Brasil alcança melhor desempenho histórico e conquista ouro em competição internacional feminina de matemática

Na 15ª edição da EGMO, a equipe brasileira ficou na 15ª colocação entre 67 países participantes; a estudante Julia Leguiza garantiu o ouro para o país

Da esquerda para a direita estão Bilhana Plamenova, vice-líder da equipe, seguida das quatro competidoras, Maria Cecília de Melo, Julia Leguiza, Maria Clara Fontes Silva e Heloísa Mysczak | Foto: Reprodução site OBM 

Rompendo marcos históricos e consolidando o protagonismo feminino na matemática, a delegação brasileira alcançou o 15º lugar entre 67 países participantes da European Girls’ Mathematical Olympiad (EGMO), realizada em abril de 2026 na cidade de Bordeaux, França. O resultado da 15ª edição representou o melhor desempenho do Brasil na competição em termos de posição relativa, ou seja, considerando o total de nações participantes. 

Criada em 2012, a EGMO é uma das principais competições internacionais de matemática voltada exclusivamente para meninas e reúne, anualmente, estudantes do mundo inteiro. Na edição de 2026, a olimpíada contou com cerca de 250 competidoras. 

O destaque da equipe brasileira ficou com a cearense Julia Leguiza, de 17 anos, que conquistou a medalha de ouro, garantindo a melhor colocação entre países do continente latino-americano. A delegação também contou com Maria Clara Fontes Silva, de Sergipe, medalhista de prata; Heloísa Mysczak, de São Paulo, medalhista de bronze; e Maria Cecília Ribeiro Pereira de Melo, de Pernambuco, que recebeu menção honrosa.

O grupo foi liderado por Ana Paula Chaves, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), tendo como vice-líder a estudante Bilhana Plamenova Kochloukova. Ana Paula também integra a Comissão Nacional da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e as Comissões Gestora e Acadêmica do Torneio Meninas na Matemática (TM²) – competição, que no Brasil, é a porta de entrada das seletivas para a EGMO.

Ana Paula Chaves atua ativamente em projetos voltados para olimpíadas de Matemática desde 2013 | Foto: Reprodução Site UFG 

Para a líder, o resultado vai além das medalhas e simboliza o fortalecimento de iniciativas que incentivam a participação feminina na matemática olímpica e acadêmica. “O significado é enorme para a comunidade olímpica brasileira, especialmente para todos aqueles que idealizam, apoiam e acreditam em projetos voltados às meninas. É uma grande coroação do trabalho desenvolvido pelos professores que contribuíram para a formação dessas estudantes e de todos que fizeram parte de suas trajetórias. Estamos vendo, a cada ano, o Brasil alcançar posições de destaque cada vez mais expressivas em competições internacionais femininas”, afirma Ana Paula. 

Ponto a ponto 

A medalhista de ouro, Julia Leguiza, conta que a conquista foi motivo de grande emoção. “Um pouco antes da cerimônia eu já sabia que tinha ganhado ouro e fiquei muito feliz. Foi uma grande surpresa, já que a última medalha de ouro do Brasil na EGMO havia sido conquistada em 2019”, relata.

A estudante acumula uma trajetória de destaque em competições internacionais. Ela já representou o Brasil em países como Argentina e México, sendo eleita a melhor competidora da Pan-American Girls’ Mathematical Olympiad (PAGMO), na edição de 2024. “As olimpíadas abriram muitas portas na minha vida. Minha primeira viagem nacional e internacional foi por meio delas e, a partir disso, conheci pessoas incríveis de diversas partes do Brasil e de outros países. Sempre foi uma experiência muito gratificante participar de tudo isso”, comenta. 

A delegação brasileira foi a campeã na Pan-American Girls’ Mathematical Olympiad (PAGMO) de 2024 | Foto: Reprodução Site OBM 

Em moldes parecidos com a Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, na sigla em inglês), a EGMO conta com duas provas discursivas, realizadas em dois dias consecutivos. Cada uma é composta por três problemas a serem resolvidos em 4,5 horas. Na competição, não é considerado apenas o resultado, mas também a linha de raciocínio aplicada à solução dos problemas, com foco no detalhamento e descrição das resoluções. 

“Fomos acompanhando ponto por ponto. A cada questão que íamos debatendo com a coordenação de problemas da olimpíada, víamos a nota se formar. Um processo que, apesar de muito desgastante e muito trabalhoso para a liderança, foi muito emocionante. Ver que Julia e as outras meninas conseguiram pontuações para colocar o Brasil nessa posição de 15º lugar mostra que elas são realmente talentosíssimas”, avalia Ana Paula Chaves. 

Para além das contas

A participação brasileira na EGMO representa também um importante passo para ampliar a presença feminina na matemática. A medalhista de ouro brasileira destaca que a experiência vai muito além dos resultados obtidos nas provas. “É um grande avanço e serve de inspiração para que mais pessoas se interessem pela área. Conectar-se com outras meninas que amam matemática e se destacam nisso é inspirador e motiva a continuar nesse ramo”, afirma Julia. 

Julia Leguiza foi a única brasileira a conquistar a medalha de ouro na edição 2026 da EGMO, e a segunda na histórico brasileiro dentro da competição | Foto: Arquivo pessoal

Segundo a líder da delegação, Ana Paula, o sentimento de pertencimento gerado por essas experiências contribui diretamente para o desenvolvimento da confiança das participantes. “Quando, dentro dessas iniciativas, elas acabam encontrando uma comunidade à qual pertencem e na qual se sentem à vontade, ficam muito mais motivadas a seguir, a continuar, a se desenvolver mais e passam também a confiar que elas, sim, podem alçar voos maiores ainda”, ressalta.

Ana Paula também destaca a importância do apoio institucional para ampliar o alcance dessas oportunidades e garantir que mais meninas tenham acesso ao universo das olimpíadas científicas. “Contamos com o alcance institucional da OBM, da SBM e de vários órgãos para fazer com que as pessoas tomem conhecimento dessas oportunidades e para que as meninas saibam que existe uma competição, uma comunidade e um espaço que são feitos e pensados para elas. É realmente essencial que a gente tenha esses apoios para poder tocar esses projetos”, explica.

A delegação brasileira teve desempenho de destaque, com todas as suas integrantes premiadas: uma medalha de ouro, uma de prata, uma de bronze e uma menção honrosa | Fotos: Arquivo pessoal 

Engajada nas competições matemáticas desde cedo, Julia deixa ainda uma mensagem para outras estudantes que têm interesse pela área, mas hesitam em participar das olimpíadas. “Olimpíadas de matemática são para pessoas que gostam de matemática, independentemente de outros fatores. Se você gosta de resolver problemas olímpicos, não deveria se sentir acanhada em participar. Não há nada a perder e muito a ganhar”, conclui.