Editor-chefe da Revista Professor de Matemática (RPM) e coordenador acadêmico da OBM conquista reconhecimento internacional na área olímpica

Na linha de frente da Olimpíada Brasileira de Matemática há mais 30 anos, Edmilson Motta foi agraciado com o Prêmio Paul Erdős

A premiação internacional distingue figuras de destaque em contribuições ao fortalecimento das competições matemáticas | Foto: Reprodução

Edmilson Luis Rodrigues Motta, coordenador acadêmico da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e editor-chefe da Revista do Professor de Matemática (RPM), publicada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM),  foi agraciado com o Prêmio Paul Erdős. Concedido pela World Federation of National Mathematics Competitions (WFNMC), o Prêmio é uma das mais significativas honrarias voltadas ao reconhecimento de contribuições ao fortalecimento das competições matemáticas em âmbito internacional. 

Criada em 1992, a premiação distingue pesquisadores e educadores que se destacam na elaboração de desafios matemáticos e na promoção das olimpíadas científicas. Nomeado em homenagem ao matemático húngaro Paul Erdős (1913-1996), o prêmio tem como norte princípios que marcaram sua trajetória: como a colaboração, criatividade e difusão do conhecimento. Na edição de 2018, o agraciado foi o também brasileiro, Carlos Gustavo Tamm de Araújo Moreira, o Gugu, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e ainda hoje coordenador-geral da OBM. 

Referência no universo das competições matemáticas no Brasil e diretamente envolvido com a OBM há quase quatro décadas, Edmilson Motta revela que a notícia do reconhecimento, além de tê-lo pego de surpresa, também chegou em um momento repleto de simbolismo. O e-mail que trazia a nomeação foi recebido justamente ao final da 29ª Semana Olímpica da OBM, realizada em Vitória (ES), no mês de janeiro. Tradicional etapa da agenda olímpica, o evento é realizado anualmente desde 1998, reunindo medalhistas do Brasil inteiro em uma semana imersiva de atividades, além dar início ao processo de seleção das equipes que irão representar o Brasil nas diversas competições internacionais durante o ano. 

A Semana Olímpica é uma iniciativa da Associação Olimpíada Brasileira de Matemática (AOBM), com apoio da SBM e do CNPq | Imagem: Divulgação

“Estava indo para o aeroporto, e era um caminho que, em vários momentos, não tinha internet. Numa hora em que pegou a internet, eu vi o e-mail dizendo que eu tinha sido agraciado com o prêmio. Foi uma descoberta que foi vindo aos poucos, mas uma surpresa bastante grande mesmo. E eu fiquei muito feliz, porque eu sou uma pessoa que não sou muito de me emocionar, mas educação, a Matemática para a educação básica e as Olimpíadas são algo a que eu me dedico já há quase 40 anos”, conta o professor. 

Das primeiras turmas à liderança 

Edmilson atua há mais de dez anos como Coordenador Acadêmico da OBM e, há ainda mais décadas, é um dos mais importantes criadores de problemas olímpicos do país, com centenas de questões propostas para competições nacionais e internacionais. Ele conta que sua trajetória com a educação matemática voltada às competições foi iniciada nos anos 1990: “Quando eu comecei a participar da preparação, dar aula para alunos e me envolver, logo depois, com a composição da prova, isso foi muito cedo. Em 1990, eu já tive meus primeiros alunos premiados na OBM. Em 1991, já estava envolvido com atividades oficiais de treinamento, ajudando a montar lista.”

Logo depois, em 1992 e 1993, o professor passou a integrar a equipe de correção e seleção dos participantes. Em 1994, inaugurou sua trajetória em cargos de liderança, assumindo a função de vice-líder da equipe brasileira. Segundo ele, a oportunidade de estar tão diretamente envolvido com a OBM desde muito cedo lhe deu a chance de acompanhar de perto o florescimento de uma das mais importantes competições olímpicas do país.  

Edmilson é envolvido com a preparação de estudantes para competições matemáticas desde 1990 | Foto: SBM

“Eu estava na Semana Olímpica zero, fui um dos realizadores, junto com um grupo de outros professores e alunos da época, de uma maneira bastante precária, há 30 anos, em Fortaleza. Eu vi acontecer praticamente tudo que permitiu que a Olimpíada tivesse a importância que tem hoje, atingindo outras disciplinas também. Eu vi todo esse processo acontecendo, crescendo, e foi com grande felicidade que eu vi tudo ocorrer e as Olimpíadas terem a importância na educação brasileira que têm hoje”, relembra. 

Ao refletir sobre sua trajetória, Edmilson relembra o momento em que, ainda muito jovem, voltou seu olhar para a educação básica. Contribuir com a formação inicial de estudantes e evidenciar a importância da Matemática na vida das pessoas tornaram-se escolhas conscientes em seu caminho profissional: “É uma opção que eu tive num certo momento da minha vida, em me dedicar à educação básica, apesar de o meu sonho inicial, quando eu era bem jovem, era ser pesquisador. Mas eu percebi que eu poderia ter a possibilidade de influenciar muita gente positivamente na formação, influenciar muita gente a gostar de Matemática, seja para uma carreira em Matemática, mas muito mais do que isso, entendendo que a Matemática pode ter importância na vida.”

Além disso, Edmilson reúne posições de destaque também no âmbito da projeção internacional. Há mais de 30 anos participa da seleção e do treinamento das equipes brasileiras que competem na Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), na Olimpíada Ibero-Americana de Matemática (OIM) e na Olimpíada Matemática do Cone Sul. Ao longo desse período, exerceu as funções de líder, vice-líder e coordenador em diversas edições da IMO. Em 2017, foi Chairman da competição, realizada no Rio de Janeiro, na primeira edição do evento no Brasil.

RPM e OBM: um diálogo complementar 

Atualmente, Edmilson também atua como editor de coleções da Sociedade Brasileira de Matemática voltadas à Iniciação Científica e às Olimpíadas de Matemática, além de ser editor-chefe da tradicional Revista do Professor de Matemática (RPM).

Para Edmilson, a conexão entre as duas frentes é natural: “A RPM e o trabalho na OBM têm um diálogo perfeito, porque, pela OBM, a gente tem acesso ao que há de mais elaborado em termos de conteúdo para a educação básica. Ideias que resolvem problemas difíceis podem aparecer como temas aplicáveis na educação básica, que é o que a RPM procura trazer para professores do ensino fundamental II e do ensino médio. Eu tenho tentado trazer o melhor das Olimpíadas para a RPM e ter essa perspectiva do professor na elaboração da OBM.”

Publicada pela SBM, a RPM é uma publicação destinada àqueles que ensinam Matemática, sobretudo nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio. A revista publica artigos de nível elementar ou avançado, desde que acessíveis ao professor do ensino médio e a alunos de cursos de Licenciatura em Matemática.  

Com artigos de nível elementar ao avançado, a RPM é destinada a docentes que atuam nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio | Foto: SBM

A trajetória de Edmilson é marcada por consonância entre discurso e prática: das primeiras turmas de preparação há mais de 30 anos à atuação em instâncias internacionais, sua história se consolida com o fortalecimento das competições matemáticas no Brasil. Para ele, mais do que um reconhecimento individual, o Prêmio simboliza uma dedicação contínua à formação de jovens talentos e ao diálogo permanente entre excelência acadêmica e educação básica.

“A mensagem que eu gostaria de deixar para estudantes e professores é que Matemática vale muito a pena. Estudar matemática é algo que, apesar de eu ter ido profissionalmente por um caminho conectado à educação e não à pesquisa, está no meu dia a dia, me torna um educador melhor, um cidadão melhor. A Matemática está na essência do conhecimento humano. Trazer novas intuições, novas visões, uma economia mais forte, oportunidades para todos”, reforça. 

E finaliza, com um conselho que resume sua própria postura diante do conhecimento: “E uma mensagem mais pessoal: não tenha medo de assunto nenhum, acredite sempre que você pode aprender. Ter paciência, saber que tópicos difíceis vão demorar para serem aprendidos. Isso faz muita diferença, em especial na Matemática. Ter mais conhecimento, saber mais, por toda a beleza que a Matemática tem, vale muito a pena.”