Dos movimentos da dança clássica às complexidades da matemática, Suely Druck mostra que talento e dedicação não têm limites e podem moldar o futuro da matemática no Brasil

Filha do Rio de Janeiro e apaixonada por matemática desde a juventude, Suely Druck teve no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) um marco definitivo em sua formação. Foi ali que, três anos depois de concluir um curso de Licenciatura, ela redescobriu a matemática e consolidou o caminho que seguiria como pesquisadora e professora. Duas décadas depois, na mesma instituição onde viveu este momento definidor, a carioca recebeu um reconhecimento que sintetiza sua contribuição à comunidade científica: foi eleita associada honorária da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).
A atribuição lhe foi concedida durante o 35º Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado de 28 de julho a 1º de agosto ali mesmo no IMPA. Suely foi homenageada ao lado de Walcy Santos. A honraria, concedida a matemáticos e matemáticas com contribuições excepcionais à área, marca o reconhecimento de trajetórias que transformaram a matemática brasileira — nas palavras da própria Suely Druck, “uma honra que simboliza que tudo valeu à pena, tanto científica quanto politicamente”.
Dualidade entre balé e ciência
Suely descobriu cedo seus dois grandes talentos: a matemática e o balé clássico. Considerada uma bailarina prodígio, ela se destacou em apresentações e competições desde muito jovem. No entanto, ao atingir 1,70m aos 14 anos, sua carreira nos palcos foi interrompida devido às exigências rígidas das companhias de dança da época. “Felizmente não coube a mim a escolha da profissão”, conta.
Apesar desse revés, o balé permaneceu presente em sua vida, não apenas como uma atividade física ou artística, mas como uma disciplina que cultivou rigor, paciência e atenção aos detalhes — qualidades que também se mostraram essenciais em sua trajetória científica.
A paixão pela matemática, entretanto, seguiu firme e ganhou força, permitindo que ela transformasse a curiosidade e a disciplina adquiridas no balé em dedicação à pesquisa. Por muitos anos, ela continuou praticando a dança como amadora, mantendo vivo o vínculo com a arte e equilibrando duas paixões que, à primeira vista, pareciam tão distintas, mas que, na prática, se complementavam em sua formação pessoal e intelectual.
Formação acadêmica e área de pesquisa
Graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Suely enfrentou os desafios de estudar em plena ditadura militar, em um curso de Licenciatura em Matemática com limitações. O ponto de inflexão em sua trajetória acadêmica viria três anos depois, ao ingressar no IMPA. “Foi um choque e aí redescobri a matemática para sempre”, relembra ela.

Com mestrado pelo IMPA e doutorado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a carioca construiu uma carreira sólida como pesquisadora na área de Topologia Diferencial, especialmente em Teoria das Folheações.
Seus estudos abordaram temas complexos como estabilidade, grupos nilpotentes e fibrados, contribuindo para o avanço do conhecimento matemático no país e consolidando seu papel como referência na área.
Compromisso com a formação de novas gerações
Professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (UFF), Suely coordenou a pós-graduação do Instituto de Matemática, dedicando-se intensamente à orientação de alunos de mestrado e doutorado. Para ela, formar novas gerações de matemáticos vai muito além de transmitir fórmulas e conceitos: trata-se de cultivar valores científicos, estimular a curiosidade e incentivar a criatividade.
Suely também teve experiências internacionais, como sua passagem como professora visitante na Université Paul Sabatier, em Toulouse, na França, o que permitiu ampliar sua visão sobre métodos de ensino e colaboração científica. Ao longo de sua carreira, ela enfatizou que cada orientando é uma continuidade de seu próprio trabalho e que investir em educação e acompanhamento acadêmico é fundamental para o crescimento da matemática no Brasil.

Seu compromisso com a formação de jovens pesquisadores consolidou uma tradição de excelência e dedicação, tornando-a uma referência não apenas pela produção científica, mas também pelo impacto duradouro na comunidade acadêmica.
Liderança na SBM e criação da OBMEP
Entre 2001 e 2005, Suely assumiu a presidência da SBM em um momento crucial para a comunidade matemática. Seu mandato foi marcado por conquistas relevantes, como o avanço do Brasil no ranking da União Matemática Internacional (IMU, sigla em inglês) do nível 3 para o 4, e pela criação de uma das iniciativas mais emblemáticas da educação matemática brasileira: a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), concebida durante sua gestão.
“A OBMEP foi uma boa resposta, mas que considero ainda incompleta”, admite. Se por um lado o projeto divulgou amplamente a matemática e ajudou a descobrir talentos em todo o país, por outro, Suely observa que os impactos no ensino ainda precisam avançar: “não melhorou significativamente a qualidade do ensino da matemática no país. Ainda há bastante trabalho a ser feito”.
Além da OBMEP, uma de suas grandes paixões dentro da SBM foi a Editora, da qual se orgulha especialmente por iniciativas como a criação da coleção ‘Textos Universitários’, a publicação do livro de Manfredo Perdigão e a revitalização de outras séries editoriais da sociedade.
Desafios atuais da matemática no Brasil
Ao ser questionada sobre os principais desafios da matemática no Brasil hoje, Suely destaca o contraste entre o avanço da pesquisa e as fragilidades no ensino básico.
“A pesquisa em matemática no Brasil está muito bem consolidada”, afirma. “No entanto, a matemática nas escolas ainda é uma barreira que impede o florescimento de inúmeros talentos que poderiam contribuir para o desenvolvimento técnico-científico do país”, completa a pesquisadora.
Ainda assim, ela se mantém otimista quanto ao papel da SBM. “Cabe à Sociedade mostrar valores e pendências que ainda precisamos conquistar”, diz Suely, especialmente no que diz respeito ao incentivo à diversidade e ao engajamento da comunidade científica.
Um legado de engajamento e amor pela matemática
Suely também deixa conselhos para quem inicia sua jornada na matemática: valorizar a curiosidade, especialmente entre as meninas, e buscar uma competitividade saudável num ambiente desafiador como o da pesquisa.
A honraria recebida no Colóquio coroa a trajetória de Suely Druck marcada pela seriedade científica, pelo engajamento institucional e pelo amor à matemática — uma vida que, como ela mesma diz, “foi feita de cansaço-alegria, desespero e boas soluções”.
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