Realizado em Luís Correia, evento reuniu pesquisadores e estudantes dos dois países em programação científica e atividades de integração no litoral piauiense

Durante seis dias, o litoral do Piauí se transformou em ponto de encontro entre as comunidades matemáticas de Brasil e China. Realizado entre 9 e 14 de agosto, em Luís Correia, o 3º Encontro Conjunto Brasil-China em Matemática reuniu cerca de 130 participantes — aproximadamente 35 deles chineses — em uma programação dedicada à pesquisa, ao intercâmbio científico e à criação de novas conexões entre os dois países.
Promovido pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), pela Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) e pela Sociedade Chinesa de Matemática, o encontro chegou ao Piauí depois de edições realizadas em Foz do Iguaçu, em 2024, e na China, em 2025. Pela primeira vez, a conferência deixou os grandes centros e chegou ao litoral piauiense.

Para Carlile Lavor, professor da Unicamp, membro do Conselho Diretor da SBM e do Conselho da SBMAC e um dos responsáveis pela organização, a escolha representa um dos principais legados desta edição. “Estamos aqui em pleno litoral piauiense, pela primeira vez fora de um grande centro. Eu acho que isso é fundamental, porque a ciência tem que ser para todos. Estamos dando oportunidade a muitos alunos que nunca viram um evento dessa natureza, até colegas professores”, afirma.
Cooperação que começa a produzir resultados
Mais do que aproximar institucionalmente Brasil e China, a terceira edição encontrou uma relação científica mais madura do que aquela observada nos primeiros encontros. Projetos conjuntos, visitas de pesquisadores e intercâmbios de estudantes já aparecem entre os resultados da aproximação construída nos últimos anos.
Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita acompanhou esse processo desde as primeiras edições. Para ela, a mudança pode ser percebida na própria comunidade científica envolvida na iniciativa. “A gente tem visto muito mais cooperação entre os brasileiros e o pessoal da China em várias questões, na questão de projetos. Vários brasileiros já foram muitas vezes para a China, coisa que a gente não tinha antes. Agora a gente já vê que muitos brasileiros têm esse contato mais estabelecido”, explica.

A avaliação encontra eco do outro lado da parceria. Presidente da Sociedade Chinesa de Matemática, Xi Nanhua ressalta que as duas comunidades científicas avançaram significativamente nas últimas décadas, mas que a relação bilateral ainda tem espaço para acompanhar esse crescimento.
“Antes, tínhamos um foco maior nas relações com os países ocidentais, mas agora percebemos que China e Brasil podem fazer muito mais juntos. Há um grande potencial de desenvolvimento e, com nossos esforços, podemos levar essa cooperação a um nível muito alto”, afirma.
Segundo Xi, uma aproximação mais intensa poderá produzir impactos na pesquisa, na educação e na formação de novos pesquisadores nos dois países. O presidente da Sociedade Chinesa de Matemática também identifica uma evolução entre as edições do encontro. “Com cada edição, nós nos entendemos melhor e encontramos mais conteúdo e oportunidades para a cooperação. A Matemática dos dois países tem muito a ganhar com isso.”

Um exemplo concreto dessa circulação estava entre os próprios participantes. Yuwei Hu, estudante chinesa de doutorado na Unicamp, vive no Brasil há cerca de um ano e meio e desenvolve pesquisa em problemas de fronteira livre. “Quando participo de uma sessão, posso aprender ideias de outras pessoas e, quando compartilho minha pesquisa, outras pessoas também podem me dar sugestões. Isso me ajuda muito”, conta.
A construção dessas relações está diretamente ligada à missão da SBMAC, segundo seu vice-presidente, Luiz-Rafael Santos. “A gente já tem alguns pesquisadores que têm trabalhos em conjunto com a China. Isso vem aumentando e a gente tem certeza que é por conta desses eventos que a gente tem feito”, afirma.

Para ele, as conferências cumprem um papel difícil de substituir por contatos exclusivamente à distância. “Não é só importante para divulgar o que você está fazendo, mas para conhecer novas pessoas. Você consegue fazer essa integração que, às vezes, ficava só em você ler o artigo de alguém. Aqui você encontra a pessoa, conversa e percebe o que pode aplicar no que está fazendo.”
Matemática pura, aplicada e computacional
A programação científica ocupou cinco dias e percorreu diferentes campos da Matemática pura, aplicada e computacional. Foram realizadas oito plenárias, além de sessões temáticas, apresentações de pôsteres e uma mesa-redonda no último dia. Entre os assuntos debatidos estiveram geometria, sistemas dinâmicos, matemática para a indústria, otimização, equações diferenciais, álgebra e aplicações em diferentes campos do conhecimento. A própria estrutura das sessões foi pensada para estimular a colaboração entre os países: as propostas eram construídas conjuntamente por pesquisadores ligados ao Brasil e à China.
Coordenador local do encontro e professor da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), Paulo Santos destaca que esse formato fez com que muitos dos participantes já chegassem ao Piauí compartilhando interesses científicos. “As sessões orais e as palestras só podiam ser propostas por um pesquisador chinês e um brasileiro em conjunto. Isso, de certa forma, fez com que o evento fosse um evento de colaboradores, de pessoas que já estabeleciam vínculos de pesquisa anteriormente”, explica.

Para o professor Nelson Maculan, ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-conselheiro da SBMAC, essa circulação internacional de conhecimento é parte indissociável da atividade científica. “Não existe ciência de um país. Hoje nós estamos em um mundo em que todo mundo tem contato com todo mundo. É importante ver como eles trabalham lá, como é a pesquisa, o que têm feito”, afirma.

Aos 83 anos, Maculan também destacou a oportunidade de continuar aprendendo com diferentes gerações. “Eu aprendi muito aqui nesses dias. Estou gostando muito das apresentações de alto nível, tanto dos brasileiros como dos estrangeiros. Acho muito importante para a Matemática brasileira.”
Um encontro internacional no litoral do Piauí
Além da dimensão científica internacional, a realização em Luís Correia aproximou pesquisadores de referência de estudantes, professores e instituições do Piauí. Para Paulo Santos, a experiência começou a ser construída ainda em 2025, com reuniões entre a organização local, representantes das sociedades científicas e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI). “Foi uma experiência muito gratificante, enriquecedora. Foram muitas reuniões, muitos acertos, muitos ajustes para que a gente pudesse ter um evento satisfatório para todos”, recorda.
O resultado, segundo o professor, ultrapassa a realização da própria conferência. “Os alunos tiveram várias experiências de interação com pesquisadores de Matemática da China e grandes pesquisadores brasileiros. Isso fez com que percebessem a diversidade e a riqueza que é a Matemática, tanto pura como aplicada.”
Entre os desdobramentos institucionais está a associação da Universidade Federal do Delta do Parnaíba à SBM, movimento que, na avaliação do coordenador, poderá ampliar a participação dos estudantes da instituição nas atividades da Sociedade. “Foi um evento com um número razoável de pessoas, mas de grandes proporções no seu desdobramento”, resume Paulo.
A presença de representantes de universidades piauienses e de instituições chinesas também colocou o encontro em um contexto mais amplo de internacionalização científica. Reitor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Paulo Henrique Pinheiro destacou que a aproximação internacional já vem produzindo iniciativas dentro da universidade. “Se a gente for pensar no tripé ensino, pesquisa e extensão, esse evento é muito importante para a Universidade Estadual do Piauí, porque permite a aproximação de professores, pesquisadores e estudantes do Piauí com a China”, afirma.
Ciência também se constrói fora das salas
Uma das particularidades desta terceira edição foi a atenção dedicada aos momentos de convivência. Antes do início das atividades acadêmicas, mais de uma centena de participantes fizeram um passeio de barco pelo Rio Parnaíba e pelo Delta. Durante a semana, apresentações culturais, refeições e o jantar da conferência criaram novos espaços de contato entre brasileiros e chineses.
Para Carlile, essas atividades tiveram um objetivo que ia além do lazer: reduzir barreiras linguísticas e culturais entre grupos que precisam se conhecer para desenvolver projetos conjuntamente. “Esse é um evento entre Brasil e China. É um evento com características bem diferentes de um evento científico”, observa. “Nós tivemos um passeio de barco com mais de 100 pessoas, em torno de 35 chineses, pelo Rio Parnaíba até o Delta. Foi simplesmente fantástico.”

A programação social incluiu ainda uma atividade voltada à cultura brasileira e um jantar preparado com apoio do Instituto Confúcio da Unicamp. A importância dessa convivência ficou evidente também entre os estudantes.
Em seu primeiro congresso como acadêmico de Matemática, Miguel Corrêa, aluno do Bacharelado em Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), encontrou no Piauí a oportunidade de apresentar seu trabalho e conversar diretamente com pesquisadores mais experientes. “É uma oportunidade de conhecer novas pessoas, criar contatos para uma futura pós-graduação e coisas nesse sentido. As atividades de socialização com os outros participantes também são muito proveitosas”, afirma.
Segundo Miguel, estar cercado por pesquisadores em diferentes etapas da carreira também ajudou a ampliar sua percepção sobre as possibilidades abertas pela Matemática. “Ver pessoas que estão sempre um tanto quanto à frente, pessoas que já têm mais experiência, é sempre motivador no sentido de ver quanta coisa ainda pode ser feita.”
Próximos capítulos
Ao final da terceira edição, a expectativa das sociedades organizadoras é transformar os contatos estabelecidos em novas pesquisas, intercâmbios e iniciativas permanentes entre os países. Jaqueline Mesquita adianta que as discussões já avançam para novos projetos. Entre eles estão uma nova edição do encontro na China e debates sobre estruturas permanentes de cooperação envolvendo China e América Latina. “Estamos com muitos projetos ambiciosos com a China. A gente pretende organizar no ano que vem mais um evento Brasil-China, agora na China, e estamos com várias ideias, inclusive discussões sobre construção de centros China-América Latina”, conta.

Do lado chinês, Xi Nanhua também vê a continuidade dos encontros como parte importante desse processo. Para ele, quanto maior o conhecimento entre as duas comunidades científicas, maiores são as possibilidades de identificar pesquisas, problemas e projetos que possam ser desenvolvidos conjuntamente. Se a primeira edição abriu portas e as seguintes ampliaram a circulação entre os dois países, a passagem pelo Delta do Parnaíba mostrou uma parceria que começa a ultrapassar os encontros formais e ganhar forma em projetos, viagens, formação de estudantes e relações pessoais.
Para Carlile, garantir continuidade é justamente o próximo desafio. “A relação com a China é mais do que estratégica. Acho que estamos dando um passo importante nesse evento. A ideia é fortalecer esse encontro e fazer com que ele aconteça sempre.”