Conferência reúne pesquisadores de Brasil, China, Macau e Portugal para discutir novas formas de cooperação científica

Programação em Natal colocou em contato diferentes perspectivas sobre a pesquisa matemática e reforçou a importância da circulação internacional do conhecimento

Já tradicionais nas bienais de matemática, eventos como o encontro buscam ampliar o diálogo com a produção acadêmica internacional | Crédito da Imagem: Luís Guilherme Baeta/SBM

Entre os dias 6 e 7 de agosto, pelos corredores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, era possível ouvir diferentes sotaques do português, além de inglês e até mandarim. Isso ocorreu porque a instituição foi palco do primeiro Encontro Brasil–China–Macau–Portugal em Matemática. A conferência, que integrou a programação da XII Bienal de Matemática, também contou com a organização da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), do Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), da UFRN e do Departamento de Matemática (DMAT) da universidade.

O evento teve como objetivo reunir pesquisadores das diferentes regiões, principalmente os falantes de português. Entre palestras e plenárias que compuseram a programação, pesquisadores de cada localidade puderam discutir tópicos relevantes e problemas desafiadores, centrais para a Matemática contemporânea.

Como Macau é uma região administrativa especial da China, a programação também contou com a participação de pesquisadores da China continental, representada pela cidade de Shenzhen, próxima tanto de Macau quanto de Hong Kong. As duas regiões administrativas especiais e Shenzhen integram a Greater Bay Area, megaregião conhecida como “Vale do Silício Asiático”.

O encontro deu aos pesquisadores estrangeiros a oportunidade de conhecer a ciência feita fora do eixo sudeste | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

Diferentes regiões e uma só língua: a Matemática

Além da integração e do debate científico, a conferência também se apoiou na colaboração direta entre os participantes e no compartilhamento de conhecimento entre instituições e países. Para Jaqueline Mesquita, Presidente da SBM, a proximidade linguística é um facilitador para esse intercâmbio científico.

A SBM, representada pela presidente Jaqueline Mesquita, vem organizando e apoiando uma série de eventos voltados à cooperação internacional | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

“Já tínhamos uma relação próxima com a Sociedade Portuguesa de Matemática e, agora, trazendo também Macau e a região sul da China – onde temos vários brasileiros atuando –, conseguimos consolidar os esforços entre as regiões nas diferentes frentes, como cooperação e difusão da matemática”, pontua.

Vyacheslav Futorny tem uma ligação forte com o Brasil, onde foi professor no Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME-USP) | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

Quem compartilha desse pensamento é Vyacheslav Futorny, matemático ucraniano que desenvolveu parte da carreira no Brasil e hoje atua na Southern University of Science and Technology, em Shenzhen. “Toda internacionalização contribui para o avanço da matemática e, ao juntar as forças que cada país tem, quem se beneficia é a ciência”, argumenta o pesquisador.

Eugénio Rocha, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, também esteve no evento | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

Todos de olho na China

A presença da China em um encontro que reúne países e regiões com vínculos linguísticos em comum também evidencia o interesse crescente em ampliar a cooperação científica com o país asiático. Nas últimas décadas, a China ampliou sua participação na produção científica internacional, enquanto Brasil e China também vêm fortalecendo suas relações de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento.

Na Matemática, essa aproximação já ocorre há algum tempo e pode ganhar novos caminhos com iniciativas como a conferência realizada em Natal.

É o que constata Claudio Landim, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Para ele, o investimento chinês em Matemática pode servir de referência para o Brasil. “Eu estou muito interessado em aprofundar nossas colaborações com a China, que se mostra bastante forte na área, e essas conexões podem trazer muito para o Brasil”, destaca.

Claudio Landim espera desenvolver, na China, um grupo de pesquisa voltado à sua área de estudo, as ciências exatas da terra, com foco em probabilidade e estatística | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

Do lado de lá, a recíproca é verdadeira. Gang Tian, professor da Universidade de Pequim e membro da Academia Chinesa de Ciências, conta que os dois países compartilham especialidades na Matemática, como geometria e otimização. Segundo ele, o encontro é uma oportunidade de intensificar a troca entre as nações.

“Espero que possamos receber estudantes brasileiros em nossos programas de pós-graduação, da mesma forma que possamos mandar mais pesquisadores chineses para se desenvolver aqui”, relata o matemático.

Gang Tian, que conduziu uma das plenárias, é referência na área de análise geométrica | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

Um primeiro capítulo para a colaboração internacional

A primeira edição do Encontro Brasil–China–Macau–Portugal em Matemática representa um passo para ampliar a colaboração entre pesquisadores das diferentes regiões. Ao reunir América, Europa e Ásia em torno de uma mesma programação, o encontro criou oportunidades para o intercâmbio de conhecimento e para o desenvolvimento de novas parcerias científicas.

O encontro foi marcado pela troca entre diferentes pesquisadores e instituições | Crédito da Imagem: Dyovana Santos/SBM

José Francisco Rodrigues, pesquisador da Universidade de Lisboa, já planeja os próximos passos da relação entre as regiões. “Já temos planos de realizar uma reunião entre Portugal e Macau – e, claro, os brasileiros também estão convidados a participar. Espero que o que aconteceu aqui em Natal possa se consolidar e acelerar um relacionamento que é muito interessante e útil”, conta.

Jaqueline conclui destacando que, além da pesquisa, o evento também pode trazer frutos para o ensino. Como exemplo, ela cita a Olimpíada de Professores de Matemática do Brasil (OPMbr), que promove aos vencedores um intercâmbio na China.

“Nesse sentido, temos uma relação muito forte com os chineses e precisamos desenvolver esse mesmo cenário com os portugueses. Um evento como esse é a chance de conectar mais, assinar acordos de colaboração, buscar recursos e popularizar a matemática”, finaliza.