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Diretor da SBM entra para seleto grupo internacional de líderes em estatística
Roberto Imbuzeiro de Oliveira, integrante da gestão da Presidente Jaqueline Mesquita, é o único brasileiro nomeado Fellow do Institute of Mathematical Statistics (IMS), ao lado de cientistas de instituições como o MIT e Princeton
A matemática brasileira segue conquistando espaço entre as mais respeitadas comunidades científicas do mundo. Um reflexo desse reconhecimento foi a recente nomeação de Roberto Imbuzeiro de Oliveira, atual integrante da Diretoria da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), como Fellow do Institute of Mathematical Statistics (IMS), organização internacional que promove o desenvolvimento e a disseminação da teoria e das aplicações da estatística e da probabilidade. Trata-se de uma das mais importantes distinções mundiais na área.

Parintins sedia VII Colóquio de Matemática da Região Norte e destaca interiorização do conhecimento na amazônia em estatística
Evento reuniu cerca de 300 participantes, promoveu integração entre universidade e escolas públicas e marcou avanço da produção científica no norte brasileiro
Berço de manifestações culturais emblemáticas no Brasil, Parintins carrega consigo uma rica tradição de celebração da identidade amazônica e do talento popular. Foi neste cenário vibrante de cores, sons e saberes que o município do Amazonas recebeu, agora em maio, o 7o Colóquio de Matemática da Região Norte. O evento, promovido pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), alcançou seu objetivo de disseminar a disciplina em todas as suas vertentes e reuniu aproximadamente 300 pessoas no Centro de Estudos Superiores de Parintins, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Campo Grande (MS) recebe o II Encontro Nacional do Profmat em outubro
Evento reúne professores, pesquisadores, alunos e egressos em programação focada na reflexão sobre os rumos da Matemática na educação básica
De 15 a 18 de outubro de 2025, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande (MS), será palco do II Encontro Nacional do PROFMAT, o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional. Organizado pelo Instituto de Matemática (INMA) da UFMS, com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), o evento busca promover um espaço de reflexão sobre o ensino de Matemática, reunindo professores, pesquisadores, alunos e egressos do programa em um ambiente colaborativo e dinâmico.

Comissão de Relações Étnico-raciais: conheça os novos integrantes do grupo da SBM
Professores Adina Rocha dos Santos, Daniel de Oliveira Lima e Valter Borges Sampaio Júnior assumem mandato no grupo majoritário até fevereiro de 2027
Em março de 2025, a Comissão de Relações Étnico-Raciais (CRER), iniciativa da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), renovou seu corpo majoritário e apresentou novos integrantes para um mandato de dois anos. A composição agora conta com os professores Adina Rocha dos Santos, do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), Daniel de Oliveira Lima, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Valter Borges Sampaio Júnior, da Universidade Federal do Pará (UFPA).

PUC-Rio lança novo bacharelado em matemática aplicada e computacional com ênfase em ciência de dados
O profissional do novo Bacharelado aliará a profundidade teórica dos conceitos matemáticos com suas diversas aplicações em áreas do conhecimento científico e tecnológico
O profissional do novo Bacharelado em Matemática Aplicada e Computacional, com ênfase em Ciência de Dados, aliará a profundidade teórica dos conceitos matemáticos com suas diversas aplicações em áreas do conhecimento científico e tecnológico. O perfil multidisciplinar do novo curso busca qualificar o matemático a transitar entre diferentes atores do mercado, e a transferir competências matemáticas para setores como os de computação e engenharia.

SBM e SBMAC organizam I Encontro Conjunto Brasil-México em setembro
Fortaleza será sede de joint meeting em um evento formatado com palestras e sessões temáticas sobre diversos temas de pesquisa em Matemática Pura e Aplicada e espaços para discutir financiamento e cooperação mútua entre as nações latino-americanas
O Hotel Mareiro, em Fortaleza, será a casa do I Encontro Conjunto Brasil-México em Matemática, de 8 a 12 de setembro. O evento é uma organização das Sociedades Brasileiras de Matemática (SBM), de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), da Sociedade Mexicana de Matemática (SMM) e da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Nota de Pesar: Eliza Maria Ferreira Veras Da Silva
A Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) lamenta profundamente o falecimento da matemática Eliza Maria
Ferreira Veras da Silva, ocorrido no último sábado (31 de maio). Primeira mulher negra a obter o título de doutora
em Matemática no Brasil, Eliza foi uma das maiores referências na luta por uma ciência mais inclusiva, plural e
comprometida com a transformação social.
Uma pequena homenagem a Jacob Palis
Lorenzo J. Díaz
Com imensa tristeza, recebemos a notícia de que Jacob Palis nos deixou no dia 7 de maio. Desde então, a comunidade científica tem se manifestado repetidamente, destacando sua profunda admiração pelas suas quase infinitas contribuições para a vida acadêmica no Brasil e no mundo. Seus trabalhos científicos, orientações, atuação como editor e dirigente em diversas academias, seu incansável empenho como gestor e criador de projetos, sua capacidade de formar e integrar grupos de pesquisa, enfim, um longo e admirável etcetera, têm recebido merecida atenção.
Tive a honra de ser convidado pela SBM, convite pelo qual sou imensamente grato, para escrever uma nota de homenagem. Também tive a grande sorte de conviver com Jacob por quarenta anos em diferentes momentos e situações: como aluno, colega, companheiro de viagens e congressos, parceiro em projetos, sendo a mais recente, e especialmente empolgante, a coordenação adjunta do INCTMat.
Ao longo desses anos, aprendi muito com Jacob e tive a sorte de ser contagiado pelo “vírus Palis”, aquele que nos faz querer sempre melhorar, ser generosos e pensar grande. Por isso, meu texto inevitavelmente terá um viés pessoal, compartilhando o que vivi e testemunhei: uma história repleta de “estórias” incríveis.
Jacob, como bom mineiro, certamente apreciará o termo de Guimarães Rosa, hoje infelizmente fora de circulação mas que traduz bem o espírito das situações inusitadas e memoráveis que vivenciamos. Espero que a memória não me falhe.

No início, fiquei um pouco apavorado com a tarefa, mas tive a sorte de contar com duas grandes fontes de inspiração. A primeira veio do desenho de André Nachbin, feito para uma homenagem a Jacob em 2003. As imagens destacam Jacob como grande impulsionador do projeto do INCTMat. Quando pedi autorização ao André para usar o desenho, ele prontamente concordou e me comentou: “Jacob foi quem mais me ajudou na minha carreira no Brasil.” Acredito que somos muitos os que compartilhamos esse sentimento de gratidão. Mais adiante, contarei algumas “estórias” a respeito.
A segunda grande ajuda veio de um texto de Carlos Vásquez, meu irmão acadêmico que hoje está em Valparaíso e que também foi contagiado pelo “vírus Palis”. No livro de depoimentos por ocasião dos 80 anos de Jacob, ele escreveu que “Jacob é o Rivelino da Matemática Brasileira”. E vejam bem, ele escreveu Rivelino, e não Pelé ou Garrincha. Rivelino tinha o dom de inventar novos espaços e situações inacreditáveis e surpreendentes e, o mais importante, fazia com que todos ao seu redor jogassem melhor. Exatamente assim como Jacob atuava na Matemática. Talvez, infelizmente, os mais jovens nem saibam muito bem quem foi Rivelino, acostumados aos neymar(es) da modernidade. Uma visita a vídeos na rede pode ser um colírio. Além disso, Rivelino, assim como Jacob, foi tricolor Fluminense (Jacob por toda a vida, Rivelino por alguns anos) e ambos usam bigode.
Por onde começar? Cheguei ao IMPA em 1985 para fazer doutorado, talvez sem as ideias muito claras e com certa dose de irresponsabilidade, mas Jacob sempre me ajudou a colocar a cabeça em ordem. Vale lembrar que aqueles eram anos de hiperinflação descontrolada. Ir ao supermercado era uma experiência torturante. Chegar ao fim do mês, nem falo. Com os açougues esvaziados, o governo Sarney chegou a prender o boi no pasto para tentar conter os preços. Logo depois veio o Plano Collor, provocando um verdadeiro terremoto social. Lembro bem do dia quando, após o anúncio do plano, Ricardo Mañé saía da sala do Departamento de Atividades Científicas do IMPA com as mãos na cabeça e decidia suspender sua aula. Nas minhas lembranças — estas, pelo visto, erradas — o Jacob estava por perto e ainda mantinha um leve sorriso, quando, na verdade, ele estava em uma de suas peregrinações pelo mundo, no Kuwait. É inacreditável pensar como tantas realizações de Jacob foram levadas adiante nesse cenário totalmente maluco e descontrolado, algo que os mais jovens talvez nem consigam imaginar. Eu mesmo tenho dificuldade de reconstruir na memória de forma coerente como atravessamos tudo aquilo e agora estamos aqui. Ainda assim, foram anos empolgantes.
Naquela época, os seminários de Sistemas Dinâmicos do IMPA aconteciam regularmente às segundas e quartas, sempre com muita participação e numerosos convidados do exterior. Jacob frequentemente chegava com algum atraso, devido aos seus inúmeros compromissos. Todos aguardávamos sua chegada enquanto o saudoso Carlos Gutierrez fazia piadas com seu humor característico e ria sozinho às gargalhadas. Foram anos frenéticos, marcados por grandes avanços. Entre os destaques estão os trabalhos de Ricardo Mañé sobre a Conjetura da Estabilidade, as colaborações de Jacob com Floris Takens sobre bifurcações e dimensões fracionárias, que tinham como pano de fundo os resultados de Newhouse sobre infinitude de atratores e interseções de conjuntos de Cantor, que culminaram em um livro de referência. Outro marco do período foram os resultados de estrutura de funções do intervalo, obtidos pelo Wellington de Melo com Sebastian van Strien, que contribuíram avanços e outro texto fundamental. Era a hora certa no lugar certo: um ambiente efervescente, em que ideias e descobertas se sucediam com velocidade e impacto. Mas ainda teve mais.

Nesse período também surgiram os resultados de Benedicks e Carleson sobre atratores estranhos na família de Hénon. Jacob logo percebeu o potencial desses achados, que acabaram se tornando o ponto de partida para os trabalhos fundamentais de Leonardo Mora e Marcelo Viana sobre a abundância de atratores estranhos em bifurcações homoclínicas. Como era do seu estilo, Jacob soube ver uma grande oportunidade e, de quebra, “inventou” uma dupla para trabalhar no tema. Aliás, Jacob era mestre em promover colaborações entre seus alunos e colegas. É impossível enumerar todas as duplas, triplas e quadruplas de colaborações que surgiram incentivadas pelo Jacob. Eu mesmo fui extremamente beneficiado pela estratégia.
Nesses dias, passamos infinitas horas mergulhados no estudo dos intrincados atratores estranhos. No final, ficamos tão saturados que, no saudoso bar Sagres da Gávea — o ponto de referência e encontro dos dinamicistas do Rio de Janeiro — um grupo de dinamicistas autodenominado “Sobreviventes da última Ω-explosão” (em referência às bifurcações) organizou um chopp de descarrego com o lema irreverente “Mora-Viana nunca mais!”.
Um aspecto curioso dessa época, que reflete bem o espírito agregador do Jacob, eram as reuniões festivas e os chopes após os seminários. As defesas de tese do grupo de dinâmica do IMPA sempre terminavam com comemorações no Degrau do Leblon. Com o tempo, essa tradição acabou: os preços subiram e os garçons logo perceberam que a pessoa importante da mesa era o Jacob. Todos olhávamos com inveja para os caprichados pratos dele, enquanto os nossos eram sempre mais tristes e nem sempre no ponto certo.

Foi também nessa época que Jacob se destacou como um grande “conjeturador”, sempre inventando cenários e propondo novas perspectivas. Talvez nem todas suas conjeturas tenham se tornado corretas, mas todas eram boas. E, afinal, o que é uma boa conjetura? É aquela que impulsiona a pesquisa, abre caminhos em uma direção promissora e fornece contexto. As de Jacob cumpriam isso com folga, e ainda hoje continuam mantendo muitos dinamicistas ocupados e pensativos. As conjeturas da “hiperbolicidade versus ciclos” e da “finitude de atratores” foram, e ainda são, marcos fundamentais.
Naquela época, ainda utilizávamos slides em acetato nas apresentações. Escrevíamos manualmente várias versões, sempre tentando completar ou melhorar a anterior. Com o tempo, porém, as sucessivas edições iam ficando borradas, dificultando a leitura. Jacob, sempre cheio de entusiasmo, procurava dar um panorama global e abrangente de suas conjeturas. Com generosidade, incluía todas as contribuições de seus alunos, fazendo com que cada versão fosse uma ampliação da anterior, ficando os slides cada vez mais carregados e confusos. O resultado começava a virar uma grande salada (isso sim, com muitos ingredientes e adereços muito apetitosos), mas cada vez de digestão mais difícil. Não demorou para que todos começássemos a fazer piadas e reclamações sobre a complexidade das apresentações. Foi então que, em um encontro da União Matemática da América Latina e do Caribe (UMALCA), em Cancún, no México, quando recebeu uma de suas muitas homenagens, Jacob ministrou uma belíssima palestra. Dessa vez, utilizou slides novos, limpos e organizados, sem as intermináveis listas de nomes, oferecendo uma apresentação clara e envolvente.

Jacob foi um grande integrador da comunidade de sistemas dinâmicos e um grande incentivador dos jovens talentos. Ele sempre os acolhia e apoiava os projetos dos mais novos, promovendo um espírito colaborativo. Talvez tenhamos herdado esse bom espírito aglutinador do Jacob, por isso, os dinamicistas do Brasil, embora hoje muito diversificados, ainda se percebem um pouco como uma grande família, coesa e amigável na medida do possível.
O olhar de Jacob para a descoberta de jovens talentos sempre foi atento. Gosto de lembrar da “estória” de Marcelo Viana, “descoberto” pelo Jacob durante uma Conferência de Matemática em Coimbra, em 1985. Marcelo esperava poder dar uma palestra tranquila, numa sessão esvaziada no fim da tarde, mas quando soube da palestra o Jacob logo decidiu assistir, iniciando assim o que se tornaria uma grande parceria. Outra lembrança marcante é a de Carlos Gustavo Moreira, o Gugú, ainda uma criança no IMPA, vestindo sua camiseta do colégio Santo Inácio e orbitando ao redor de Jacob enquanto recitava todas as casas decimais de π. Jacob sempre deu grande suporte ao Gugú sabendo que ali havia um futuro muito promissor e um grande parceiro. Há também a “estória” da defesa do jovem matemático japonês Shuhei Hayashi, que provou a Conjetura da Estabilidade para campos de vetores, mas quase teve seus resultados garfados. Jacob, com sua habitual energia, fez então uma defesa entusiástica e decisiva do trabalho de Hayashi, publicado finalmente no Annals of Mathematics.
Jacob sempre foi um grande entusiasta da internacionalização. Hoje isso pode parecer quase trivial, mas, no contexto da época, há mais de 50 anos, a realidade era bem mais complicada. O primeiro grande encontro internacional da área no Brasil foi promovido em 1971, em Salvador, por iniciativa de Elon Lima, Maurício Peixoto e o próprio Jacob. Foi um evento marcante de três semanas que reuniu os maiores especialistas da teoria de sistemas dinâmicos da época, dando um enorme impulso à área.
A “estória” que segue era uma das preferidas de Jacob, ela ilustra bem seu estilo, uma mistura de sorte, ambição e ousadia. Contava que certa vez, ao voltar do “IMPA velho” um sábado, após uma manhã intensa de trabalho, cansado e carregando livros e pastas, encontrou-se por acaso em frente ao estádio das Laranjeiras com o então presidente da FINEP. O homem, surpreso com a aparência exausta de Jacob naquele dia e horário, ouviu sobre seus muitos trabalhos, alunos, dificuldades e projetos, e é claro mencionou o congresso. No final, o congresso obteve financiamento e aconteceu com grande sucesso. Os Proceedings desse encontro se tornaram um marco: um elegante volume cor vinho tinto da Academic Press foi por muitos anos uma presença constante em nossas mesas.
Esse foi apenas o primeiro dos muitos eventos que se seguiram em cadeia. Os encontros quadrienais de Sistemas Dinâmicos do IMPA se tornaram uma tradição: sempre empolgantes e cheios de agitação. É impossível enumerar todos. A “estória” do encontro de Salvador tem um acréscimo interessante que nos faz retornar aos talentos. Pouco antes do encontro, Ricardo Mañé, ainda um jovem estudante do Uruguai, enviou uma carta ao Jacob afirmando ter provado a Conjectura da Estabilidade. A demonstração estava incorreta, mas Jacob, com sua perspicácia, enxergou ali um grande potencial e não hesitou em convidar Ricardo para participar do evento. Poucos meses depois, Mañé tornou-se aluno de Jacob e acabou desenvolvendo toda a sua brilhante carreira no IMPA.
Mudando de continente, entre 1983 e 2008, Jacob co-organizou inúmeras escolas e congressos no International Center for Theoretical Physics (ICTP), em Trieste, junto a grandes nomes como Zeeman, Sinai, Yoccoz e muitos outros. Esses eventos seguiam um formato especial: duas semanas de escola, seguidas de uma semana de congresso. A escolha criteriosa de tópicos e palestrantes refletia uma visão estratégica clara, que impulsionou a expansão geográfica da área, levando os sistemas dinâmicos a muitos países em desenvolvimento.
Ainda no âmbito das atividades internacionais, Jacob foi um dos grandes idealizadores da UMALCA. Sua participação na International Mathematical Union (IMU) foi também marcante e dedicada: foi membro do comitê executivo (1983-1990), secretário-geral (1991–1998) e presidente (1999–2002). Durante esses anos, Jacob aproveitou as reuniões dos comitês realizadas no Rio de Janeiro para transformá-las também em encontros científicos de grande destaque, ampliando os horizontes matemáticos da região. Jacob foi um dirigente diligente e visionário.
Lembro do International Congress of Mathematicians (ICM) de Zurique em 1994. Um encontro emblemático e emocionante. Foi lá que Jean-Christophe Yoccoz, grande amigo do Brasil e colaborador de Jacob e Gugú, recebeu a medalha Fields. Foram duas semanas intensas. Lembro que, em certo momento, uma das secretárias da IMU adoeceu, e Jacob precisou “descer ao pé do canhão” para assinar cheques e distribuir ajudas financeiras aos matemáticos do então chamado Terceiro Mundo. Fez isso com naturalidade e aquele sorriso característico. Quando o congresso finalmente terminou, organizamos na última noite uma grande comilança “brasileira”, regada a vinho em abundância. Uma grande festa. Nunca vi Jacob tão descontraído, especialmente depois de se livrar da gravata e do paletó. Quando chegou a salgadíssima conta, em francos suíços e com muitos zeros, felizmente já esquecida, Jacob, em uma de suas tiradas típicas, disse: “Vamos convidar os jovens.” Só sei que, na época, eu infelizmente já não era mais jovem nos cálculos do Jacob. O Gugú ainda era considerado jovem, e reclamou veementemente diante da conta volumosa que não ia pagar. Aliás, o animado espírito contestador do Gugú acabou se tornando uma de suas marcas registradas, muito apreciada por nós e foco das nossas piadas. Em qualquer caso, foi um grande investimento!

Enfim, Jacob sempre sonhou alto: queria trazer uma edição do ICM ao Brasil, ver um brasileiro conquistar uma medalha Fields e integrar o Brasil no grupo de elite da IMU, ao lado das grandes potências da área. Todos esses sonhos se tornaram realidade: o ICM foi realizado no Rio de Janeiro em 2018, com muitos palestrantes do Brasil; Artur Avila recebeu a medalha Fields em 2014; e o Brasil foi promovido ao grupo de elite da IMU em 2018, após ter ingressado na entidade em 1954, no nível mais baixo. Foram muitos progressos, mas ainda há muita estrada pela frente. Tenho certeza de que, no futuro, continuaremos conquistando novos avanços, completando ainda mais as expectativas de Jacob.
Para encerrar estas lembranças, sem pretender ser exaustivo, gostaria de relatar brevemente a passagem de Jacob pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela The World Academy of Sciences (TWAS). Jacob foi presidente da SBM entre 1979 e 1981. Naquela época, a sociedade ainda era bastante pequena, e as atas das reuniões registram as dificuldades para que os matemáticos se associassem à SBM e pagassem suas anuidades — problemas que, infelizmente, ainda persistem até hoje e que esperamos que o leitor ajude a superar. O Boletim da SBM foi criado juntamente com a sociedade, em 1969. Passou por uma profunda reformulação a partir de 1988, com foco na internacionalização e na elevação da qualidade, incluindo uma profunda reformulação do comitê editorial. Jacob assumiu o cargo de editor-chefe, que exerceu com entusiasmo e dedicação por muitos anos.
As gestões de Jacob na ABC e na TWAS seguiram linhas paralelas. Em ambas, durante sua gestão, foram introduzidas as categorias de membros afiliados, promovendo uma maior integração dos jovens pesquisadores. A presença e a inserção dessas instituições na sociedade também cresceram significativamente sob sua gestão. Vale destacar as palavras da atual presidente da ABC, Helena Nader, durante a última Reunião Magna — por sinal, idealizada por Jacob — realizada justamente na semana de seu falecimento. Ela ressaltou que Jacob foi um líder inovador à frente de todas as academias que dirigiu, sempre promovendo múltiplas iniciativas para ampliar sua presença e visibilidade na sociedade. Helena lembrou que Jacob costumava dizer: “Não dá para uma pessoa ser onipresente” e “Precisamos de mais interlocutores”, reforçando a importância da participação ativa dos afiliados. Ficam os convites. Da mesma forma, na TWAS Jacob deixou sua profunda marca. Luiz Davidovich, ex-presidente da ABC e grande parceiro de Jacob, recordou sorrindo que a primeira medida de Jacob à frente da TWAS foi trocar o nome da Third World Academy of Sciences para The World Academy of Sciences, mantendo as mesmas siglas. Uma mudança simbólica, mas que ilustra muito bem o espírito arrojado e visionário de Jacob.
Desculpem pelas muitas “estórias” e pessoas que ficaram no tinteiro — é impossível dar conta de tudo quando falamos de alguém do tamanho do Jacob. Nem mencionei a cooperação Brasil–França em Matemática! Nem seu entusiasmo na cooperação com Japão e China! Depois do falecimento de Jacob, o matemático chinês Lan Wen escreveu as seguintes palavras (aqui traduzidas):
“Jacob foi muito especial para nós, matemáticos chineses. Ele pertence não apenas ao Brasil, mas também à China. Não é apenas um matemático notável, mas também um grande líder de toda a comunidade matemática mundial. Tinha um carisma especial que encantava todas as pessoas que o conheciam. Sempre foi muito amistoso com os matemáticos chineses e os ajudou a se integrar à comunidade matemática internacional.” Certamente, muitos matemáticos de outros países poderiam fazer dessas palavras as suas.
Enfim, sentiremos falta daquela palmada nas costas do Jacob acompanhada do seu “Oi, companheiro!”. Uma palmada carinhosa, que às vezes era anúncio de algum abacaxi para descascar, mas que, muitas vezes, também significava uma oportunidade ou o anúncio de algum sonho aparentemente fora de escopo que o Jacob executaria ao seu estilo de “sejam realistas, pensem no impossível”. Lembro do Jacob perambulando pelo IMPA com seu desenho da “lagosta do INCTMat” (para mim, sempre foi um caranguejo, mas, conhecendo o Jacob, entre lagosta e caranguejo, a escolha era óbvia!) que um dia se tornaria realidade e impulsionaria ainda mais a matemática brasileira. Esse é apenas um exemplo entre infinitos outros: Jacob sempre pensava grande, mas de maneira inclusiva.

Quem teve a grande sorte de trabalhar com ele — na academia, na gestão, na administração ou onde quer que fosse — sempre falava do clima acolhedor e colaborativo criado ao seu redor. Mesmo sendo exigente, era impossível não gostar de trabalhar com ele. Seu espírito envolvente e seu sorriso cúmplice faziam com que o trabalho duro não parecesse tanto assim. Era assim que ele também nos inspirava a agir. Em uma dessas sessões de palmadas nas costas, depois de eu ganhar um bom projeto, ele me disse:
“Lorenzo, não gaste sozinho, lembre-se das pessoas ao seu redor.”
Sempre repito este conselho.
Obrigado, Jacob.
CRONOGRAMA DE EVENTOS SBM
2025
• 9º Encontro Brasil-Portugal IST-IME – IME USP, São Paulo/SP – 04 a 08 de agosto de 2025
• II Semana Nacional de Iniciação Científica da SBM – UFPA, Belém/PA – 18 a 22 de agosto de 2025
• Encontro Conjunto Brasil-México em Matemática – Fortaleza/CE – 08 a 12 de setembro de 2025
• Workshop da SBM de Mulheres na Matemática – Maceió/AL – 01 a 03 de outubro de 2025
• 6º Colóquio de Matemática da Região Sul – UFSM, Santa Maria/RS – 06 a 10 de outubro de 2025
• II Encontro Nacional do PROFMAT – UFMS, Campo Grande/MS – 15 a 18 de outubro de 2025
• 1º Encontro Nacional em Popularização da Matemática – UNICAMP, Campinas/SP – 03 a 05 de dezembro de 2025
2026
• XII Bienal da Sociedade Brasileira de Matemática – UFRN, Natal/RN – junho de 2026
• 5º Colóquio de Matemática da Região Sudeste – UFRJ, Rio de Janeiro/RJ – 31 de agosto a 04 de setembro de 2026
• 7º Colóquio de Matemática da Região Nordeste – UFPE, Recife/PE – 23 a 27 de novembro de 2026
PROFMAT: PARA ALÉM DAS CONTAS
As diretrizes para avaliação do PROFMAT no quadriênio 2025–2028
Por Fábio Xavier Penna (UNIRIO)
No dia 02 de maio, foi publicado o documento da área de Ciências e Humanidades para a Educação Básica, que apresenta as diretrizes que nortearão a avaliação e o acompanhamento dos programas de pós-graduação Prof/PROEB na quadrienal 2025-2028. O documento foi divulgado juntamente com a Ficha de Avaliação da Área, que lista os itens a serem avaliados, os indicadores considerados e os critérios qualitativos empregados. Os quesitos que estruturam a avaliação são: Programa, que contempla identidade, condições estruturais, planejamento estratégico e autoavaliação; Formação e Produção Intelectual, que avalia a qualidade das atividades de pesquisa e da produção docente e discente; e Impacto, que analisa a contribuição do Profmat para a sociedade e o potencial de inovação da produção. A seguir, cada um desses quesitos é detalhado.
No quesito Programa, destaca-se a importância da articulação entre as instituições associadas e a SBM, assegurando coerência e consistência entre as áreas de concentração do Profmat, as linhas de pesquisa, os projetos em andamento e a estrutura curricular. Nesse contexto, também é avaliada a infraestrutura disponível, incluindo recursos de informática, suporte administrativo e acadêmico, bibliotecas, acessibilidade dos espaços físicos para atividades de ensino e administração, além de materiais didáticos e recursos inclusivos. O processo de autoavaliação é considerado um critério essencial, evidenciando seu impacto no desenvolvimento do programa em relação às metas propostas para curto, médio e longo prazo.
No quesito Formação e Produção Intelectual, são apresentados critérios qualitativos para análise dos trabalhos desenvolvidos no âmbito do programa, incluindo dissertações, recursos educacionais, artigos científicos, entre outros. Esses trabalhos são avaliados quanto à sua adequação às áreas de concentração, linhas de pesquisa, projetos e objetivos do Profmat. Outro aspecto relevante é o acompanhamento do destino e da atuação dos egressos, com foco em estratégias para monitorar o impacto da formação recebida, especialmente na contribuição para a melhoria da Educação Básica. A qualidade das atividades de pesquisa e da produção intelectual do corpo docente é avaliada, incluindo o percentual de professores que contribuem com publicações e produções científicas alinhadas aos objetivos do programa. Adicionalmente, a qualidade da produção intelectual de discentes e egressos também é considerada, observando-se sua pertinência aos objetivos do Profmat e seu alinhamento com as áreas de concentração e linhas de pesquisa estabelecidas.
Por fim, o quesito Impacto considera critérios relacionados à inserção, visibilidade e popularização da Matemática. São avaliadas as ações dos docentes em âmbitos local, regional, nacional e internacional, levando em conta a participação em cargos de gestão, sociedades científicas, colaborações internacionais, organização de eventos, consultorias e editoriais de periódicos. Outro ponto central é a divulgação científica e tecnológica, destacando práticas que impactem a Educação Básica e comunidades locais. Além disso, a produção intelectual do Profmat — bibliográfica, técnica e tecnológica — é analisada quanto ao seu efeito transformador, inovação, abrangência, caráter estratégico e capacidade de compartilhamento do conhecimento, sempre em consonância com os objetivos do programa.
Os documentos de área estão disponíveis no site:
https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-ciencias-exatas-tecnologicas-e-multidisciplinar/multidisciplinar/ciencias-e-humanidades-para-a-educacao-basica
COLUNA ENSINO DA MATEMÁTICA
Por Cydara Cavedon Ripoll
Escrevem-nos hoje sobre pensamento combinatório no ensino de Matemática meus colegas de instituição Marilaine de Fraga Sant’Ana e Eduardo Henrique de Mattos Brietzke. Eduardo é professor aposentado, atualmente colaborador convidado do Programa de Pós-Graduação em Matemática da UFRGS, sendo combinatória e ensino de Matemática dois de seus temas de interesse. Marilaine é professora do Departamento de Matemática Pura e Aplicada da UFRGS, docente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Matemática da UFRGS, no qual muitas vezes ministra a disciplina de Combinatória.
Isso é arranjo ou combinação?
Essa pergunta nos faz refletir sobre como muitos estudantes concebem a “Análise Combinatória” e o quanto o tema parece desvinculado do ato cotidiano de contar.
O pensamento combinatório é exercido diariamente, sem perceber, a cada vez que contamos, agrupamos ou identificamos padrões. Faz parte do nosso dia a dia, em situações comuns, como quando escolhemos a roupa a vestir. Com 5 calças e 10 blusas, temos 50 diferentes possibilidades de uso em conjunto de uma calça e uma blusa.
Mas também se apresenta em situações mais sutis, como no exercício da leitura. Ao olharmos o conjunto de letras e espaços em branco “L_VR_”, é comum que pensemos na palavra LIVRO, mesmo que as vogais I e O não estejam escritas. Os espaços poderiam ser preenchidos com quaisquer duas das 5 vogais, inclusive repetindo-as, o que nos daria 25 possibilidades de palavras diferentes. O cérebro faz isso quando lemos, faz uma varredura das palavras que possui em fração de segundos. Por isso o pesquisador Ivan Izquierdo (1937–2021), um dos maiores estudiosos da memória do mundo, aconselhava a leitura como a melhor forma de exercitar a memória, a fim de preservá-la e evitar a demência.
A Combinatória é o estudo das configurações e agrupamentos diversos que podem ser criados a partir de conjuntos finitos. Ela inclui a contagem, a enumeração e a existência ou não de configurações com certas propriedades, como o problema das 7 pontes de Koenigsberg e os quadrados mágicos.
A primeira menção a técnicas combinatórias foi no antigo Egito, no Problema 79 do Papiro de Rhind, no século XVI AC. Na Índia, no século II AC, a obra Chanda Sutra considera o problema de contar o número de versos que podem ser formados com n palavras longas e m palavras curtas (que equivale a determinar os coeficientes binomiais). A Bhagavati Sutra, no século V, considera o problema de saber de quantas maneiras podemos combinar 2 a 2, 3 a 3, etc, 6 sabores (doce, picante, adstringente, ácido, salgado e amargo).
Alguns problemas de enumeração foram considerados na Grécia antiga, por exemplo, o número de possibilidades de certas combinações de sílabas.
A figura abaixo representa um hexagrama, uma permutação de seis linhas, podendo cada linha ser contínua ou interrompida. O I-Ching, antigo livro-oráculo chinês (século IX AC) considerava todos os possíveis hexagramas, que já se sabia serem exatamente .
Na Europa a Combinatória começou com Fibonacci no século XIII e tomou grande impulso com o estudo dos jogos de azar, influenciando e sendo influenciada pelo cálculo de probabilidades. Uma probabilidade pode ser obtida contando o número de eventos possíveis, o número de eventos favoráveis e fazendo o quociente. Durante o século XVI, os italianos Gerolamo Cardano (1501-1576) e Galileu Galilei (1564-1642) estudaram os jogos de azar. Por exemplo, Galileu mostrou que jogando três dados, o número 10 tem mais chance de aparecer do que o número 9. Dentre os 216 casos possíveis, encontrou que 27 são favoráveis ao número 10 enquanto que apenas 25 são favoráveis ao 9. A partir daí a Combinatória continuou a evoluir com vários grandes matemáticos, dentre eles Pascal, Fermat e Leibniz.
Mas, diante de uma história tão interessante, o que faz o entendimento de estudantes acerca da Combinatória se distanciar tanto da realidade, a ponto de sermos confrontados com a indagação inicial do texto? A resposta pode estar nas vivências escolares, que diversas vezes se pautam na manipulação de símbolos, de forma descolada de seus significados, confundindo as concepções e conceitos com as operações e fórmulas que deles decorrem.
As primeiras noções de Análise Combinatória são construídas ainda nos anos iniciais da escola básica (por exemplo, ao lidar-se com um dos significados da multiplicação), mas são conteúdos que demandam muito tempo para o aprendizado, ou seja, perpassam toda a formação básica, avançando aos poucos no sentido de generalizações e formalizações. Por outro lado, entendemos que uma abordagem apoiada em problemas variados pode enriquecer as conexões entre práticas da Combinatória e da realidade não matemática, contribuindo para um entendimento mais próximo das ideias e concepções do que do uso mecânico de fórmulas.
COLUNA DIVULGAÇÃO MATEMÁTICA
Olhares sobre olimpíadas científicas – Parte 3
Por Miriam Telichevesky
No texto do mês passado trouxe algumas reflexões sobre OBM e OBMEP, nossas olimpíadas com maior tradição, observando que a existência delas cria novas ações que promovam trocas. Prometi para o texto deste mês uma reflexão mais aprofundada sobre o alcance destas atividades.
Por que devemos nos preocupar com isso? Boa parte destas atividades é financiada com dinheiro público. A OBMEP tem recursos oriundos do MCTI e MEC, com apoio do CNPq e CAPES; a OBM tem contado com recursos do CNPq (peço desculpas se esqueci de alguma outra fonte pública de financiamento). E quando há recurso público envolvido, existe uma obrigação, a meu ver, de alcançar toda a população.
Há quem argumente que são olimpíadas (ou atividades a elas relacionadas) gratuitas, o que é evidentemente algo muito fundamental. Mas isso ainda está muito longe de representar um alcance universal. É desnecessário dizer que crianças ou jovens de diferentes situações socioeconômicas não estão em mesmas condições de estudo, aprendizado e perspectivas de futuro. É evidente também que isso não significa que seja impossível um jovem conseguir medalhas numa olimpíada apesar de ter muitas dificuldades econômicas – inclusive conheço pessoalmente alguns casos, que tornam de fato estas olimpíadas muito valiosas.
Mas algo não está certo, e preciso registrar. Para escrever essa sequência de textos, estudei um pouco do histórico recente da OBM e da OBMEP. Na lista de medalhistas da OBM de 2024, não há contemplados da Região Norte! Outro fato que salta aos olhos é que, embora a lista de medalhistas não explicite alguns recortes, como os dados socioeconômicos e raciais, podemos perceber a sub-representatividade feminina tanto na OBM quanto na OBMEP. Por que isso segue sendo propagado?
São indícios muito concretos que o público que vem sendo estimulado por treinamentos ou outros tipos de incentivo precisa de correções urgentes, caso contrário essas desigualdades persistirão, e isso não é mais uma opção!
A consolidação de Olimpíadas para o público feminino é um exemplo de iniciativa muito acertada para caminhar rumo à maior representatividade. O que mais podemos fazer, enquanto comunidade matemática, para reduzir outras desigualdades, rumando para um efetivo alcance das olimpíadas em todo o Brasil?
Sei que existem muitas ações com este enfoque, mas acredito que enquanto também existirem ações que são voltadas para públicos que já são por outros motivos os privilegiados, será mais difícil alcançar certas equidades. Por isso reforço aqui a minha preocupação com todo tipo de ação que, embora possa ser gratuita ou ter outro tipo de “universalidade” de acesso, acaba se concretizando em espaços historicamente excludentes. Quem acaba sofrendo com isso são sempre os mesmos grupos, e isso não é justo – repito! – quando estamos falando de uma finalidade (as olimpíadas) que são financiadas com dinheiro público.
COLUNA HISTÓRIA DA MATEMÁTICA
Joaquim Gomes de Souza – o Souzinha, e as histórias que contam sobre ele
Por Sérgio Nobre & Rachel Mariotto & Sabrina Bonfim
Sobre a vida e obra de Souzinha, muito se escreveu a partir da segunda metade do século XIX. Verbetes biográficos sobre ele aparecem no Diccionario Bibliographico Portuguez, de 1884 e no Diccionario Bibliographico Brazileiro de 1893. Cientistas brasileiros de destaque, como Oto de Alencar, Amoroso Costa, Theodoro Ramos e Luís Freire, dedicaram-se a análise de seus trabalhos, e teceram importantes informações a respeito [1]. Muitas histórias contadas no passado foram reproduzidas por autores que vieram a seguir, no entanto o papel do historiador requer a comprovação dos fatos com intuito de dar a necessária credibilidade.
Neste sentido, fomos atrás de alguns dessas histórias e apresentamos aqui algumas considerações:
1. Sobre os exames na Escola Militar: É fato que Souzinha solicitou realizar os exames de todas as disciplinas da Escola Militar, mas isso ocorreu em duas etapas: na primeira requereu se avaliado nas disciplinas do 2°, 3° e 4° anos, conforme a Ordem do dia da Escola Militar de 10/05/1847; o segundo documento trata da solicitação para os exames do 4°, 5°, 6° e 7° ano. Nesse documento, a Ordem do dia da Escola Militar de 01/04/1848, consta que Souzinha não foi aprovado plenamente no exame de generalidades do 3° ano, o que entra em conflito com a ideia de que ele teria conseguido ser aprovado facilmente em todas as disciplinas. É importante destacar que não ser “aprovado plenamente” havia retirado seu direito a prosseguir nos exames.
2. Sobre a formação em Medicina: É comprovado que Souzinha também ingressou no curso de medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mas que não chegou a completar esse curso, e não há registros de que tenha obtido esse título. Alguns autores dizem que Souzinha concluiu o curso de Medicina na Faculdade de Medicina de Paris, sendo residente do hospital Hôtel-Dieu. No entanto, a este respeito, recentemente, numa vasta consulta aos arquivos do Arquivo Nacional de Paris, que detém os arquivos dos acadêmicos que obtiveram a referida titulação na cidade, não foi encontrada nenhuma menção ao personagem em questão.
3. Sobre os trabalhos na Academia de Paris: Conforme apontado em na referência abaixo[2], Souzinha esteve na cidade de Paris no período de 16 de julho de 1855 a 2 de março de 1857. Este fato foi observado com base numa pesquisa realizada nas cartas enviadas por este a correspondentes da Academia de Ciências de Paris enquanto residia na cidade, Gomes de Souza intentou realizar a publicação de trabalhos de sua autoria no Comptes rendus desta Academia, entretanto, de fato, não obteve retorno dos pareceres e não teve nenhum trabalho lá publicado. O primeiro brasileiro a realizar este feito foi Amoroso Costa no ano de 1922
4. Sobre a publicação de seus trabalhos matemáticos: Consta nos arquivos da Editora Brockhaus, que se encontram na cidade de Leipzig, que D. Pedro II visitou a Editora com o intuito de que fossem publicadas obras de brasileiros naquela conceituada Editora. Desde 1857, Souzinha tentava a publicação de seu trabalho por essa editora, e apesar de ter conseguido tal feito, não foi a publicação de sua obra matemática. Os textos matemáticos de Souzinha precisaram do financiamento do governo brasileiro para serem impressos pela Editora Brockhaus. Trata-se de uma obra póstuma, impressa em 1882, sob o título “Melanges de Calcul Integral”.
5. Sobre a publicação da Editora Brockhaus: A obra de Souzinha que consta como produção editorial da Brockhaus é uma coletânea de Poesias, de 1859, com título “Anthologie Universelle – choix des melleures poésies lyriques de diverses nations”, uma brochura com número superior a 950 páginas, 491 poesias em 17 idiomas diferentes. Os idiomas das poesias são: alemão, inglês, francês, italiano, português, espanhol, russo, polonês, sérvio, boêmio, húngaro, holandês, dinamarquês, sueco, grego moderno, latim, grego antigo. O questionamento que se faz é onde Souzinha encontrou todas estas poesias e se ele conseguia ler e entender todos estes idiomas. Sobre os idiomas que ele falava, um de seus biógrafos comenta: “encontramos registros do seu completo domínio” para: Português, Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão e Latim. Possivelmente também para o grego, pois era “comum entre os intelectuais maranhenses”. No prefácio desta obra, feito por Charles Henry, ele comenta: “Supõe-se, ainda que o sábio brasileiro não podia nem compreender nem apreciar, por si só, as obras primas de tantas línguas; recorreu a competentes colaboradores”.
6. Sobre outros trabalhos: Foi apontado por alguns de seus biógrafos que Souzinha teria escrito memórias sobre uma obra de ciências da natureza. Souzinha já tinha iniciado a escrita, e logo sairia para publicação. No entanto não há notícias sobre esse trabalho – aparece no Dicionário Bibliográfico Brazileiro. Como percebemos, são muitas as histórias que se contam sobre o Souzinha, algumas já compreendidas e outras que ainda precisam de maiores investigações. Entre os “fatos e boatos”, a certeza é que Joaquim Gomes de Souza teve destaque na época em que realizou seus estudos e, assim, conseguiu escrever seu nome na história da matemática brasileira.

JOAQUIM Gomes de Souza. [S.l.: s.n.]. 1 reprod., p&b, 9,7×10,3cm, colado em papel 15×10,4cm. Localização: Biblioteca Nacional – Iconografia – Ret.1 (1) Gomes de Souza, Joaquim, 1829-1864
Obras de Referência:
Bonfim, Sabrina Helena. Um olhar histórico acerca das publicações de brasileiros no Comptes Rendus da Academia de Ciências de Paris até 1930. In Revista Brasileira de História da Matemática. Vol. 25, Nr. 50. Pág. 34-71. 2025.
Mariotto, Rachel. Um estudo sobre o processo que desencadeou o doutoramento de Joaquim Gomes de Sousa (1829-1864) e alguns apontamentos sobre sua tese. Dissertação de Doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática – UNESP. 2019
[1] Veja-se em Castro, Francisco M. de Oliveira: A Matemática no Brasil. In Azevedo, Fernando: As Ciências no Brasil. Editora UFRJ. 1994. (primeira edição publicada em 1955)
[2] Bonfim, Sabrina. 2025
COLUNA ENSINO UNIVERSITÁRIO DA MATEMÁTICA
Em busca do encantamento
Por Carlos Tomei e Ricardo Miranda Martins
Em tempos de superexposição digital, em que celulares competem com lousas pela atenção dos alunos¹, o professor de matemática (em qualquer nível!) enfrenta o desafio de sempre: provocar o sentimento de surpresa, de maravilhamento, um dos motores da curiosidade científica e do desenvolvimento da matemática.
Como retomar nos alunos o encantamento despertado por uma demonstração elegante, por uma aplicação inesperada, pela conexão entre ideias aparentemente distantes? Muitos de nós nos apaixonamos pela matemática justamente por esses momentos: quando percebemos que o conjunto dos números primos, tão simples de definir, abriga muitos mistérios; ou quando um pequeno conjunto de regras simples leva a órbitas planetárias elípticas. Quem já se encantou com algum desses exemplos sabe do que estamos falando: a prova da irracionalidade da raiz quadrada de 2, a beleza do Teorema de Euler (qualquer um deles, mas especificamente a relação entre faces, arestas e vértices de poliedros), o fato que integração leva da interação gravitacional entre partículas àquela entre astros.
Essa experiência é insubstituível, e não deve ser tratada como luxo periférico no ensino. Para nós, é urgente recolocar a motivação intrínseca no centro do processo formativo. E não se trata de tornar tudo divertido ou fácil, mas de dar sentido ao esforço. É questão de mostrar aos alunos que vale a pena escalar a montanha porque a vista do topo é, de fato, deslumbrante.
Talvez o problema seja a falta de magos, não de magia, mas vamos deixar isso de lado agora. Aqui vão duas opiniões sobre o assunto, mais próximas de nós do que o desencanto weberiano². Uma mestranda (não de exatas) sugeriu que é difícil encantar-se ao imaginar que a tradição legou às novas gerações um mundo tão problematizado. Outra sugeriu que o encantamento só está no futuro: as coisas sabidas, disponíveis, não são mais fonte de maravilhamento. A experiência em sala de aula corrobora a segunda opinião quase diariamente: por que se surpreender com Newton condensando o mundo se a IA responde os deveres de casa?
Encantamento implica motivação, mas são duas coisas diferentes, e aqui estamos tratando da questão mais difícil. Seria ótimo acreditar que a onipresença da matemática deveria ser causa definitiva de surpresa³, mas parece que isso não basta mais. De novo, se uma máquina pode desempenhar tão bem quanto um aluno bom por quê se surpreender com esse conteúdo? Pior, uma democratização da ciência é esperada e desejada: no século XVII poucos derivavam.
Talvez ciência já não surpreenda tanto. Novos fatos se acumulam – a energia escura, o CRISPR – e nossos colegas de várias áreas já estão criando uma imunidade que beira o desconhecimento da própria atividade científica. Ninguém percebe que a vida digital precisa de mecânica quântica4, ou que GPS faz correções relativísticas. Em particular, entre matemáticos não temos às vezes a consciência de que podemos montar uma ciência tentando fixar pontos de partida (p’ = v, v’ = a, f = ma) ou emulando material experimental (epiciclos, Taylor, redes neurais). O que você, leitor acha, as duas posturas têm o mesmo potencial de maravilhamento?
Ou ainda pior: ciência pode ser maravilhosa, mas os problemas ambientais, sociais, estão aí de qualquer forma. O próprio conhecimento é posto em dúvida, uma falsa magia mantendo ocupada gente que podia estar fazendo algo mais relevante. Hardy achava que matemática era um prazer estético – e se nós humanos começarmos a achar em grande escala o mesmo de ciência de vanguarda?
Enfim, cabe a nós assumir um papel de “curadores de experiências matemáticas significativas”. É o momento de trocar ideias sobre as experiências e exemplos que empregamos em nossos cursos. Atividades em classe, com um emprego do tempo completamente diverso da aula formal, podem aumentar a interação com a surpresa. Como tantos outros gostos adquiridos, pequenos encantamentos – com o assunto, com descobertas pessoais – são passos de um caminho mais longo5.
Quem sabe sejamos responsáveis entre alguns de nós por um dos momentos emocionantes de nossa vida intelectual. Depois de anos de trabalho, temos a sorte de resolver um problema e, ainda num estado de estupor, falamos internamente, ’eu nunca teria pensado isso’. Para logo depois se perguntar, ’mas então, quem pensou?’. Isso fica para outra coluna, claro. A partir deste mês, nossa coluna estará também no Instagram. Venha interagir conosco por lá também: @ensino_universitario_de_mat
2 https://pt.wikipedia.org/wiki/Desencantamento_do_mundo
3 Um marco é http://webhomes.maths.ed.ac.uk/~v1ranick/papers/wigner.pdf; de maneira mais geral, considere
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Unreasonable_Effectiveness_of_Mathematics_in_the_Natural_Sciences.
4 … e da definição de poder computacional. É impressionante que a gente discuta a impossibilidade de dividir um ângulo em
três partes com régua e compasso, mas não se fala do problema da parada.
5 https://www.ams.org/journals/notices/201110/rtx111001436p.pdf