Artigo publicado no Journal of the European Mathematical Society recebeu reconhecimento da Sociedade Brasileira de Matemática; premiação ocorreu durante a XII Bienal de Matemática, em Natal

Os matemáticos Yuri Lima, da Universidade de São Paulo (USP), e Maurício Poletti, da Universidade Federal do Ceará (UFC), são os vencedores do Prêmio SBM 2026, concedido pela Sociedade Brasileira de Matemática ao melhor artigo original de pesquisa em Matemática publicado recentemente por jovem pesquisador residente no Brasil. O anúncio e a premiação fizeram parte da XII Bienal de Matemática da SBM, realizada entre 3 e 7 de agosto, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal.
O trabalho reconhecido, Measures of maximal entropy for non-uniformly hyperbolic maps, foi publicado em janeiro deste ano no Journal of the European Mathematical Society (JEMS), um dos principais periódicos internacionais da área. Além de Lima e Poletti, o artigo é assinado por Davi Obata, atualmente professor da Brigham Young University, nos Estados Unidos.
A pesquisa está inserida na área de sistemas dinâmicos e investiga as chamadas medidas de máxima entropia. De maneira simplificada, essas medidas permitem descrever, em termos probabilísticos, os comportamentos de maior complexidade de um sistema dinâmico ao longo do tempo. No artigo, os pesquisadores demonstram resultados de unicidade dessas medidas em classes de sistemas não uniformemente hiperbólicos e aplicam a teoria a diferentes contextos matemáticos.
Uma colaboração construída ao longo dos anos
O artigo premiado é resultado de uma trajetória de colaboração que começou anos antes de sua publicação. Lima e Poletti se conheceram durante o período de formação no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Mais tarde, após Poletti realizar pós-doutorado na França, os dois voltaram a trabalhar juntos quando Lima ainda era professor da UFC.
“Eu fui visitar o Yuri, que estava começando o grupo de sistemas dinâmicos lá, e a gente começou a discutir algumas ideias”, recorda Poletti. Dessa aproximação surgiu inicialmente outro trabalho, desenvolvido em colaboração com Ermerson Araujo, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que posteriormente serviria de base para avanços seguintes.
Parte importante dessa etapa ocorreu durante a pandemia. Segundo Lima, os pesquisadores aproveitaram aquele período para aprofundar ferramentas que imaginavam que poderiam ter aplicações futuras. A oportunidade surgiu quando um trabalho de Jérôme Buzzi, Sylvain Crovisier e Omri Sarig, publicado no Annals of Mathematics, apresentou novas técnicas relacionadas ao mesmo campo de investigação.
“A gente trabalhou bastante durante a pandemia. Esse primeiro artigo já era visando aplicações futuras que a gente sabia que iam aparecer. Quando esse outro trabalho saiu, rapidamente vimos o que precisávamos fazer para unir a nova técnica deles com a técnica que a gente tinha criado um ano antes”, explica Lima.
Foi nesse momento que Davi Obata passou a integrar o projeto. A colaboração também ganhou caráter internacional, com encontros e intercâmbios entre pesquisadores no Brasil, na França e nos Estados Unidos. Poletti lembra que ele e Obata já haviam coincidido durante períodos de pesquisa na França e mantinham trabalhos em conjunto. Depois, as discussões prosseguiram à distância e também em visitas acadêmicas.
O regulamento do Prêmio SBM prevê que o reconhecimento pode ser concedido a um ou mais autores do artigo vencedor que preencham os requisitos de elegibilidade. Coautores que não se enquadrem nesses critérios não são contemplados, mas devem ser mencionados no anúncio da premiação.
Ao falar sobre a conquista, Lima fez questão de dividir os méritos com Obata. “Fica também um agradecimento especial ao Davi Obata, que, por razões de regulamento, não pôde ganhar o prêmio, mas é como se tivesse ganhado”, afirmou.
“Um misto de surpresa com felicidade”

Mesmo sabendo que o trabalho estava concorrendo, os dois pesquisadores contam que receberam o resultado com surpresa. Lima lembra que, com a demora até a divulgação, chegou a considerar que a candidatura poderia não ter sido escolhida.
“Você tem uma esperança, mas essa esperança fica adormecida, até porque não sabe quando vai sair o resultado. […] Deu certo, e então é um misto de surpresa com felicidade”, conta. A primeira reação, segundo ele, foi procurar o colega: “A primeira coisa que eu fiz foi mandar uma mensagem para o Maurício perguntando se ele tinha visto o e-mail dele”.
Poletti também destaca o impacto do reconhecimento. “Fiquei bem feliz, bem orgulhoso de ter conseguido esse prêmio”, afirma.
Além do reconhecimento individual, os pesquisadores enxergam a premiação como uma forma de ampliar a visibilidade dos grupos de pesquisa envolvidos e fortalecer a circulação de estudantes e pesquisadores entre diferentes universidades brasileiras.
Para Lima, que mantém uma relação de longa data com a UFC — onde foi aluno de graduação e mestrado e atuou como professor durante oito anos —, a conquista também ajuda a aproximar ainda mais as duas instituições. “Tenho muito interesse em fomentar justamente essa ponte entre a USP e a UFC, que é a universidade que me recebeu. Fui aluno de graduação, aluno de mestrado, depois professor por oito anos e mantenho os laços muito fortes”, afirma.
Poletti ressalta especialmente a projeção proporcionada ao grupo de Matemática da universidade cearense. “Acho que dá um destaque bem grande, especialmente sendo uma universidade do Nordeste. […] Isso ajuda a dar visibilidade e potencializar o grupo”, diz.
Prêmio passa a ser bienal
Criado para reconhecer trabalhos de destaque produzidos por jovens pesquisadores vinculados a instituições brasileiras, o Prêmio SBM avalia as candidaturas segundo critérios de originalidade, relevância, profundidade e potencial de impacto no desenvolvimento da área. A partir de 2026, a premiação passa a ser realizada a cada dois anos, coincidindo com as edições da Bienal de Matemática.
Nesta edição, o prêmio consiste em diploma, R$ 10 mil em premiação, divididos entre os autores contemplados quando há mais de um vencedor, e convite para apresentação de palestra na Bienal. A comissão julgadora de 2026 foi formada por Bernardo Uribe, da Universidad del Norte, na Colômbia; Jean Paul Brasselet, do Institut de Mathématique de Marseille, na França; Liliana Forzani, da Universidad Nacional del Litoral, na Argentina; Fabio Armando Tal, da USP; e Daniel Pellegrino, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e vice-presidente da SBM, responsável pela presidência da comissão.
Para os vencedores, receber o reconhecimento justamente durante a Bienal tornou a conquista ainda mais significativa. Tanto Lima quanto Poletti participavam pela primeira vez do evento. “Estou positivamente surpreso com a grandiosidade que este evento tem, com as pessoas muito engajadas. É um grande prazer receber esse prêmio em um evento tão importante para a matemática brasileira”, afirma Lima.

Poletti destaca a diversidade da programação, que reúne públicos e diferentes dimensões da Matemática. “É um evento grande, que mistura vários níveis e áreas da Matemática. Tem ensino, projetos, olimpíadas, parte universitária, pesquisa e divulgação. É um evento bem diverso, que mostra a Matemática de um jeito global”, conclui.