Primeira conferência CLAMC-UMALCA lança bases para um centro internacional de matemática avançada na Unicamp 

Reunindo pesquisadores da América Latina, do Caribe e da China, evento sobre geometria, sistemas dinâmicos e equações diferenciais também debateu programa robusto de mobilidade científica 

A primeira conferência CLAMC-UMALCA recebeu pesquisadores comprometidos com a cooperação científica entre os países do Sul Global | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Superando distâncias continentais e diferenças linguísticas e culturais, dezenas de pesquisadores estiveram reunidos no primeiro evento conjunto do Centro Matemático China–América Latina (CLAMC) e da União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA). Realizado entre os dias 24 e 27 de agosto no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp, em Campinas, a conferência explorou geometria, equações diferenciais e sistemas dinâmicos, áreas fundamentais da matemática moderna. Com a presença histórica do matemático Dennis Sullivan, vencedor do Prêmio Abel em 2022, uma das maiores distinções da matemática mundial, a programação também se destacou por plenárias, palestras e exposição de objetos que unem arte e matemática.

Outro ponto alto do evento foi o anúncio de criação de um Centro de Matemática Avançada China-América Latina na Unicamp, cuja proposta foi idealizada pela UMALCA e pelo Presidente do CLAMC, professor Shing-Tung Yau, da Universidade de Tsinghua, na China.

O reitor da Unicamp, professor Paulo Cesar Montagner, destacou a matemática como uma linguagem universal, capaz de cruzar fronteiras, culturas e diferentes idiomas | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Segundo a professora Jaqueline Mesquita, Presidente da UMALCA e da Sociedade Brasileira de Matemática, a iniciativa carrega a importante ambição de aproximar nações geograficamente distantes. “Nossa ideia é criar oportunidades reais para novas colaborações de pesquisa, projetos conjuntos, intercâmbio de estudantes e cientistas, e o estabelecimento de parcerias institucionais de longo prazo”, afirma.

A iniciativa foi celebrada por representantes de diversas instituições que desempenham papéis fundamentais na ciência, na pesquisa e na educação brasileira. Entre eles, o chefe de gabinete da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Rubens Diniz, a vice-presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), Vanderlan Bolzani, o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Carlos Graeff, a coordenadora da Regional América Latina e Caribe da The World Academy of Science (TWAS LACREP), professora Marie-Anne Van Sluys, entre outros. 

Representantes da ACIESP, Fapesp, ABC, Unicamp, TWAS LACREP e IMECC reunidos para  chancelar a implantação de um centro dedicado à matemática avançada em Campinas | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Para o Vice-Reitor da Unicamp, professor Fernando Coelho, a formatação do Centro representa um presente para a Unicamp no ano em que a universidade celebra seu aniversário de 60 anos. “Cada vez mais, nossa busca pela internacionalização passa por fortalecer parcerias institucionais com o Sul Global. A ideia é que ele integre o Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável (HIDS), um distrito inteligente de inovação projetado em Campinas”, conta.

“O Centro proporcionará uma plataforma ideal para que matemáticos unam forças e avancem essas fronteiras do conhecimento”, declarou Zhuang Su, o chefe da Divisão de Assuntos Bilaterais no Consulado Geral da China em São Paulo | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Criação do Centro

A construção do Centro deve ficar sob a responsabilidade da Unicamp, que conta com o apoio  político e institucional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Nós vamos submeter a proposta da construção do Centro à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e, caso ele seja aprovado, a estimativa é que as obras iniciem em um prazo de até 36 meses”, relata Fernando.

O Centro também deverá contar com o aporte do recém-lançado Programa de Centros de Pesquisa Internacionais da FAPESP, cujo edital de fomento de R$ 30 milhões prevê financiar 12 centros internacionais no estado de São Paulo por ao menos 5 anos. “O objetivo é consolidar colaborações bilaterais reais e institucionais. Isso significa que deve haver um compromisso firme de ambas as partes, garantindo que pesquisadores chineses trabalhem continuamente no Brasil e que pesquisadores brasileiros também atuem na China”, indica Carlos Graeff.

De acordo com o Vice-Reitor da Unicamp, o Centro de Matemática China-América Latina deverá ser estruturado em três frentes científicas:

  1. Fundamentos Matemáticos: Focado em áreas como análise, álgebra, geometria, física-matemática, probabilidade e matemática discreta.
  2. Métodos Matemáticos e Aplicações: Inteligência Artificial, ciência de dados, modelagem, simulação, otimização, computação científica e computação quântica.
  3. Matemática para a Sociedade e Desafios Globais: Aplicações práticas voltadas a temas críticos como agricultura sustentável, saúde e bem-estar, cidades inteligentes, transição energética e clima.

Além disso, o espaço deve se dedicar à educação matemática, formação continuada de professores e intercâmbio de estudantes. “Um dos grandes objetivos de médio e longo prazo do Centro é atuar como um atrator de talentos no Brasil, na América Latina, Caribe e também na África”, ressalta Fernando.

O professor Kostantin Khanin, do Instituto Beijing de Ciência Matemática e Aplicações (BIMSA), na China, ressaltou que o Brasil está se tornando um dos principais players em matemática e que a liderança do país na criação do centro é reveladora. “Acontece em um momento muito oportuno em que a inteligência artificial se desenvolve em uma velocidade impressionante. Prevejo que nos próximos 10 anos, o Centro se torne o maior em pesquisas matemáticas”, diz.

A Presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), professora Helena Nader, que recentemente foi eleita como membro estrangeiro da Academia Chinesa de Ciências, defendeu que o Centro adote uma liderança compartilhada com outras instituições da América Latina e do Caribe. “O endereço físico do centro pode ser delimitado, mas seu território científico deve ser todo o país e, por vocação, a América Latina e a região do Caribe. Esse caráter nacional deve estar visível em sua governança, em sua agenda científica e no acesso à sua universidade”, ressaltou.

Formado inicialmente em Engenharia Química, o professor Dennis Sullivan contou que o mesmo encantamento pela Matemática que o levou a mudar de área esteve presente em sua palestra no IMECC: a ideia de aleatoriedade | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM 

Matemática de fronteira

A conferência trouxe plenárias, palestras, painéis temáticos e exposições tanto de origamis, quanto de objetos criados pela pesquisadora argentina Moira Chás, da Universidade de Stony Brook. Feitos de crochê e especialmente de fios metálicos, as esculturas desafiam a intuição tridimensional. “Um objeto feito à mão em que as pessoas podem tocar quebra a barreira do ‘não gosto de matemática’ e ajuda os alunos a processarem conceitos abstratos”, comenta a pesquisadora.

Enquanto Moira trabalha a visualização tátil, o professor Bernardo Uribe, da Universidade Nacional da Colômbia, explicou a aplicação da topologia na física da matéria condensada. Ele detalhou o comportamento eletrônico de materiais cristalinos e, em especial, as propriedades dos chamados isolantes topológicos.

Moira Chas aprendeu a técnica de tecelagem com fios de metal rígidos para poder criar  formas vazadas  | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Outros temas relevantes foram reportados por pesquisadores de Chile, México, Uruguai, China e Brasil. Alicia Dickenstein, da Universidade de Buenos Aires, por exemplo, explicou como a geometria algébrica real e ferramentas polinomiais são usadas para modelar sistemas biológicos complexos dentro das células. “A estrutura combinatória de grafos direcionados gera polinômios que ajudam a prever estados estacionários e a ocorrência de multiestabilidade, que é o mecanismo que permite às células “tomarem decisões”, detalhou. 

Por sua vez, o pesquisador Dennis Sullivan, vencedor do Prêmio Abel em 2022, apresentou uma plenária voltada a explicar conceitos fundamentais que conectam a teoria da probabilidade, processos aleatórios e estatística com as equações diferenciais parciais (EDPs) na mecânica dos fluidos. Em sua segunda visita ao país, Sullivan ressaltou que, embora a internet facilite a comunicação, os encontros presenciais permitem uma interação mais humana e espontânea, que pode levar a novas ideias e colaborações. “Nem todos os centros de pesquisa são fortes nas mesmas áreas, e justamente por isso é importante reunir pessoas com conhecimentos distintos. Às vezes, alguém de uma área aparentemente muito diferente pode compreender um determinado problema de uma maneira que ninguém mais na sala havia percebido”.

Com humor e profundidade, o ganhador do Prêmio Abel cativou a plateia em sua plenária sobre equações diferenciais parciais | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

Oportunidades e mobilidade científica 

A primeira conferência CLAMC-UMALCA também serviu para apresentar mecanismos concretos que podem ampliar a circulação de matemáticos entre a América Latina, o Caribe e a China. Durante o encontro, foram detalhadas iniciativas de financiamento para visitas científicas, formação de pesquisadores e desenvolvimento de projetos conjuntos. Uma das principais oportunidades é o Programa de Bolsas de Viagem e Mobilidade do CLAMC, iniciado em março de 2026. A iniciativa oferece apoio financeiro para que pesquisadores da América Latina e do Caribe realizem visitas científicas de uma a duas semanas em institutos chineses, incluindo o Centro de Matemática Interdisciplinar de Pequim (BIMSA), o Instituto Shanghai de Matemática e Ciências Interdisciplinares (SIIMS), o Instituto Hainan de Matemática e Estatística (HIMISTA) e o Instituto De Ciências Matemáticas e Aplicações (IMS), em Hong Kong.

O programa prevê 100 visitas por ano durante pelo menos cinco anos. Cada pesquisador selecionado recebe US$ 3 mil para despesas de viagem e outros US$ 1,3 mil para hospedagem e alimentação. Os processos seletivos ocorrem quatro vezes ao ano, nos meses de março, junho, setembro e dezembro. “Já selecionamos 36 visitantes para este ano. Mas este é apenas o começo. Estamos construindo uma dimensão global para esse programa”, destacou o docente Yitwah Cheung, do Tsinghua University. 

De esquerda para direita, os professores Christian Schaerer,Yitwah Cheung, Jaqueline Mesquita,  Gabriela Araujo e Helena Lopes  | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM

No Brasil, outra frente de oportunidades vem do Centro Brasileiro de Geometria (CBG),  que prevê a concessão de cerca de 270 bolsas em diferentes níveis acadêmicos. Nos primeiros meses de funcionamento, já haviam sido concedidas 37 bolsas e contratados quatro pesquisadores de pós-doutorado. A previsão apresentada durante o encontro é de uma nova chamada para pós-doutorado em dezembro de 2026, além de editais para estudantes de doutorado ainda neste ano. “Há quase 10 anos de financiamento desse Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID). Entre nossos projetos, teremos uma iniciativa para ensinar Matemática a pessoas surdas”, conta o professor Marcos Jardim, diretor do CBG.

Já o Centro Internacional de Matemática Pura e Aplicada (CIMPA) oferece mecanismos de apoio à colaboração internacional, incluindo programas como o Research in Pairs, voltado ao desenvolvimento de projetos conjuntos, além de bolsas para pesquisadores e estudantes participarem de escolas de pesquisa. “O CIMPA usará sua gigantesca rede internacional para disseminar amplamente as informações do novo projeto e dar a visibilidade necessária para atrair melhores indicações de pesquisadores e talentos científicos”, discorreu a professora Helena Nussenzveig Lopes, Presidente do CIMPA.

Na avaliação da presidente da UMALCA, e também dos organizadores, a combinação desses mecanismos pode ajudar a transformar a Matemática realizada pelos países do Sul Global. “A China tem aberto bastante espaço para os países da América Latina e Caribe e cada vez mais, queremos fortalecer a matemática feita nesses países”, finalizou.

A conferência uniu discussões científicas, oportunidades acadêmicas, debates sobre gênero na Matemática e iniciativas para ampliar a colaboração internacional | Crédito da imagem: Dyovana Santos / SBM