SBM inaugura 1ª edição do Encontro Nacional em Popularização da Matemática com foco na integração de ideias e fortalecimento da comunidade 

Sediado na Unicamp, evento inédito debateu estratégias, diversidade e novos caminhos para aproximar a Matemática da sociedade

O evento aconteceu do dia 03 a 05 de dezembro, no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp | Foto: João Arenhart/SBM

Jogos e quebra-cabeças multicoloridos que enchem os olhos.  Representações que mesclam Matemática e Arte. Reflexões sobre diversidade e acessibilidade. Diálogos que conectam divulgadores científicos de todo o país em busca de respostas para a questão: como tornar a Matemática mais popular? Foi nessa atmosfera em que foi realizado o 1º Encontro Nacional em Popularização da Matemática (PoP!Mat), de 3 e 5 de dezembro no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Organizado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), o encontro nasceu do desejo de ampliar o entendimento sobre o papel da divulgação científica dentro e fora da comunidade matemática. Como explica Miriam Telichevesky, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): “O evento surgiu quando, em conversas entre nós matemáticos, percebemos que boa parte da comunidade não tinha muita ideia do que seria a divulgação ou a popularização da ciência e qual é seu objetivo”. A partir dessa inquietação, o PoP!Mat se estruturou como um espaço para integrar, dialogar e repensar estratégias de aproximação entre a Matemática e o público. Segundo a professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Beatriz Motta, a oportunidade de troca de ideias entre pesquisadores de todo o Brasil foi o ponto alto da experiência: “A ideia é mostrar para todo mundo aqui o tipo de ação que a gente tem feito. Mas mais importante do que isso, é a gente ver o que tá acontecendo nas outras universidades, nos outros grupos”.

Realizado em três dias, o PoP!MAT contou com uma programação dividida entre mesas-redondas, palestras, oficinas, apresentação de pôsteres e relatos de experiência | Foto: João Arenhart/SBM

A docente é coordenadora do Caravana da Matemática, projeto de extensão da UFJF que marcou presença durante a sessão de pôsteres e de relatos de experiência do Pop!MAT. A iniciativa busca levar atividades de divulgação matemática a escolas de Juiz de Fora (MG) e região, além de se dedicar à produção de conteúdo para as redes sociais. “Encontrar uma comunidade que esteja trabalhando com os mesmos objetivos que a gente é essencial para podermos manter esse trabalho e crescer cada vez mais”, acrescenta. 

O palestrante Pedro Roitman, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor dos livros Hakim, o Geômetra e Histórias para Despertar Matemáticos(as) Adormecidos(as), destaca o pioneirismo de um evento como esse: “Eu acredito que esse encontro é histórico, porque ele reúne, pela primeira vez, pessoas do Brasil inteiro que se interessam e fazem atividades de divulgação e popularização da Matemática. Então, eu acho que ele vai ser considerado, daqui a alguns anos, um marco”.

Entre cores e números 

Tratando-se de uma primeira edição, a programação do evento foi pensada para abranger uma gama variada de atividades – mesas-redondas com especialistas, rodas de conversa, palestras, minicursos e oficinas, além dos momentos dedicados às apresentações de trabalhos e relatos de experiência. Segundo a organização, a programação foi pensada para trazer a visão de pessoas mais experientes no âmbito das palestras e mesas, ao passo que os pôsteres e relatos foram concebidos como oportunidades de diálogo de projetos, ideias e parcerias entre divulgadores de todo o país. 

Uma das grandes referências internacionais na popularização da Matemática por meio da arte é a argentina Moira Chas, professora da Stony Brook University (EUA), que palestrou no primeiro dia do PoP!MAT. Em sua apresentação, revisitou as origens, discutiu equívocos comuns e destacou propriedades curiosas de objetos clássicos da geometria, como a faixa de Möbius e a garrafa de Klein – superfícies não orientáveis, em que não é possível definir consistentemente um “lado” ou uma orientação global. 

Moira Chas (Stony Brook University) mostrando suas criações em crochê matemático | Foto: João Arenhart/SBM

Um dos diferenciais de seu trabalho é a mescla entre os cálculos e o artesanato. Moira reproduz superfícies não orientáveis da geometria através do crochê – técnica de tecelagem baseada no entrelaçamento de fios têxteis. “Gosto de trabalhar com computador: programar, desenhar curvas, experimentar. Eu preciso ver as coisas, construir objetos para entender melhor. Meu trabalho é muito visual. Há uns dez anos comecei a fazer crochê matemático. No começo, eu nem relacionava isso com pesquisa, mas acabei descobrindo problemas perfeitos para serem representados em crochê”, explica. 

Por meio de suas habilidades manuais aliadas ao conhecimento científico, a pesquisadora percebeu que proporcionar a experiência sensorial no processo de aprendizado torna a Matemática mais acessível, e consequentemente mais popular. “As pessoas adoram tocar objetos, manipular, pensar com as mãos. É muito difícil convencer alguém a pensar matematicamente do nada – mas quando você entrega um objeto na mão dela, tudo fica muito mais fácil e natural”, pontua. 

Transitando também entre cores e números, Diego Lieban e Claudiomir Siqueira, professores do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), nos campus de Bento Gonçalves e Canoas, respectivamente, apresentaram no evento o trabalho que desenvolvem na criação de materiais didáticos para o ensino de Matemática por meio de impressoras 3D e cortadoras a laser – a chamada cultura maker. Entre as produções, estão uma variedade de jogos de tabuleiro, cubos mágicos e representações geométricas. 

Claudiomir Siqueira apresentando os jogos desenvolvidos nos laboratórios makers do Instituto Federal do Rio Grando do Sul (IFRS) | Foto: João Arenhart/SBM

“Conseguimos alcançar, além de um público já bastante consolidado na vida acadêmica e em projetos de extensão, pessoas cheias de gás e energia, que veem nesses materiais – chamativos pelas cores, pelos modelos – algo que desejam levar para suas instituições e projetos, replicando e ampliando esse trabalho”, afirma Claudiomir. 

Popularização é o nome do jogo 

Para Marcela Ferrari, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e ministrante do minicurso Sociologia, Marketing Científico e os 4D’s: fundamentos para a Divulgação da Matemática, a principal conscientização que buscou despertar nos participantes foi a da desmistificação da disciplina. “A mensagem central da divulgação é desestruturar a ideia de que a Matemática é para poucos ou de que só é acessível a quem tem um conhecimento muito superior. A ideia é que quem saia do minicurso entenda que matemática é para todo mundo e que todos devem ter acesso a ela.”

Entre as temáticas abordadas na programação estiveram: cultura maker, literatura, diversidade e inclusão, Matemática na educação básica, além de uma roda de conversa dedicada à discussão do papel do PROFMAT – o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional, coordenado pela SBM. A roda foi conduzida por Jaqueline Mesquita, Presidente da SBM, e Gustavo Araújo, docente da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Coordenador Nacional do Programa no biênio 2023-2025.

A Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita, fazendo o anúncio do Prêmio de Divulgação Matemática da SBM | Foto: João Arenhart/SBM

Durante a atividade, foi anunciada a mais nova premiação outorgada pela Sociedade Brasileira de Matemática: o Prêmio de Divulgação Matemática da SBM. A honraria tem como propósito reconhecer, estimular, valorizar e dar visibilidade às iniciativas e atividades de divulgação e popularização da Matemática voltadas para a sociedade em geral. A inscrição pode ser feita pelo candidato ou representante do grupo ou dirigente institucional até o dia 15 de março de 2026. 

Uma Matemática para todos

Um dos pontos centrais trazidos pelo evento foi o debate sobre os desafios em se divulgar e popularizar a Matemática para os diferentes públicos, levando em consideração não apenas estratégias de acessibilização e aprendizagem, mas os fatores sociais que permeiam a educação brasileira. Além de tornar a Matemática mais democrática, entender seu papel enquanto instrumento de manutenção da própria Democracia é fundamental – foi o que pontuou a líder do evento, Miriam Telichevesky. 

“A gente sabe que muitas vezes as pessoas simplesmente não gostam de Matemática porque tiveram uma experiência ruim na sua vida inicial, lá nos primeiros anos. Mas é fundamental que toda pessoa tenha o mínimo de relacionamento com a Matemática, porque isso é muito importante na tomada de decisões, sejam elas individuais ou coletivas – ela é central para a democracia, para que as pessoas tenham tomada de decisões mais conscientes”, comenta. 

Pensar a popularização da Matemática de maneira abrangente, especialmente em um encontro de caráter nacional, também demanda uma visão ampliada e atenta às questões de diversidade e inclusão. É o que destaca Luciana Elias, docente da Universidade Federal de Jataí (UFJ) e integrante da Comissão de Gênero e Diversidade SBM/SBMAC: “A questão central é que o evento trata de popularização e, para isso, precisamos reconhecer quem é esse ‘popular’. Para quem estamos falando? Estamos falando para a diversidade do povo brasileiro. O Brasil é diverso: em culturas, em raça, cor, gênero. Se não conseguirmos nos comunicar com todas essas pessoas, corremos o risco de cair no esquecimento.”

Da esquerda para a direita: Juliana Miranda (UFAM),  Erikah Souza (UFRJ), Luciana Elias (UFJ) e Jéssica Norberto (Fundação Cecierj) | Foto: João Arenhart/SBM

Junto de Luciana Elias (UFJ), Juliana Miranda (UFAM) e Jéssica Norberto (Fundação Cecierj), a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Erikah Souza, compôs a mesa-redonda Diversidade e inclusão em ações de divulgação e popularização da Matemática. Segundo ela, não é possível pensar em popularização sem pensar a diversidade diretamente relacionada à Matemática, presente no cotidiano das escolas, e do processo formativo como um todo. 

“Foi um prazer fazer parte dessa mesa, sobretudo porque estou desenvolvendo a minha pesquisa sobre pessoas travestis que ensinam Matemática, e estar aqui nesse lugar divulgando essa temática é importantíssimo, sobretudo para poder pensar em como a Matemática pode incidir nas nossas existências dentro de cada um dos espaços onde o conhecimento é desenvolvido”, avalia a pesquisadora. 

Erikah, que está no doutorado, integra o MatematiQueer, grupo de pesquisa e extensão universitária criado em 2020 e sediado na UFRJ, que tem como principal objetivo investigar as relações que pessoas que fogem às normas socialmente impostas, em relação a gêneros e sexualidades, e outras interseccionalidades, desenvolvem com a Matemática.

Planos para o futuro 

A primeira edição do PoP!MAT terminou com uma assembleia que reuniu os participantes para discutir quais ideias poderiam surgir a partir do encontro e, assim, construir um plano de ação para os próximos dois anos. A proposta foi pensar, de forma coletiva, o que a comunidade brasileira de popularizadores da Matemática pode desenvolver no futuro próximo. Como explica Miriam Telichevesky: “Juntar ações e organizar melhor, centralizar, descentralizar, capilarizar, tudo isso a gente vai tentar entender. E o efeito principal dele é que a gente conhece as outras iniciativas e consegue se inspirar e fazer parcerias.”

Os coordenadores do evento, Regis Varão (Unicamp) e Miriam Telichevesky (UFRGS), foram os responsáveis por mediar a assembleia final | Foto: João Arenhart/SBM

O evento deixou planos concretos para o futuro e também um brilho próspero em retrospecto, um sentimento que, nas palavras de Moira Chas, professora da Stony Brook University, reforça que o Brasil abriga uma comunidade pronta para avançar. “O simples fato de existir um evento sobre popularização da Matemática já é um excelente sinal. Isso me deixa muito feliz. Vejo muita gente com vontade de aprender, muito interessada. Dá para ver que existe uma comunidade viva, curiosa, querendo pensar e entender mais”, conclui.