Evento realizado na UFRN reuniu pesquisadores, professores, estudantes e entusiastas da Matemática em cinco dias de atividades e intercâmbio de experiências

Apesar de o inverno ainda ser a estação vigente no hemisfério sul, foi o sol e o calor das terras potiguares que deram o tom da XII Bienal de Matemática. Realizado pela primeira vez em Natal e, pela quinta vez, no Nordeste, o principal evento da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) reuniu, entre os dias 3 e 7 de agosto, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mais de 1.500 participantes em uma programação marcada pela diversidade de atividades e de temas.
Em uma edição recorde, a Bienal contou com mais de 130 minicursos, cerca de 80 oficinas e mais de uma centena de apresentações orais, entre mesas-redondas, workshops, palestras e 15 sessões plenárias com nomes de referência da Matemática brasileira. Ao longo de cinco dias, salas, auditórios e espaços da UFRN se transformaram em pontos de encontro para o compartilhamento de conhecimento, a troca de experiências e a discussão dos diferentes caminhos que a Matemática percorre dentro e fora da universidade.

A capital potiguar já havia apresentado propostas em edições anteriores e estava no radar da SBM para sediar o evento. “Estávamos muito animados com a possibilidade de trazer o evento novamente para a região”, conta Jaqueline Mesquita, Presidente da SBM.
Grandes referências da Matemática brasileira
A XII Bienal colocou em evidência a diversidade de temas, áreas e perspectivas que compõem a Matemática brasileira. As palestras e plenárias percorreram diferentes campos da pesquisa e do ensino, criando espaços não apenas para a apresentação de resultados, mas também para o encontro entre experiências e gerações distintas de matemáticos, professores e estudantes.

Um exemplo foi a participação de Suely Druck, associada honorária da SBM e Presidente da Sociedade entre 2001 e 2005 – a segunda mulher a ocupar o cargo. Durante sua gestão, o Brasil avançou do nível 3 para o nível 4 no ranking da União Matemática Internacional (IMU, na sigla em inglês), e concebeu a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), uma das iniciativas de maior impacto na educação matemática brasileira.
Suely, que foi professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), conduziu uma sessão plenária sobre pensamento matemático no Ensino Médio, abordando a trajetória e os impactos da OBMEP. A docente aposentada também discutiu os desafios para a redução das desigualdades de gênero na Matemática.
Para Suely, a importância da Bienal está justamente na possibilidade de aproximar diferentes dimensões da Matemática e promover a circulação de conhecimentos e experiências. “A Bienal ajuda a divulgar as várias áreas da Matemática e apresenta o trabalho de pessoas seriamente envolvidas com essa questão no país. Eu acho isso muito importante, principalmente, para os professores. É um local que eles aprendem, contam o que fazem, veem outras experiências. Culturalmente e cientificamente, ela é bem importante para o ensino da Matemática nas escolas”, destaca.
Cooperação e ação
Outro destaque do evento foi a formalização de um acordo de cooperação entre a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), a Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), a Sociedade Brasileira de História da Matemática (SBHMat) e a Associação Nacional dos Professores de Matemática na Educação Básica (ANPMat).

A parceria prevê benefícios para os associados, como redução na anuidade das entidades participantes: quem já é associado a uma das sociedades poderá obter desconto ao se associar às demais. O benefício também será estendido às inscrições em eventos promovidos pelas instituições. “Esse acordo vai permitir que as diretorias dessas sociedades possam pensar em ações conjuntas que poderão trazer benefícios para o desenvolvimento da pesquisa e para uma melhor divulgação dos trabalhos produzidos no âmbito dessas sociedades”, diz Mariana Cavalari, Presidente da SBHMat.
Diálogo e novos aprendizados
A diversidade da agenda também se refletiu nas oficinas, atividades mais práticas e participativas, onde os inscritos puderam conhecer metodologias, compartilhar conhecimentos e levar para a Bienal experiências desenvolvidas em seus próprios projetos e instituições. Douglas Speck, licenciando em Matemática e integrante da comissão organizadora da Olimpíada de Matemática da Unicamp (OMU), competição nacional com mais de quatro décadas de história, ministrou uma oficina dedicada à metodologia de elaboração de problemas para provas de olimpíadas. “A gente conseguiu atrair várias pessoas interessadas. Foi muito legal compartilhar essa experiência e receber um feedback sobre a forma como estamos produzindo nossas questões. Foi uma troca muito bacana para os dois lados”, explica.

Para muitos participantes, o evento representou a oportunidade de colocar suas pesquisas e práticas em debate com outros profissionais, receber sugestões e voltar para casa com novas ideias para aprimorar o que já vinha sendo desenvolvido.
Mestranda do PROFMAT, Larissa Amaral viajou de Santa Catarina para apresentar sua pesquisa na Bienal. Para ela, foi uma oportunidade de receber feedback de outros pesquisadores. “Isso agregou muito para mim, porque eu já tenho várias coisas para mudar no meu trabalho a partir das experiências de outras pessoas, dos comentários que eles fizeram. A gente vai incorporando essas ideias e fazendo mudanças”, conta.

Os participantes também puderam acompanhar palestras de vencedores de importantes premiações, como Yuri Lima (USP), vencedor do Prêmio SBM, e Rudini Sampaio (UFC), um dos vencedores do Prêmio Elon Lages Lima. A programação contou ainda com a participação de Eduardo Colli, representando a Matemateca, projeto do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP), vencedor da primeira edição do Prêmio de Divulgação Matemática da SBM.
Gênero, diversidade e representatividade em pauta
Durante o evento, foi realizado o terceiro encontro do Programa de Mentoria para Mulheres, voltada ao apoio profissional e pessoal de jovens pesquisadoras nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). A iniciativa da SBM em parceria com a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e a Sociedade Brasileira de Física (SBF) foi responsável por debater temas como assédio e racismo, ampliando o espaço de diálogo sobre inclusão, permanência e diversidade nas instituições acadêmicas.

A professora Luciana Elias, da Universidade Federal de Jataí (UFJ), que conduziu uma palestra sobre letramento racial, destacou a necessidade de ir além de garantir o acesso de grupos historicamente excluídos, oferecendo condições para que essas pessoas permaneçam nesses espaços com segurança e acolhimento. “Discutir racismo e letramento racial dentro das instituições de ensino, pesquisa e extensão é muito importante. Nós temos leis de ingresso e inclusão, mas a permanência nem sempre é confortável. Ela é frequentemente marcada por violências e microviolências que, muitas vezes, as pessoas não têm interesse em reconhecer ou entender que estão cometendo. E a própria pessoa preta ou não branca sofre e se sente acuada, porque não há espaço para ser acolhida dentro das suas demandas”, afirma Luciana.

Para a professora, o Programa de Mentorias desempenha um papel fundamental justamente por criar espaços de escuta e fortalecimento de vínculos. “Eu acho que o acolhimento é muito importante. Primeiro, porque nós seremos acolhidas, depois, porque formaremos pessoas acolhedoras”, completa.
Uma Bienal para todas as idades
Enquanto os adultos participavam da programação da XII Bienal da SBM, os pequenos também tiveram uma agenda especial pensada para eles. A Bienalzinha, realizada simultaneamente ao evento no Laboratório de Ensino de Matemática da UFRN, ofereceu uma programação lúdica e educativa para os filhos dos participantes.
Ao longo da semana, as crianças participaram de atividades com jogos matemáticos, conteúdos de geometria e tópicos da disciplina. Para Débora Borges, professora da UFRN e mediadora das atividades da Bienalzinha, conhecer a história da Matemática também é uma forma de explorar diferentes conceitos e conexões. “Quando estudamos a história de Hipátia, por exemplo, percorremos também as curvas cônicas, a geometria e um pouco de álgebra. A partir de uma história, conseguimos trabalhar diferentes conceitos matemáticos”, explica.

Embora criança, Marcel Alcântara, de 10 anos, veio à Bienal não como filho de um participante, mas para apresentar um pôster. O brasiliense falou sobre uma propriedade matemática que despertou sua curiosidade. A partir da operação de elevar um número ao quadrado e, em seguida, somar seus algarismos, Marcel identificou um comportamento cíclico: partindo de 13, chega-se a 16 e, a partir de 16, retorna-se a 13. Ele também observou que, ao repetir o procedimento, os resultados podem convergir para esse ciclo ou para os pontos fixos 1 e 9.
Mesmo não sendo inédita, a descoberta chamou atenção pelo olhar investigativo de Marcel. “Eu fico muito feliz de ele estar tendo essa oportunidade. Ele viu vários pôsteres, teve oportunidade de conversar com vários matemáticos e entender o que outras pessoas estavam fazendo. É muito importante que a criança tenha acesso a isso. A gente se sente realmente privilegiado dele poder estar aqui”, comenta a mãe do estudante, Glacy Calassa.
Legado
Ao encerrar sua passagem por Natal, a XII Bienal deixa também o legado das conexões construídas ao longo da semana. Para Carlos Gomes, professor da UFRN e coordenador do evento, esse impacto ultrapassa os limites da própria programação e pode se prolongar em novas parcerias, pesquisas e encontros. “A Bienal, por onde passa, deixa um impacto gigantesco. Particularmente para nós aqui no Nordeste, ela vai favorecer a formação de novas conexões com centros de pesquisa no Brasil e com novos eventos que a Sociedade Brasileira de Matemática promove. Eu costumo dizer que ela contamina positivamente as pessoas, capturando aqueles que têm simpatia pela Matemática a participar dos próximos eventos. Foi um prazer para nós receber a Bienal”, conclui.