina e a China. “Dentro desse acordo feito entre a UMALCA e esse centro, um dos objetivos é justamente organizar eventos periódicos. A ideia é que, em um ano, haja um evento de Matemática na América Latina, com a vinda de pesquisadores chineses, e, no ano seguinte, eventos na China”, explicou.

Um dos principais objetivos do CLAMC é financiar o intercâmbio de pesquisadores da América Latina à China anualmente. Para viabilizar essa iniciativa, está previsto um investimento total de US$ 990 mil, distribuído entre três centros internacionais idealizados pelo professor Shing-Tung Yau, o que corresponde a aproximadamente US$ 330 mil para cada centro. A expectativa é contemplar, anualmente, ao menos 100 pesquisadores latino-americanos, além de estudantes.
Jaqueline Mesquita integra o Scientific Advisory Committee do CLAMC, comitê responsável por analisar as submissões e selecionar os que participarão do programa. “Uma das funções do Scientific Advisory Committee é justamente avaliar as candidaturas que vão chegar. Existe um calendário, e a ideia é analisar cada proposta, realizando a seleção dos pesquisadores e também dos estudantes”, explica.
Nesse contexto, a UMALCA também desempenhará um papel estratégico na consolidação e no direcionamento científico do centro: a entidade será responsável pela indicação dos membros do Scientific Advisory Committee. Além disso, atuará na definição dos institutos de pesquisa que estarão associados ao China–Latin America Mathematics Center.
Relações Brasil-China
A criação do CLAMC dialoga com o papel central da China na educação matemática, tanto na educação básica quanto na pesquisa científica. O país tem se destacado em avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, em inglês), liderando rankings e evidenciando a excelência do ensino de matemática.
A Presidente da SBM relembra que esse estreitamento também se reflete em iniciativas da Sociedade Brasileira de Matemática, como a Olimpíada Brasileira dos Professores de Matemática do Ensino Médio (OPMbr), que promove a imersão de professores brasileiros na educação básica chinesa como parte da premiação dos medalhistas de ouro.

Na pesquisa de ponta, a China ocupa posição de destaque em competições internacionais, como a Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, em inglês), e abriga centros de excelência liderados por medalhistas Fields, a exemplo do Centro Internacional de Matemática da SUSTech, coordenado por Efim Zelmanov, na cidade de Shenzhen. A aproximação com esses centros amplia as oportunidades de formação e cooperação científica para pesquisadores latino-americanos.
“Nesse sentido, a Sociedade Brasileira de Matemática tem trabalhado muito para estreitar ainda mais a relação entre o Brasil e a China. Tanto que vamos sediar, no próximo ano, a terceira edição do Encontro Brasil–China, que acontecerá no Delta do Parnaíba, em agosto de 2026”, reforça Jaqueline Mesquita.
BRICS Mathematical Conference
Criada em 2017, a BRICS Mathematical Conference tem como objetivo fortalecer a colaboração científica e o intercâmbio acadêmico em Matemática entre os países do BRICS – Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Realizada de forma itinerante entre os países membros, a conferência consolidou-se como um dos principais fóruns de cooperação matemática no âmbito do Sul Global.
A conferência inaugural ocorreu em Pequim (China), em agosto de 2017, seguida por edições no Brasil (2018), Rússia (2019) e Índia (2020) – esta última realizada de forma online em razão da pandemia. A quinta edição, que seria sediada pela África do Sul, acabou não sendo realizada, encerrando o primeiro ciclo do evento.
Com o início de um novo circuito de sediamento entre as nações integrantes, a conferência voltou a ser realizada na China, dando origem à 6ª edição, realizada na última semana, na Universidade de Hainan. Com o ciclo itinerante retomado, o Brasil será o próximo país a sediar o evento em 2026.

Ao comentar a consolidação da BRICS Mathematical Conference, Jaqueline Mesquita, destaca o papel fundamental do professor Yuan Jinyun para a realização e a continuidade do evento. Ex-professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e um dos idealizadores da conferência, o professor Yuan foi responsável por iniciar o processo de organização do encontro e por estruturar sua base institucional.
“Ele iniciou esse processo de organização do evento e pensou toda a infraestrutura. Atualmente, a conferência conta com um Core Committee, no qual cada país indica dois membros. Esse comitê tem um papel muito importante, como definir as próximas edições do evento […] O professor Yuan tem um papel central nesse processo e representa o Brasil no comitê junto comigo”, explica Jaqueline.
Atualmente, o Core Committee, ou Comitê Central, atua como instância central de governança da conferência, sendo responsável por decisões estratégicas relacionadas à continuidade do evento, à definição das sedes futuras e ao fortalecimento da cooperação matemática entre os países do BRICS.

Entre as discussões em andamento no âmbito do Core Committee está a proposta de criação de uma BRICS Mathematical Union, uma aliança entre os países do bloco com atuação mais estruturada e permanente.
Segundo a Presidente da SBM, a iniciativa surge da compreensão de que a realização de eventos, embora fundamental, não é suficiente para sustentar uma cooperação de longo prazo. “A gente entende que apenas realizar eventos não é suficiente, e por isso estamos discutindo a criação de um BRICS Mathematical Union. A ideia é que, com essa união, possamos desenvolver várias iniciativas de colaboração entre os países do BRICS, como intercâmbio de estudantes e pesquisadores e até prêmios científicos”, afirma.
A proposta está em fase de discussão entre os países membros e representa mais um passo no fortalecimento da cooperação científica no âmbito do BRICS, com foco na consolidação de redes institucionais. Ao projetar os próximos passos da BRICS Mathematical Conference, Jaqueline Mesquita destacou a ampliação do bloco e a perspectiva de maior integração internacional. “A ideia é convidar esses novos membros para as próximas edições do evento, ainda que o comitê científico permaneça com os cinco países fundadores: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Isso é importante para estreitar as relações no âmbito do Sul Global, cuja colaboração tem se mostrado cada vez mais relevante”, finaliza.